Se falta dinheiro, não deveria faltar visão.

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O time horrendo do Flamengo faz mais mal à causa da austeridade no futebol brasileiro do que quinhentos Euricos juntos e de charuto. Não há apelo ao equilíbrio financeiro e à sustentabilidade de receitas e despesas que resista à visão do catado flamenguista.

É a tragédia sentada na sela de uma piada feita: o Flamengo de Ney Franco joga conforme a música – mais precisamente “À beira do caos”, cantada por ele mesmo. Mas a responsabilidade vai além do treinador e cantor. Cruzeiro, Corinthians, Fluminense, Atlético Paranaense, Internacional, São Paulo, Grêmio, Sport Recife, Santos, Goiás, Atlético Mineiro, Palmeiras, Botafogo, Criciúma, Chapecoense, Bahia, Vitória, Figueirense e Coritiba, todos chegaram melhor ao Brasileiro. Ney Franco poderia ter agido, mas tamanho sufoco não pode ser obra de um homem só.

É bem brasileiro lançar na conta do treinador também as falhas e as omissões das instituições, sejam elas clubes ou confederações. Na hora da fritura, esquece-se o quanto deixaram passar os responsáveis por contratar, supervisionar e fornecer condições de trabalho a esse mesmo treinador – como se o futebol, num clube do Flamengo, fosse apenas obra de magos itinerantes, pulando de palco a palco, de clube a clube.

Tanto é assim que o que mais preocupa no Flamengo de Ney Franco não é a inconsistência jogo a jogo, não: é a persistência de problemas estruturais na composição do elenco. Nada ilustra mais esse ponto do que a incapacidade de encaminhar a “passagem de bastão” de Léo Moura. Em campo, o Flamengo não tem, desde a saída de Ronaldinho Gaúcho, outra referência que não a do lateral. E é pela memória de um Léo Moura perdido no tempo que o time do Flamengo cai pelos lados para buscar um drible junto a linha de fundo, como se batesse ponto, sem variação. Entra, sai técnico, brilha um Elias – que se vai –, e a paisagem não muda. Na Libertadores, times como León e Bolívar leram bem isso, e enredaram o time carioca, aproveitando vazios e demolindo a frágil cobertura, progredindo em pequenos grupos. O Flamengo, hoje, é um truque velho.

O Flamengo pode, numa fórmula de emergência, numa intervenção do destino, reunir um esboço de time, mas está longe – há anos – de ter um elenco. É no elenco, no deserto do elenco, que descambam as falhas de planejamento do futebol do Flamengo – e não dos treinadores sozinhos.

Os atuais mandatários do Flamengo (e do Palmeiras) se elegeram com um discurso de responsabilidade e contenção. Se falta dinheiro, e falta (como em tantos outros), não deveria faltar visão. O preço pode ser um “Efeito Saturnino”, referência ao que sofreu o ex-prefeito do Rio de Janeiro, Saturnino Braga, nos anos 1980. Homem de ideias, íntegro, Saturnino fez um governo considerado ruim, com direito até a falência da prefeitura – o suficiente para Millôr Fernandes sentenciar: Saturnino, disse ele, “desmoralizara a honradez”. Sem bola, o Flamengo agora saturnina: ameaça avacalhar a austeridade.

Fonte: Chuteira Preta

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