Aos 48 anos, Jorginho tem um currículo com títulos e sem marcas de indisciplinas. Campeão do mundo pela Seleção em 1994, ele sempre pautou sua carreira e sua vida pelo profissionalismo e respeito a regras, mas diz que não é “nenhum santinho”. Com estilo franco, o treinador fala com olhar fixo nos olhos do entrevistador. Comenta os problemas, não aceita falar em eliminação na primeira fase da Copa do Brasil, e diz que, mesmo sem estrelas, vai buscar títulos em 2013.
– É inaceitável a gente perder (a vaga para o Remo), não pode ficar fora. Nem passa pela minha cabeça.
Você completa 30 dias de Flamengo nesta quinta-feira. Apesar de conhecer o clube, tudo que ronda, de ter jogado, esperava que esse início fosse complicado assim?
Por causa dos resultados, naturalmente se tornou mais difícil. Você está o tempo todo jogando debaixo de pressão, você precisa de um resultado, de um bom resultado, então é natural que a pressão aumente. Mas Flamengo sempre foi assim. Na minha época era assim. O que eu tenho acompanhado de Flamengo as coisas são muito maiores. Qualquer coisa que saia do Flamengo é uma coisa muito grande. Qualquer espirro aqui o cara já está com pneumonia e por aí vai. Era uma coisa já calculada que poderia acontecer, mas é claro que os resultados não aconteceram, a gente ficou fora da Taça Rio, aí aumentou um pouquinho essa pressão.
O que encontrou na chegada?
O time estava muito abatido, muito abatido. Você via que o ambiente estava um pouco carregado, o ambiente não estava light. Estou dentro do futebol há muito tempo e sei muito bem quando o ambiente está legal, quando a coisa está fluindo, e quando as coisas não estão legais. A gente vem trabalhando a questão psiciológica. Aqui (Pinheiral) está sendo muito bom para mim. É um tempo que tenho para conversar com os atletas, a gente bater papo. Você vê o cara se alegrando, brincando. Vai criando uma cumplicidade muito grande entre nós ao ponto de a gente fazer aquela forma de jogar contra o Fluminense, com sangue nos olhos, com vontade, e eles saberem quem eles são. Quando a gente perde, nem tudo é ruim. Quando a gente ganha, nem tudo são flores. A gente tem que estar ligado.
O que você deixou de fazer desde que assumiu o Flamengo?
Deixei de fazer muita coisa. Quando a gente perde, não dá para sair muito na rua, evito. Vou em local que não é tão cheio. Moro na Barra, vou num shopping mais tranquilo, com menos gente. Mas é uma coisa normal. A gente está tão preocupado, preciso ver muita coisa. Deixei por falta de tempo. Eu preciso demais ver jogos. Tive de ver todos os jogos do Flamengo no primeiro turno, tive que ver os meus adversários, rever dois, três jogos. Isso requer tempo. Não posso ficar na rua. É um período normal que estou passando até que as coisas se ajeitem. Gosto muito de sair uma vez por semana com a minha esposa, só eu e ela, não tenho tido esse tempo. Mas a gente vai voltar a ter (risos).
E a família está lidando bem com isso? Abraçou o seu projeto?
Bem, bem. Sabem que é o momento importante, que preciso ter um tempo necessário, a nossa vinda para cá (Pinheiral). Estou longe de casa há cinco dias, vou ficar longe depois numa intertemporada. Mas eles sabem que isso é muito importante, principalmente para o início. Não há um relaxamento quando você acerta sua equipe taticamente, que você consegue colocar tudo que você gosta, mas naturalmente as coisas começam a fluir muito mais fácil.
Como está o contato com o torcedor na rua?
Mesmo com essas derrotas, sempre foi de respeito. Ainda há torcedores dizendo que confiam no trabalho, que vou vencer aqui. Isso foi muito legal. É normal, no jogo, xingar, no jogo passado (no Fla-Flu). O torcedor não sabe que o Gabriel pediu para sair. Então ele xinga de burro, é normal. É o mínimo que o treinador ouve. Mas sempre, de uma forma geral, de muito apoio.
Ouvir esse “burro” da torcida do Flamengo incomodou mais?
Não (risos). Em todos os clubes, a começar pelo América, onde tinha um senhor que me chamava de burro o tempo todo, já virou uma coisa natural. Qualquer substituição que você faça que não agrade o torcedor, porque ele acha sempre que você tem que colocar o time para frente, tem que colocar três atacantes. E nós já tivemos experiências profundas em que treinadores que conheço muito bem enfiaram quatro atacantes e deu tudo errado. Não é isso. O torcedor é um apaixonado. Estudei sobre isso. É o único lugar que é o mais democrático possível. Quando xinga sua mãe, está expressando o sentimento de momento para ele. Está ali para botar para fora. Não pode xingar o patrão, mas pode me xingar. Sei que o torcedor do Flamengo tem respeito muito grande pela minha história aqui dentro. Tem respeito pelo meu trabalho. Tenho certeza absoluta que ao final do ano ele vai se alegrar muito com todo o trabalho.
A sua conta no Twitter não sobreviveu ao primeiro mês de trabalho. O que te fez cancelar?
Não era um meio de ter um contato legal com o torcedor. Infelizmente, tem muita gente desrespeitosa. Quem lê o Twitter não sou só eu. Tem minha filha, minha esposa, minha filha pequena. Não quero que eles…entendeu? Foi assim. E com respeito com aqueles que são torcedores mesmo. Sou o tipo do cara que não coloca atuações, só vou falar que fizemos um bom jogo, ganhamos o jogo, perdemos o jogo. Vou falar só isso. Não dá para ter um relacionamento ali, por isso acabei eliminando.
Na semana passada, houve o episódio da bronca com Hernane. Ficou incomodado com a repercussão?
Palavrão, palavrão, eu não xingo. Nunca vou te chamar de filho disso, vai tomar naquele lugar. Não faço isso. Nunca fiz isso com os atletas, sinceramente. E eu acho que é uma falta de respeito. Agora, você xingar um p…? P…, aqui no Rio, é palavrão. No Paraná, não é. Os caras falam “ôrra” o tempo todo. Mas é mais uma questão da entonação de o atleta entender que (soca a palma da mão) naquele momento tem que estar ligado. E foi muito bom. Isso trouxe uma aproximação minha com o Hernane, depois pude conversar com ele olho no olho, disse que confiava no trabalho dele, que ele ia voltar a fazer gol. E foi muito bom que aconteceu. É uma coisa de momento. Isso pode acontecer com o Hernane, com o Rafinha, pode acontecer com o Renato Abreu ou Léo Moura. Não importa a idade e quem é. Importante é entender que aquilo que estou falando é para o bem do Flamengo e da equipe. Se tornou uma coisa um pouqinho maior porque uma semana antes haviam falado que não falo palavrão, aquela coisa toda. Falta de respeito eu não vou fazer. Mas se tiver de falar mais firme, é do futebol. Se acontecer de sair, sou gente, sou ser humano, vou ter falhas. Muitas vezes vou falar coisas que não devo. Isso já aconteceu na minha carreira. Entrevistas que não deveria ter falado uma coisa. São coisas naturais.
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