Maracanã sofre com cambistas que vendem até cadeiras cativas.

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Um grupo de turistas, a maioria estrangeiros, chega ao nível cinco do Maracanã, liderados por um guia, para ver Flamengo x Vitória, no último dia 4 de setembro. Passa por orientadores, seguranças privados e entra no setor indicado no ingresso. Ao procurar o assento, eles pedem ajuda, e no ingresso lê-se a inscrição: “Cadeira cativa. Venda proibida”.

Quem vê de longe o moderno estádio da final da Copa do Mundo de 2014 depois da reforma não enxerga o mercado paralelo que permanece do lado de fora, com a venda irregular de ingressos. Entradas que deveriam pertencer a uma lista de 4.968 proprietários de cativas são facilmente vistas com cambistas, e vão parar nas mãos de todo o tipo de torcedor.

Como a Secretaria de Esporte e Lazer só iniciará o sorteio para definir os lugares das cativas na próxima quinta-feira, os ingressos ainda são confeccionados como os demais, pela concessionária. Na maioria dos jogos há sobras, que devem ser inutilizadas.

Mas algumas visitas ao Maracanã em dia de jogo são suficientes para constatar o cenário, provavelmente o mesmo para a partida entre Fluminense e Vitória, hoje.

Os turistas que entraram com o ingresso de venda proibida no jogo entre Flamengo e Vitória disseram que compraram um pacote no hotel em que estavam hospedados, na Zona Sul, com direito a transporte e guia. A empresa que faz o meio-campo nessa negociação é a agência de turismo Follow Me Rio, que informou, em conversa gravada com a reportagem do Jogo Extra, ser a única a oferecer as entradas no setor central do Maracanã. Para o jogo de hoje entre Fluminense e Vitória, o pacote turístico custa R$ 150, enquanto a entrada do setor leste está a R$ 30. A operadora informou à reportagem que recebe ingressos diretamente da Futebolcard, que vende bilhetes de todos os setores na internet.

A Futebolcard é uma marca registrada da Outplan, que confecciona os ingressos e responde à IMX Digital, integrante do consórcio que venceu a licitação.

— Somos a única empresa a retirar ingresso corporativo sem passar pela bilheteria — disse o atendente da Follow Me Rio.

O Jogo Extra procurou a funcionária Monique Patricio, que assina as atas da Federação de Futebol do Rio pela Outplan. Ela informou que não tinha conhecimento de como funciona o repasse de ingressos para operadoras.

Concessionária e Suderj: jogo de empurra

Enquanto torcedores que compram ingressos de cadeira cativa irregulares e seus reais proprietários brigam pelo mesmo assento no Maracanã, como aconteceu no último clássico entre Flamengo e Botafogo pela Copa do Brasil, a concessionária e a secretaria de esporte e lazer (Suderj) fazem jogo de empurra e não sabem explicar como os ingressos de venda proibida vão parar nas mãos de cambistas e, por consequência, até de turistas estrangeiros.

Questionada sobre o assunto, a Maracanã S/A se limitou a dizer que a administração é da Suderj. Mas informou que fiscaliza funcionários terceirizados que atuam na operação das bilheterias, feita pela IMX Digital em parceria com a Outplan.

A Suderj, por sua vez, se mostrou espantada, através do secretário André Lazaroni. Ele disse que ouviu relatos de seguranças sobre proprietários das cadeiras cativas que estariam vendendo suas entradas para cambistas, e crê que a definição dos lugares vá amenizar o problema.

— A (história) da operadora de turismo é novidade para mim. Não temos esse controle. Quem tem a obrigação é a concessionária. A gente ouvia falar disso no antigo Maracanã. Acredito que, com o controle agora, vá diminuir, mas é preciso identificar quem bota para vender. Existe uma rede — disse Lazaroni, reforçando que a sobra dos bilhetes de cativa sob a administração da Suderj é picotada numa máquina.

A atuação dos cambistas ao redor do estádio também não tem solução, e desta vez a concessionária transfere a responsabilidade para o poder público. A tranquilidade de quem fica exposto na ponta do esquema impressiona.

— Vai querer no meio do campo? Cativa? A coisa mais linda do mundo. Se fosse na bilheteria era R$ 160, é aquela venda proibida, antiga especial. Faço por R$ 50 — diz um cambista, sob olhares de seguranças do Maracanã.

Segundo a concessionária, a função dos agentes é garantir a integridade de público, patrimônio e funcionários.

Fiscalização esbarra na burocracia

Ao longo das filas no entorno do Maracanã em dias de casa cheia, a presença de cambistas se multiplica. Em dias mais calmos, eles também estão por lá. A fiscalização cabe à Polícia Militar, mas os agentes sofrem com a burocracia no Juizado Especial Criminal do Maracanã. “Herdado” do estádio antigo, o plantão judiciário é apontado como um dos vilões do sistema.

Segundo relatos que chegam à Delegacia do Consumidor da Polícia Civil, há uma demora excessiva da condução do cambista a sua liberação, normalmente sem qualquer tipo de punição.

Isso quando os policiais não precisam aguardar os funcionários do plantão voltarem das arquibancadas, onde assistem aos jogos. Na prática, os agentes detêm um ou dois cambistas, e deixam de estar na rua coibindo a ação de outras dezenas.

Um dos orientadores do Maracanã resumiu a cena:

— Tem polícia a rodo e eles vendem. É uma praga.

A certeza da impunidade é comprovada por um cambista que oferece até documento falso de estudante para comprar meia-entrada.

— Pego na bilheteria quantos você quiser. Fica tranquilo que não pedem documentação na hora — avisou.

Fonte: Extra Globo

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