Eu contaria quem é Valido. Um dia, febril, ele subiu mais alto.

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Febril, Valido subiu mais alto. Olhos fechados contra o sol de quase novembro, extenuado aos oitenta e seis minutos da última luta, o esforço em busca da última bola, a bola do berro, a mais importante de todas, por ela e por nós Valido subiu mais alto.

Escorado nas costas do beque Argemiro, suores misturados (o quente do jogo, o frio da febre), Valido estava no alto. A bola alçada por Vevé descia em slow, guiada por vinte mil olhos naquela tarde abafada na Gávea. Aos vinte e nove dias do décimo mês do ano da graça de um mil, novecentos e quarenta e quatro depois de Cristo, dois segundos antes

do estrondo, Valido estava no alto.

Lá do alto, Valido viu tudo. Viu o convite de Flávio Costa para voltar ao futebol depois de quase dois anos afastado. O Flamengo precisa de mim, pensou. Viu a ruidosa goleada de uma semana antes frente ao Fluminense e viu o preço que se seu corpo cobrou pelo sacrifício: estava com dores musculares e com 39 graus de febre na manhã do jogo

contra o Vasco.

No exato instante que cabeceou a bola definitiva, Valido repetiu mentalmente a resposta que dera a Flávio Costa quando perguntado se jogaria a decisão: AUNQUE SEA MUERTO. Quando viu Barqueta batido e a bola aninhada na rede, o argentino Agustín Valido, trinta anos de vida, desvencilhou-se dos escombros de Argemiro e foi para os braços

de seu povo para tornar-se imortal.

Daqui a pouco, quando o Flamengo entrar em campo para enfrentar o Friburguense, Valido estará em campo outra vez. Cem anos de imortalidade estampados nas camisas de Felipe, Léo Moura, Wallace, Samir e André Santos; Amaral, Muralha, Elano e Carlos Eduardo; Paulinho e Hernane. Cem anos de um Flamengo puro sangue.

Por isso, se eu pudesse dizer algo aos jogadores, não seriam os apelos cotidianos. Não pediria aos zagueiros que joguem coordenados, que Carlos Eduardo acorde para a vida, que Paulinho erga a cabeça ou que Hernane esqueça por mais alguns meses suas limitações.

Eu contaria aos jogadores quem é Agustín Valido. E que um dia, mesmo febril, por nós e pelo Flamengo, ele subiu mais alto. E por subir mais alto, por ir além daquilo que é humano, como comprova seus nomes em nossas camisas, tornou-se imortal. Valeu, Valido.

Maurício Neves

Fonte: Urublog

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