Jornalista crítica comportamento imposto aos torcedores no Maracanã.

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Começou a arquitetura humana. Por incrível que pareça, sentiremos falta dos tempos dourados em que discutíamos cadeiras, lonas e visões de campo das novas “arenas”. É chegada a hora dos aprendizes de feiticeiro tentarem modelar os homens, numa tentativa radical de reinventar o ato de torcer no Brasil.

No Novo Maracanã, ícone de um futebol em transformação, há uma guerra lançada contra as pessoas. Querem impedir o torcedor de ver o jogo em pé. Querem também convencê-lo de que não é civilizado tirar a camisa num “espetáculo” (“onde já se viu gente mostrando a barriga no Scala de Milão, não é, minha gente?”).

Mas a guerra é também contra os objetos. Além das bandeiras tradicionais, querem sumir com os instrumentos musicais. Como na cena célebre de “Cidade dos Sonhos”, de David Lynch, “no hay banda” no Novo Maracanã. Em nome da segurança, em nome do conforto, e, sim, em nome da ideologia.

Se, apesar do muxoxo dos nostálgicos, o Maracanã ainda persiste Maracanã na sua carcaça reluzente, a cultura do Maracanã agoniza, sob uma névoa de gás lacrimogêneo. Se o Maracanã ainda se encontra na Zona Norte do Rio de Janeiro, e não na cabeça de um playboy visionário perdido entre Ipanema e Ibiza, é por mera limitação física. Fosse possível alocar tudo sobre o crânio desse ser imaginário, lá estariam neotorcedores, aplaudindo como piolhos amestrados.

Gente que, noutros tempos, torcia o nariz para a massa saltando, tocando, cantando, agora tem a chance de ouro: a Terra Incógnita parece aberta à colonização. É a hora dos netos dourados da célebre Grã-fina das Narinas de Cadáver, a figura rodrigueana que perguntava “quem era a bola?” no Estádio Mário Filho. O dia raiou para os eventeiros, os fidalgos que se creem donos da gleba recém-conquistada.

Por um motivo torto, agradeço. Torcer de verdade virou resistir. Cada fanático teimoso agora é um Tupac Amaru. Querem nos varrer de nossa terra, matar a nossa forma de ser, mas não ficaremos olhando, esperando o golpe. Ao fim e ao cabo, viramos todos Aldeia Maracanã.

Fonte: Blog Chuteira Preta


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