Na primeira vez que comandou um clube tradicional do futebol brasileiro em um jogo no DF , Luiz Antônio Venker Menezes era conhecido como o técnico que levou um time de camisa amarela do interior do Rio Grande do Sul, chamado 15 de Campo Bom, às semifinais da Copa do Brasil de 2004. No velho Estádio Bezerrão, Mano Menezes começou a ganhar fama à frente do Grêmio, na derrota por 2 x 1 para o Gama, pela Série B de 2005. No fim de semana, ele esteve novamente na capital do país para o Clássico dos Milhões — venceu o Vasco por 1 x 0.
A caminho do local combinado para a entrevista a seguir, concedida na tarde do último sábado ao Correio no hotel em que estava hospedado, o gaúcho de 51 anos foi reconhecido rapidamente pelos hóspedes como o ex-comandante de outra esquadra amarela. “É ele, olha lá, o cara que treinava a Seleção Brasileira”, disse um fã, louco por um autógrafo e uma foto. Pontual, Mano gentilmente pediu licença. “Estou trabalhando. Vou dar uma entrevista”, sorriu.
Antes do bate-papo, o técnico pediu para não falar dos 28 meses que passou no cargo ocupado atualmente por Luiz Felipe Scolari. Mas, aos poucos, ele cedeu com respostas nas entrelinhas sobre a marcação sob pressão exercida no triunfo por 3 x 0 sobre a Espanha, considerada um legado, critica a possível ressurreição do 3-5-2, usado na campanha do penta, em 2002, e revela o título do livro de cabeceira que o inspira a transformar o Flamengo: Outra maneira de ganhar, uma biografia da referência Pep Guardiola, técnico do Bayern de Munique.
Na Seleção, você convocava os jogadores que quisesse. No Flamengo, há limitações. Como tem sido a readaptação a essa realidade?
No clube, o poder de interferência é muito maior. Você trabalha o tempo inteiro com os jogadores e consegue uma evolução muito boa quando há potencial para isso. Na Seleção, os treinamentos são periódicos, raros, não há possibilidade de entrosamento. Eu prefiro interferir mais. Na Seleção você convoca os jogadores que entende serem os melhores, e no clube não há essa possibilidade. Mas eu tenho uma solução para isso. A vontade muito grande de não aceitar a limitação. Eu trabalho todo dia um pouquinho para vencer a limitação. Eu coloco isso na cabeça dos jogadores todos os dias. Cada avanço, mesmo que seja pequeno, precisa ser firme para não ter retrocesso.
Quando voltou ao batente, você anunciou no Twitter: “De Nação para nação”. Como é ser técnico do Flamengo?
Eu jamais quero perder de vista que a parte mais importante é o Flamengo. Estou aqui de forma passageira, mas nunca podemos deixar de considerar o torcedor. É para ele que nós trabalhamos. O dia que ele não tiver mais o interesse no futebol, como tem o torcedor do Flamengo, a razão principal vai deixar de existir. Eu trabalho tentando respeitar essa paixão, a essência do futebol.
O que planeja deixar como legado ao clube?
O compromisso de cada profissional é deixar títulos, conquistas, afinal, é delas que vivemos. Mas há também a questão do clube. A estrutura do Flamengo ainda está aquém do tamanho dele. Isso é uma característica negativa do futebol carioca, mais do que em outros lugares. São equipes vencedoras, mas, em termos estruturais, essas questões foram sendo deixadas de lado. Felizmente, agora, acendeu a luz vermelha de que eles precisam acompanhar a regra dos principais clubes brasileiros. Conquistar títulos sem estrutura, às vezes, pode parecer ocasional. De forma organizada, engrandece o clube. O Flamengo começou a construção do CT, temos bons campos, mas falta hospedagem para podermos fazer um treino em dois turnos. Há dificuldade de locomoção, por isso, precisamos de vestiários confortáveis, que sejam agradáveis para o jogador ir lá trabalhar. Temos 70% do que pretendemos, mas isso parou em setembro. A diretoria está trabalhando duro para, quem sabe, no início do ano, termos nova estrutura.
Você é favorável à construção de um estádio particular para o Flamengo?
Temos de enxergar o lado econômico. Não basta apenas construir o estádio. Ele tem de ser rentável. Construir um estádio próprio num lugar (Rio) em que você tem o Maracanã precisa ser muito bem pensado. É possível conviver com inteligência dentro do Maracanã. Tenho certeza de que os quatro grandes do Rio vão fazer um bom uso do Maracanã.