Entre gols e deslizes, Luis Suárez escreve sua história no futebol por caminhos tortuosos. Tal qual um “Macunaíma” da bola, vive o papel de um herói de atitudes duvidosas. Perseguido na Inglaterra, onde joga pelo Liverpool, e amado pelos uruguaios, o atacante mostra tanta facilidade para brilhar nos gramados quanto para se meter em polêmicas. Uma das principais esperanças de a Celeste repetir na Copa das Confederações a vitória histórica no Mundial de 1950 no Brasil (assista ao golaço de falta sobre a Espanha na estreia no vídeo ao lado), o jogador quase passou pelo país antes de explodir na Europa. Acredite: por muito pouco ele não virou ídolo de uma nação de quase 40 milhões de torcedores – dez vezes o tamanho da população do Uruguai.
Era janeiro de 2006. Suárez, então com 19 anos, ainda não tinha estourado no Nacional, clube que o revelou. Na época, o Flamengo estava firmando uma parceria com o time uruguaio, e o ex-jogador Andrade, então olheiro rubro-negro, embarcou para Montevidéu a fim de observar alguns jogadores promissores. Gostou de Gonzalo Castro, mas o negócio não vingou. Viu também Luisito. Não se empolgou. E pouco depois expôs para jornalistas na Granja Comary – palco da pré-temporada rubro-negra naquele ano – a avaliação da qual ele deve se arrepender até hoje, e grande parte da maior torcida do Brasil lamentar.
– Ele não é melhor que nossos atacantes jovens da base, como o Fabiano Oliveira – afirmou.
Sete anos depois, Fabiano Oliveira defendeu recentemente o Boavista depois de diversas passagens apagadas por empréstimo por clubes como Fortaleza, Goiás, Nacional (POR) e até por equipes de menor investimento do futebol turco. Tem contrato com o Flamengo até julho de 2013. Enquanto o vetado Luisito, com apenas 26 anos, já é o maior artilheiro da história da seleção do Uruguai (com 33 gols, igual a Diego Forlán), referência no Liverpool, da Inglaterra, e atualmente vive a expectativa de uma transferência para o poderoso Real Madrid.
Vetado no Fla, ‘El Pistolero’ explode no Ajax
Pressionado, voltou a render no Nacional, clube que começou a defender em 1998 quando tinha apenas 11 anos. Logo recebeu o apelido de Coelho, por causa de sua velocidade. Até que ganhou a primeira oportunidade na equipe profissional no dia 3 de maio de 2005 em uma partida contra o Júnior Barranquilla, da Colômbia, pela Libertadores. O primeiro gol veio quatro meses depois. Surgiu, então, a quase ida para o Flamengo, vetada por Andrade. E, no meio de 2006, o modesto Gronigen, da Holanda, teve a visão que faltou ao Rubro-Negro. Por 800 mil euros (cerca de R$ 2,3 milhões), o garoto de Salto partia para o seu primeiro desafio europeu.
Precisou apenas de um ano para se destacar. Estreou dando show, com um gol, três assistências e ainda um pênalti sofrido. Em 37 partidas na temporada, balançou as redes 15 vezes. E despertou o interesse do Ajax, que desembolsou 7,5 milhões de euros (cerca de R$ 21,8 milhões) para contratá-lo. Em 12 meses, o atacante teve uma valorização de quase 840%. Foi com a camisa de um dos maiores clubes da Holanda que ele começou a comemorar seus gols como se estivesse atirando. Virou “El Pistolero”.
Mas também se envolveu na primeira grande polêmica de sua carreira profissional. Em 2010, mordeu o jogador Otman Bakkal, do rival PSV Eindhoven, e foi suspenso por sete partidas pela Federação Holandesa. Em pouco mais de 90 minutos, o Coelho passou a ser chamado de Vampiro.
– Luiz não aceita a derrota e o temperamento o leva a cometer alguns erros às vezes. Mas, nos últimos anos, ele tem sido muito perseguido, o que o tem deixado de saco cheio. É um dos que mais apanham e, por mais que alguém seja calmo e simpático, não consegue ficar alheio a tanta provocação. Uma hora acaba perdendo a cabeça – defende o amigo Diego Lugano, zagueiro e capitão do Uruguai.
Naquele mesmo ano, Suárez viria a ser um dos principais nomes do Uruguai na Copa do Mundo de 2010, ao lado de Fórlan. Em seis jogos, marcou três vezes. Mas em seu lance mais importante no torneio a bola sequer chegou a estufar a rede. No último minuto da prorrogação das quartas de final contra Gana, defendeu com as mãos uma conclusão que seria o gol da classificação do adversário. Expulso, explodiu de alegria ao assistir do lado de fora a cobrança de pênalti de Gyan no travessão. Quase um gol às avessas. Quis o destino que na disputa por pênaltis a Celeste garantisse seu retorno à semifinal do Mundial depois de 40 anos. E que o lance mais surreal da competição definisse bem o lado anti-herói do atacante.
Chamado de antiético após o lance, provocou a seguinte manchete de um jornal sul-africano do dia seguinte: “A África foi roubada”. Em Montevidéu, no entanto, o menino humilde de Salta era mais ídolo do que nunca.
– Considero que parte do jogador é a pessoa. E a rebeldia e a maneira de ser de Suárez o fazem um grande jogador. Joga da mesma maneira em um amistoso e em uma partida de Copa do Mundo. Ainda mostra imaturidade em alguns casos, mas é uma excelente pessoa e tem um talento exuberante. Um homem de família, que não faz as coisas por maldade. A mão na bola contra Gana rendeu muitas críticas, mas ele salvou o Uruguai. E o fez dentro do regulamento. Foi expulso e ficou fora do jogo seguinte. Pagou pelo que fez. Não sei por que o mundo o viu como um jogador sem ética. Não foi isso. Luiz só jogou dentro do regulamento. Se ele puder ser um grande jogador sem essas polêmicas, melhor. Mas também é muito difícil de encontrar um jogador com tanta raça, tanta vontade de jogar que não tenha pequenos problemas assim – opinou o jornalista uruguaio Mário Uberti.
E aí Nação, o que vocês acharam? Comentem! Siga-nos também no