Andrade relembra momentos do Flamengo em 2009: “Tínhamos 1% de chance de título.”

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O dia 6 de dezembro de 2009 foi o último que deu alguma alegria profissional a Andrade. Técnico do Flamengo que conquistou o hexacampeonato brasileiro, ele viu o Rubro-negro perder o Estadual para o Botafogo no ano seguinte e acabou demitido depois de uma classificação sofrida para a oitavas de final da Libertadores. Durante muito tempo, Andrade sofreu, lamentou, reclamou. Até que 1.196 dias depois, exatos quatro anos e três meses, justamente num dia 6 (de março), ele chegou à conclusão de que só tem razões para sorrir.

Uma infecção bacteriana, contraída ao fazer fisioterapia na piscina de casa, após uma cirurgia no joelho esquerdo no final do ano passado, por pouco não tirou a vida de um dos maiores vencedores da história do Flamengo. Andrade ficou duas semanas na UTI, cinco dias com febre de 42 graus, teve trombose e embolia pulmonar. Foi na dor que percebeu que é forte o suficiente para recomeçar.

— Quando saí do Flamengo, desabafei demais, acho até que me expus muito, porque precisava colocar para fora algo que me incomodava. Mas, quando se passa por um momento tão ruim como este de agora, é que a gente dá valor às pequenas coisas. O que passou fica pequeno. Estou mais forte agora para recomeçar. E com muita vontade — assegura Andrade.

Pela casa, o ex-camisa 6 do Flamengo espalha os melhores momentos de sua vida. A camisa do título mundial de 1981 está em um quadro. O título mais importante de quem foi tantas vezes campeão com o Flamengo, porém, foi conquistado à beira do campo.

— Nada pode ser comparado ao hexa. Quando eu jogava, o Flamengo era sempre favorito. Em 2009 não era. A expectativa era ficar no meio da tabela. Quando assumi, tínhamos 1% de chance de título. Foi o título mais importante da minha vida — aponta.

Pronto para voltar ao trabalho, Andrade vem fazendo musculação três vezes por semana e acompanha o futebol brasileiro e do exterior para se manter atualizado. Na cabeça, leva sempre a música “Tá Escrito”, do grupo Revelação, que diz: “Basta acredita que um dia vai raiar, a tua hora vai chegar”.

— É uma música que tem muito a ver com a minha vida. Fui campeão, me valorizei, fui eleito o melhor técnico… Em vez de reclamar, tenho primeiro que agradecer por tudo que me aconteceu. O que foi ruim passou e tem muita coisa boa por vir. O coração está tranquilo, sem mágoa. Hoje eu sou um campeão da vida também — diz o feliz Andrade.

Enquanto esteve internado, Andrade lutou pela vida e sentiu saudades do Imperador. Não de Adriano, o atacante, mas do buldogue francês de dois anos, com quem passeava diariamente pelas ruas do condomínio onde mora na Barra da Tijuca.

Até Andrade voltar para casa, o Imperador canino também sofreu, mas se manteve em forma. Dormia mais cedo, esperando pelo dono que não chegava. Agora, tudo é festa. O dono e o cão estão felizes outra vez.

— Coloquei o nome em homenagem ao Adriano. Ele fez muito por mim, e ajudou muito o Flamengo a ser campeão. É uma homenagem de coração — explica Andrade.

Enquanto Andrade dá entrevista, o buldogue Imperador fica deitado a seus pés. Obediente, faz tudo que o dono manda, dentro e fora de casa. Bem diferente do atacante, que, mesmo assim, só recebe elogios do técnico do hexa.

— Pela forma como se comporta, o Adriano tinha tudo para não ser querido pelo grupo. E nunca foi assim. Todos gostavam dele. Fez 19 gols e foi decisivo no título. Só tenho a agradecer — elogia o treinador, que não sabe se ainda verá o atacante em campo novamente: — Ele pode ser útil ainda, mas não tenho como dar conselhos. A avó e a mãe já tentaram e não conseguiram ajudá-lo a resolver a vida. Ninguém pode dar ajuda se ele não quiser.

Recuperado para a vida, Andrade não foge de temas considerados polêmicos. Até hoje, não consegue acreditar no rumo que tomou a vida do goleiro Bruno.

— Como ser humano, eu me coloco no lugar da família da menina. Se ele errou, tem que pagar. Mas é triste pelo futuro que tinha, e colocou tudo a perder — diz, resignado.

O treinador não vê o futebol brasileiro tão forte como antes. Quando jogava, além de não ter espaço na seleção, viu outros craques como Adílio e Pita, por exemplo, jamais disputarem uma Copa.

— Naquela época, dava para fazer três ou quatro seleções excelentes. Na minha posição, tinha Falcão, Cerezo… Hoje, é difícil fazer uma.

Fonte: Extra Globo


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