Elias revela salários atrasados no Sporting e confiança na palavra da diretoria.

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Ponto de equilíbrio do atual Flamengo, o meia paulistano de 28 anos superou uma depressão e teve interferência de Rincón, Mano Menezes e Felipão em sua carreira. Em entrevista ao GLOBO, ele lembra com carinho de conselhos que deu para Paulinho, hoje titular da seleção brasileira.

Você era atacante na base. Como se transformou no jogador que é hoje?

Todo sonho de criança é fazer gols, ser atacante. Fiz minha formação no Palmeiras e sempre fui atacante. Chegou o momento de decidir se seria profissional, tive que sair e fui procurar novos ares. No primeiro clube, não deu certo, foi o Náutico. Depois, fiz teste no São Bento-SP e tive como treinador o Rincón, que falou: “Vou te dar uma oportunidade, mas não vai ser de atacante. Você vai jogar de meia.” Eu estava quase há um ano sem clube e falei: “Se é essa oportunidade que você vai me dar, posso jogar.” Procurei me adaptar, e ele me ajudou muito. Jogava mais adiantado, era um meia ofensivo.

Quando virou um volante?

Fui para o Juventus-SP, fiz um bom campeonato e me contrataram para a Ponte Preta como meia-atacante. Chegamos à final do Paulista, e o Mano me levou para o Corinthians. No primeiro treino, ele me chamou e falou: “Vou te escalar numa função mais atrás, mas não vou tirar a sua liberdade de atacar. Pode chegar de surpresa.” Quando me mostrou na prancheta, falei: “Nunca fiz, mas se você me der confiança e sequência para que eu possa render, vou procurar me adaptar e dar meu máximo.” E ele me deu oportunidade, sequência e confiança para eu desempenhar essa função de segundo volante.

Ao sair das divisões de base, você ficou sem clube. Pensou em desistir do futebol?

Passei oito anos da minha vida acordando cedo todo dia e indo treinar. Chega um momento, aos 20, 21 anos, que você não tem mais isso e deixa de fazer sua rotina. Então, você tem uma depressão, fica triste, porque eu não sabia fazer mais nada na vida. Claro que ia estudar e me virar se não desse certo no futebol. Um tio foi meu maior incentivador. Ele é preparador físico, ia me buscar para treinar. Eu não queria sair de casa e, às vezes, até me escondia.

Você foi a maior contratação da história do Sporting. Por que deixou Portugal?

No meu segundo ano, o Sporting começou a sofrer com a crise financeira em Portugal. Até hoje, ninguém sabe por que eu saí. Saí porque estava com oito meses de salários atrasados, e o primeiro objetivo que tracei ao sair do Brasil foi a independência financeira. É difícil você ficar longe da família, dos amigos, do seu país e não receber. Nunca falei isso publicamente para não atrapalhar o Sporting e as eleições que estavam acontecendo na época. Tentei fazer o acordo dessa dívida, não foi possível, e saí porque falei que não ia suportar mais. O projeto que o Flamengo me ofereceu era muito bom. Tive que sair, mesmo que por empréstimo.

Não temeu que o problema se repetisse no Flamengo?

Sempre acredito na palavra das pessoas. Me deram a palavra que o Flamengo ia passar por uma situação difícil num primeiro período, mas, no final das contas, iam acertar aquilo que acordaram. Até hoje, não tive problema. Se atrasa uma ou duas semanas de salário, é normal, não vai fazer diferença. O que não pode é deixar virar uma bola de neve, e o Flamengo está cumprindo sua palavra.

Seu empréstimo vai até dezembro. Quer prolongá-lo?

No futebol, nunca digo não. Não vou falar que vou ficar de vez ou que quero ir embora. Vivo um dia de cada vez. Minha cabeça hoje é ficar no Flamengo, claro, até dezembro. Depois, a gente vai conversar. Eles vão conversar com o Sporting. Vamos ver a medida que vou tomar contra o Sporting para defender meu futuro, porque quero um acordo. Se não tiver um acordo, vou ser obrigado a ir atrás dos meus direitos. A partir de dezembro, vamos conversar com o Flamengo para ver se permaneço aqui ou volto para Europa.

Viver no Rio pesa?

Todo mundo fala que aqui é a Cidade Maravilhosa, e realmente é. Meu filho está adaptado, minha mulher, também. Pretendo comprar um “apezinho” para visitar a cidade ou até morar aqui. Se depender da Cidade Maravilhosa, posso ficar depois de dezembro.

Como viu as saídas de Renato Abreu e Alex Silva?

Procuro não dar opinião porque não sei ao certo o que aconteceu. O que posso falar é desejar sorte, porque são grandes jogadores e ajudaram a gente da melhor maneira. Torço para que solucionem o caso o mais rápido possível, para que possam seguir suas carreiras.

Você é muito próximo do Paulinho, titular da seleção. Como o conheceu?

O Paulinho era do mesmo bairro que eu, Vila Maria, Zona Norte de São Paulo, e eu não sabia. Quando ele foi para o Corinthians, um amigo me avisou. Ele é do bairro, e o adotei, como me adotaram quando cheguei ao Corinthians. Procurei passar tudo que aprendi e vivi, certo e errado, para que ele pudesse seguir uma vida tranquila no clube. Até hoje converso com ele. Ele tinha uma certa ansiedade, queria jogar, e eu falava: “Calma, sua hora vai chegar. Se prepare porque quando a oportunidade aparecer você tem que estar pronto.” Às vezes, ele não ia nem para o banco. Isso criava uma insegurança. Falei: “Um dia, vou sair, e quem vai estar no meu lugar é você, porque é o único jogador que pode fazer o que eu faço. E pode fazer até melhor. Você é um jogador completo.” Ele ouviu, trabalhou duro e hoje é esse Paulinho que todo mundo está vendo.

Você foi convocado por Mano. Espera uma chance na seleção com Felipão?

Um dos caras que me indicaram para o Atlético de Madri foi ele. Perguntaram se ele me conhecia. Ele disse que sim, que eu era um grande jogador e que poderiam me contratar. Falei com ele e agradeci essa dica. Conheci o Felipão na época da base do Palmeiras. Ele era da principal, e eu, da base. Ele conhece meu estilo, mas, para ser convocado, tenho que estar bem aqui, disputando lá em cima.

O ingresso mais barato do Maracanã hoje custa R$ 100. Acha normal isso?

Já peguei dez (ingressos) e vai pesar um pouquinho no bolso. A família é grande, está ansiosa para me ver no Maracanã. Hoje o futebol está meio elitizado. Não é aquele público, aquela massa, que sempre se acostumou a ir aos estádios, mas é o que há. A gente procura respeitar isso, mesmo não concordando. Mas procura ajudar o povo a cobrar para diminuir o preço dos ingressos. O futebol é popular aqui no Brasil e tem que haver ingressos populares.

Você já foi torcedor de arquibancada, não é?

A torcida do Flamengo sabe que sou Corinthians. Sempre gostei de futebol, sempre fiquei atrás do gol lá no Pacaembu. Ia na época do Parque São Jorge ainda. O Corinthians mandava jogos lá, e o preço de ingresso era R$ 10, R$ 5. Estava sempre cheio, e isso tem que voltar. Você tem que elitizar alguns setores, sim, mas tem que deixar os setores populares para o povo.

Fonte: O Globo


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