Brasil vive ‘seca’ de atacantes?

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O Campeonato Brasileiro de 2014 teve a pior média de gols da história da competição desde 1997, 2,26 gols contra 1,83 daquele ano, quando, ainda assim, Edmundo marcou 29 vezes e tornou-se o recordista entre os goleadores do campeonato até então, superando marca de Reinaldo – 28 gols em 18 partidas em 1977.

Na Série A de 2014, o artilheiro da competição, o Fluminense Fred, 18 gols, registrou o segundo pior desempenho desde Souza, que em 2006 colocou 17 bolas na rede pelo Goiás.

O que durante a Copa do Mundo de 2014 era uma discussão, agora tem dados concretos como argumento: estaria a profissão de atacante no Brasil em crise?

“O nível está muito baixo, temos poucos atacantes de oficio. A gente pode citar ai dois ou três no máximo, Fred e talvez Luis Fabiano, que não se encontra num bom momento. Ao contrário da minha época, em que você enchia a mão, tinha cinco ou dez nomes facinho”, opina Túlio, três vezes goleador máximo do Brasileirão, em 1989, pelo Goiás e em 1994 e 95, pelo Botafogo.

Famoso pelo instinto ‘matador’ aliado à técnica apuradíssima, Evair, ex-Palmeiras e Vasco, concorda. “O artilheiro do campeonato fazer 18 gols acho muito pouco. Edmundo chegou a fazer 29, Washington fez 34 – em 2004, recorde atual. A gente se ressente de velocistas e de atacantes de área. É um momento em que precisa se repensar essa função, os destaques no país são Barcos, Guerrero, todos estrangeiros.”

Para Evair, o fato de os atletas brasileiros saírem cada vez mais cedo para o exterior faz com que eles percam características próprias do futebol nacional.

Na Champions League, principal competição de clubes da Europa, há cada vez menos centroavantes brasileiros. O país lidera a lista de atletas inscritos na edição desta temporada – 80, assim como a Espanha -, dos quais a maioria, 48,75%, são zagueiros e só 13,75% são atacantes.

Enquanto durante a Copa deste ano a seleção verde-amarela teve à disposição Neymar, titular do Barcelona e Fred, do Fluminense, Jô, do Atlético-MG, Bernard, do Shakhtar Donetsk e Hulk, do Zenit, a Argentina só contou com homens de frente de equipes de elite do futebol internacional: Messi, do Barça, Lavezzi, do Paris Saint-Germain, Aguero, do Manchester City, Higuain, do Napoli e Palacio, da Internazionale.

O argentino Barcos, do Grêmio, chuteira de ouro do Brasileirão-2014 e um dos ‘gringos’ que vieram ocupar a posição de fazedor de gol no Brasil, concorda com a carência do país vizinho na posição, mas não pensa que em sua terra seja diferente.

“Acho que hoje existe menos quantidade de centroavante. Não sei porquê, mas o Brasil deveria ter mais opções e não tem tantas. A Argentina possui vários, mas centroavante mesmo também não são muitos, que jogue por fora da área tem vários, mas por dentro mesmo, não.”

“O pessoal da base não vem tendo muita paciência, tem que ser craque aos 16, 17 anos, enquanto no meu tempo tive ate os 19, 20 pra ser revelado. Hoje, existe o interesse do empresário, não se tem muita paciência pra trabalhar a parte técnica e tática. Isso faz com que os jogadores talvez não tenham a mesma qualidade de antigamente”, diz Evair.

Para Túlio, atualmente se dá atenção demais ao físico e menos ao “molejo e à habilidade” nas categorias de base. O ex-botafoguense vê Gabriel, do Santos, como uma das poucas esperanças para o futuro. Evair acredita no sucesso de Eric, do Goiás e não consegue apontar mais nenhum nome.

Dadá Maravilha, outro a se sagrar três vezes artilheiro do Campeonato Brasileiro, em 1971 e 72, pelo Atlético-MG e em 1976, pelo Internacional, possui uma visão diferente. Segundo o campeão do mundo em 1970, o problema está no estilo de jogo das equipes nacionais.

“Estão botando muito volante, a bola não esta chegando no centroavante. O Túlio, que era um jogador bem mais técnico do que eu, hoje também teria mais dificuldade, como eu teria. Os times estão muito preocupados em se defender, a começar pela seleção brasileira, e a bola chega quadrada lá na frente. Não é problema de geração, porque a bola é redonda e sempre foi, o Brasil sempre foi um celeiro de craque. É questão de mentalidade, se o Brasil for o berço do toque de bola de novo, volta a ser o melhor.”

Fonte: ESPN

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