Ney diz não ter mágoa do Fla: “Saí sem argumentos.”

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Foram somente 69 dias no Flamengo. Tempo suficiente para Ney Franco ver o time despencar e, na mesma proporção, sua humildade crescer. Um mês depois de ter sido demitido, o treinador estreia neste domingo no Brasileirão, agora à frente de outro rubro-negro, o Vitória, a partir das 18h30, no Barradão. Seu adversário será justamente o Flamengo, e, nesse reencontro, em vez de vestir a fantasia de uma vítima ressentida, Ney Franco assume ter fracassado na Gávea.

Você ficou apenas dois meses no Flamengo. Acha que teve pouco tempo?

O trabalho não deu certo, não encaixou. Saí sem muitos argumentos. Meus números foram muito fracos, como nunca havia acontecido na minha carreira. Quando é assim, você acaba perdendo argumento e concordando. Não tive nem força para me defender. Não faltou apoio da diretoria, e os jogadores me aceitaram.

O Flamengo deve dinheiro a você?

Não. Eu saí de lá com tudo muito bem resolvido. Eu me sinto desconfortável em me aprofundar nesse assunto, pois tenho consciência enorme de que meus números foram muito baixos e deixaram o clube exposto.

Por que nos seus dois últimos jogos à frente do Flamengo, você usou 18 jogadores? O time era ruim?

Não era ruim. Não era para estar na situação que o deixei. É um elenco capacitado para fazer um bom Campeonato Brasileiro. O Vanderlei está conseguiu. Ajustou. O Eduardo (dos Santos) é um jogador que a gente avaliou para a contratação, o André Santos vinha recebendo uma pressão forte da torcida, assim como o Elano e o Felipe. A gente tentou recuperar esses atletas porque percebia que podiam dar algum retorno ao time.

Arrepende-se de algo?

De nada. Fiz o caminho certo. Fico frustrado pela forma como foi minha segunda passagem pelo Flamengo. Pois, na primeira vez que estive lá, botei no meu currículo uma Copa do Brasil (2006) e um título carioca (2007). A gente amadurece.

Por que não deu certo?

Os treinamentos foram bons, mas a coisa não se aplicou no jogo. Não tenho como justificar. Foram quatro derrotas e três empates. Serviu para eu fazer uma reflexão de tudo.

Que reflexão?

O futebol brasileiro está passando por um momento de muita cobrança. Depois da Copa do Mundo, a gente até perde a autoconfiança. O torcedor acha que está tudo errado, que não existe mais treinador bom no futebol brasileiro, que todos estão abaixo da média – e aí se inclui todo mundo e não somente o Ney Franco. O torcedor acha que o nosso Campeonato é o pior. Então, você, que é parte de tudo isso, tem que se reciclar.

Você concorda com essa visão pessimista?

Não. O Brasil continua revelando jogadores para o futebol mundial. Mas é preciso discutir a formação do jogador brasileiro, fazer uma reciclagem nos profissionais que trabalham com eles… Você não tem uma escola de técnicos. A CBF deveria ter como primeira função organizar um curso de reciclagem para o treinador. Acho que um projeto interessante seria a formação de treinadores. Você sabe como se formam o médico, o jornalista, o pedagogo. Mas não é uma escola para formar o treinador.

Concorda com a escolha de Dunga para comandar a seleção? Ele foi escolhido pela segunda vez, mas sem ter grande experiência.

Se fosse aquela primeira vez, eu diria que não foi uma boa escolha. Mas, agora, ele já teve oportunidade de disputar uma Copa do Mundo, e seus números à frente da seleção brasileira foram bons. Depois disso, já passou pelo Internacional. Acho que foi uma decisão segura. E, como profissional do futebol, tenho que torcer para que dê certo, até para a gente resgatar a imagem do futebol brasileiro.

Você foi técnico da sub-20 e coordenador de base na CBF. Por que saiu?

Fiquei lá um ano e meio. Foi um período muito bom, com resultados dentro de campo. Entrei na gestão do Ricardo Teixeira e, quando houve a troca (por José Maria Marin), tive um convite para trabalhar no São Paulo. Aceitei.

Arrepende-se de ter ido para o São Paulo?

Não me arrependo. Passei um ano com momentos bons e ruins. Os sete primeiros meses foram muito bons. Fomos campeões sul-americanos, disputamos a Libertadores e, infelizmente, não fomos bem. A gente perdeu o controle do trabalho e a diretoria optou pela mudança.

E no São Paulo você talvez tenha feito seu único inimigo no futebol…

Não o considero inimigo. A gente teve problemas, mas não considero o Rogério (Ceni) um inimigo no futebol. Inimigo é uma palavra muito forte. Estou aberto para a qualquer momento encontrá-lo fora do futebol, sentar com ele e conversar. Aliás, já o encontrei no Maracanã, na minha estreia no Flamengo. Dentro do vestiário, um desejou sorte ao outro.

O que espera no Vitória?

Tive uma proposta muito boa. O clube está numa situação muito difícil. Estou pegando o clube na última posição e o objetivo é não deixar a equipe cair para a Série B.

Há um gosto especial em enfrentar o Flamengo?

Tenho que encarar como um adversário normal. Independentemente do adversário, a gente tem que somar pontos, principalmente em casa. Quis o destino que meu primeiro adversário fosse o Flamengo. Mas não encaro o jogo de uma forma diferente. O espírito é recuperar o Vitória. Torço para que o Flamengo se acerte e, aliás, acho que já se acertou. O Campeonato Brasileiro está começando a se desenhar. Cruzeiro, São Paulo, Fluminense e Internacional brigam pelo título. Pela tradição que tem em arracandas, o Flamengo pode brigar por uma vaga na Libertadores.

Fonte: Extra Globo

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