Nelson Rodrigues se rende ao Flamengo e sua torcida.

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Em 2009 o Flamengo capengava, ocupando o 10º lugar ao fim do primeiro turno do Brasileirão. Nas 18 últimas rodadas que teria pela frente, empurrado pela força impressionante da torcida, perdeu apenas duas vezes, o que valeu a arrancada para um título inesquecível: o hexacampeonato.

Nesta quarta-feira a magia voltou, justamente no Maracanã, “a casa do Flamengo”, como a torcida tanto gosta de dizer. A vitória, de virada, em cima do Atlético-MG, teve um significado especial, pois sacramentou a reação que o Rubro-Negro tanto esperava para sonhar, quem sabe, com mais um título brasileiro. Alguém tem dúvida dessa sincronia mágica entre o time e a Nação?

Não… Nem mesmo aquele que talvez seja até hoje o mais ilustre tricolor: Nelson Rodrigues. Lá pelos tempos em que predominava o “futebol-arte” ele escreveu um pequeno artigo sobre o tema, sobre como a torcida e o time do Flamengo se completam. Confira o texto na íntegra e veja que essa magia não é de hoje.

“O MILAGRE DA CAMISA – Nélson Rodrigues

O Flamengo joga, hoje, com a mesma alma de 1911. Admite, é claro, as convenções disciplinares que o futebol moderno exige. Mas o comportamento interior, a gana, o élan são perfeitamente inatuais. Essa fixação no tempo explica a tremenda força rubro-negra.

Note-se: – não se trata de um fenômeno apenas do jogador. Mas do torcedor, também. Aliás, time e torcida completam-se numa integração definitiva. O adepto de qualquer outro clube recebe um gol, uma derrota, com uma tristeza maior ou menor, que não afeta as raízes do ser. O torcedor rubro-negro, não.

Se entra um gol adversário, ele se crispa, ele arqueja, ele vidra os olhos, ele agoniza, ele sangra como um césar apunhalado. Também é de 1911, da mentalidade anterior à Primeira Grande Guerra, o amor às cores do clube. Para qualquer um, a camisa vale tanto quanto uma gravata. Não para o Flamengo.

Para o Flamengo, a camisa é tudo. Já tem acontecido várias vezes o seguinte: – quando o time não dá nada, a camisa é içada, desfraldada, por invisíveis mãos. Adversários, juízes, bandeirinhas tremem, então, intimidados, acovardados, batidos.

Há de chegar o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no arco. E diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável”.

Fonte: Lancenet

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