O futebol sitiado.

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Carlos Eduardo Mansur – O futebol está sitiado. E pede socorro. Lá se foi apenas um sexto do ano. E não foi preciso mais. O pouco que se viu de 2015 bastou para tornar claro que a mais bela invenção do homem se tornou hospedeira para algumas das manifestações mais eloquentes das doenças da sociedade moderna. Como se o jogo fosse um guarda-chuva capaz de abrigar os mais primitivos e incivilizados comportamentos. Todos parecem convergir para o futebol.

Na última quinta-feira, algumas centenas de holandeses vandalizaram o centro histórico de Roma, cartão postal do mundo. Alguns exibiam símbolos fascistas e neonazistas. Um dia antes, torcedores do Chelsea impediram um negro de entrar no mesmo vagão que ocupavam no metrô de Paris. E o fizeram enquanto cantavam o orgulho do próprio racismo. No Egito, as mortes em conflitos de torcidas são contabilizadas às dezenas. Na América do Sul, a torcida do Boca Juniors apedrejou o ônibus do próprio time, pensando ser o veículo do rival. Já a do Colo Colo, do Chile, ameaçou inviabilizar a Copa América caso o cerco aos grupos violentos persista no país.

E o Brasil? Por aqui, após a guerra urbana antes do último Palmeiras x Corinthians, o primeiro clássico carioca do ano teve 127 presos após brigas espalhadas pela cidade.

Mas por que tanta brutalidade, tanta incivilidade encontra abrigo no futebol? O jogo é vítima, mas também é culpado. É vítima da dimensão que alcançou graças à magia que desperta mundo afora. Por produzir fascinação, serve de palco. Faz reverberar qualquer tipo de manifestação. Seja boa, seja brutal, cruel, odiosa. Empresta causa, camisa, cores e um grupo a seres que se sentem excluídos por sua sociopatia. No futebol, se sentem incluídos, são parte de algo. Mesmo que seja uma organização criminosa, que passa enxergar no futebol apenas a desculpa para a sua existência.

Mas o futebol também é culpado. Porque, historicamente, cultivou a noção de estádio como território livre, onde tudo é permitido. Afinal, a paixão justificaria os deslizes. Das pequenas transgressões às grandes agressões, bastava que o cenário fosse o campo de futebol para que se encontrasse uma atenuante. E assim caminhou o jogo.

A cultura proliferou desde as mais inocentes posturas, por mais inofensivas que pareçam. Desde o pai que proíbe o filho de falar palavrão na frente da mãe, mas é liberal ao dizer que “no estádio pode”. Desde as pequenas brigas sem maiores consequências. Coisa de jogo, “no estádio pode”. Desde as gozações envolvendo masculinidade ou mera rivalidade clubística. Tudo sempre pôde.

E talvez fosse mesmo inofensivo, àquela altura. Mas mudou a sociedade. E com ela, mudou o futebol. Rixas e discussões viraram brigas de organizações criminosas armadas até os dentes. As gozações descambaram para as ofensas, depois para a homofobia, o racismo e o extremismo. Retrato de uma sociedade doente. Que mata por homofobia, por racismo, por divergência de clube, de gangue ou simplesmente de opinião. As pequenas transgressões, no mundo de hoje, têm consequências graves. E o futebol, com seu ambiente historicamente permissivo, se mostrou vulnerável demais.

Como bem observou o jornalista Sidney Garambone, no “Redação Sportv” desta segunda-feira, o coro de “juiz ladrão” de outros tempos ganhou um complemento: “juiz ladrão, porrada é solução”.

Hoje, a Espanha discute se o canto da torcida do Barcelona, aparentemente inocente e apenas bem-humorado, afirmando que “Cristiano Ronaldo não bebe água”, é motivo para punição. Pode parecer exagero. Mas há menos de três meses, a morte de um torcedor numa briga bárbara nas vizinhanças do estádio do Atlético de Madrid fez o país enxergar que o caminho percorrido pelo jogo e sua permissividade era perigoso. E o preço, muito alto.

Por lá, enquanto autoridades endurecem a legislação, promovem uma operação que coloca radicais na cadeia e clubes colaboram com controle estrito de quem frequenta seus campos, há uma outra mobilização. Esta, envolve a sociedade. O esforço é para humanizar os estádios. Fazer deles, de fato, locais de lazer, de família. Enquanto o jogo não for ganho, nada soará como excesso de zelo. Jogar na defensiva, nestas horas, nunca é demais.

No Brasil, por enquanto, sequer aceitamos que o jogo está sendo perdido. Não demos um só passo. Não estamos no ataque, nem na defesa. As autoridades nem entraram em campo.

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