Na Vila Capanema, Furacão virou chuvinha.

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Para poder se orgulhar de sua entrega completa à paixão que nos move, todo flamenguista que se preza devia um dia se dar a experiência de ir a um estádio na condição de torcida visitante.

O torcedor carioca não sabe bem o que é isso, acostumado que está ao democrático Maracanã e sua generosa divisão igualitária entre as torcidas da cidade, mas fora da Cidade Maravilhosa uma conspiração de homens de boa vontade, liderada por policiais militares, promotores públicos, cartolas e congêneres houve por bem decretar que a violência e a malvadeza que gravitam em torno do futebol partem somente de dois fatores: a venda de cerveja dentro do estádio e a presença da torcida adversária.

Sempre que me perguntam a opinião sobre essa profilática medida de limitar o direito de torcer a uma fração da torcida eu não canso de repetir: quando se permite apenas 2 mil palmeirenses em um Pacaembu lotado de corintianos, será que suas excelências imaginam que tipo de palmeirense bota a cara por lá?

Essa restrição odiosa via de regra é altamente prejudicial à Nação Rubro-Negra, gigantesca praticamente em todo canto desse país e sempre pronta a dividir qualquer arquibancada em posição de igualdade com os times locais e em alguns casos até mesmo superá-los. Mas não adianta, a turma da lei e da ordem já decretou um nefasto regime de cotas para que a gente não sufoque os menos aquinhoados de público, então só nos resta ficar ali no cantinho que nos reservaram, sob os olhares mal encarados de quem nos hospeda.

Quem já foi valente o bastante para sair atrás do Mengão pode confirmar: a recepção é digna de um exército inimigo. O direito de ir e vir elegantemente trajado com o Manto é sumariamente cassado, ninguém que tenha juízo circula pelo entorno do estádio com o uniforme de gala – os poucos que se arriscam não raro são obrigados a ceder o pano sacro como um troféu de guerra a uma horda de meliantes, com direito a uns sopapos de brinde.

A cada vez que eu me disponho a reproduzir esta aventura fico me perguntando o que me leva a ser tão desmiolado. Eu, que devia estar contente por ser um cidadão respeitável e poder comprar um Corcel 73, não canso de arriscar minha pele nesse esporte radical de acompanhar o Mengão onde estiver – nem tanto quanto a rapaziada da Fla Mochila, esses sim, doidos para valer, mas eu também procuro estar presente nos momentos mais importantes.

De mais a mais, como não é todo dia que se disputa uma final de razoável estofo, sopesando tudo empacotei my stuffs e me mandei para Curitiba, de boas e más recordações futebolísticas nas minhas últimas visitas.

O estádio da Vila Capanema é uma bosta, nível São Januário de imprestabilidade (eu sempre ri de viceíno que se acha alguma coisa na vida só porque o clube tem um muquifo cuja maior serventia foi ser palco de comícios nos tempos do Estado Novo, mas volto ao tema nas férias para não perder o foco). Contudo, o Atlético PR está ali de comodatário enquanto remodela a ótima Arena da Baixada, então nem vou pegar no pé deles, quem tá de favor na casa alheia não tem mesmo muito o que fazer.

A maior vantagem de assistir um jogo fora é que, ao contrário do que acontece nos jogos caseiros, quando no dia fatídico sempre se tem um relatório para entregar ou um filho para buscar na escola, antes da bola rolar ninguém tem nada para fazer na cidade alheia. Então todo mundo dá um jeito de passar o dia celebrando o amor ao Mais Querido do jeito que der, em geral fazendo a alegria dos donos dos bares locais.

Mas tem uma parada que a cartolagem brasileira precisa resolver para anteontem, que é tornar a ida e a volta para o campo uma atividade a ser cumprida dentro de padrões mínimos de civilidade. Na ida, fui ao ponto de encontro da Fla Paraná, uma das embaixadas mais antigas do Flamengo. Caminhar mais de 2 km gritando os cânticos do Maracanã pode ser divertido, mas quando isso precisa ser feito cercado por mais de 30 policiais, 6 viaturas e sob a mira de muitas armas não letais dá a sensação de que, mais do que protegida, a pessoa está presa.

Na saída foi pior ainda, armaram uma emboscada para a torcida visitante, regada a pedradas, garrafadas e agressões. Quem estava lá (eu dei sorte) conta que a polícia agiu rápido e enquadrou os vagabundos.

Tenho para mim que o hooliganismo só vai acabar quando os clubes passarem a ser responsabilizados civilmente pelos danos causados pelas suas falhas de garantir a segurança dos torcedores – o que está previsto no Estatuto do Torcedor, antes que venham dizer que é só um caso de polícia.

Quando isso acontecer, pode ser que eles rompam definitivamente os laços umbilicais com os bandoleiros das arquibancadas. A mesma gangue que tocaiou os flamenguistas ocupava o melhor setor do estádio para exibir suas enormes faixas e bandeiras, malgrado tenham sido responsáveis pela interdição do mesmo há cerca de 1 mês, quando brigaram entre si. Se nem a perda do mando de campo no Brasileiro ou o pagamento de multa inspiram a diretoria do Atlético a mudar de atitude, quem sabe uma enxurrada de processos cíveis movidos por todos os que tiveram sua integridade física molestada não os faça mudar de ideia? Fica a sugestão…

Mas vamos falar de coisas boas, quer dizer, do que há de melhor nesse mundo, que é a torcida do Flamengo, intraduzível em suas características mais marcantes. Ser minoria, algo muito raro para nós, parece que multiplica nossas forças. Não há explicação razoável que dê conta do fenômeno de 1600 vozes gritarem mais alto do que 16000. Só quem está lá consegue ver mais sentido na regra de que o gol na casa do adversário vale por dois. É a mais pura verdade: gritar gol na casa dos outros realmente é uma emoção em dobro, não me pergunte a razão, vai lá um dia que você vai entender.

Geral metendo a maior pilha de que o Furacão isso, o Furacão aquilo, mas no final o bem sempre triunfa. Voltei com alguns hematomas e arranhões (caí na hora do gol), um tênis estraçalhado, a alma lavada, a esperança renovada.

Na Vila Capanema, Furacão virou chuvinha. Chega logo, 4a feira.


Fonte: Urublog

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