O tira-teima também é burro.

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República Paz e Amor – “O videoteipe é burro. A queda da Bastilha, vista em videoteipe, não seria mais que um quebra-quebra.” Se na década de sessenta a frase de Nelson Rodrigues já era genial, imagine agora, em que partidas de futebol são capturadas por dezenas de câmeras espalhadas por todos os cantos do campo, obrigando jogadores, técnicos e juízes a conversar com uma das mãos em concha cobrindo a boca, como se fossem um bando de candinhas trocando futilidades sobre a vida alheia.

Nelson entendia pouco de futebol; o que ele gostava era de emoção. E essa o videoteipe praticamente destruía, com sua pretensão de dirimir dúvidas, encerrar discussões e, consequentemente, abolir uma das grandes graças do jogo.

Filho do videoteipe, e tão burrinho quanto, nasceu o tira-teima. E agora temos o neto, pomposamente batizado de “analisador tático”.

Durante um certo tempo, o tira-teima reinou absoluto e cultivou a falsa fama de infalível. Até que, na Libertadores 2012, houve um jogo entre Vasco e Corinthians, em São Januário, que desmascarou o canastrão. O nosso Alecsandro, que na ocasião defendia o vasquinho, fez um gol anulado por Sandro Meira Ricci, sob a alegação de impedimento. O tira-teima do Fox Sports mostrava que o lance fora legal, enquanto o da Globo confirmava que Alecsandro estava adiantado. E agora? Começaram a surgir explicações pouco convincentes, e a mais aceita focava na qualidade dos equipamentos. O da Globo era batuta, o do Fox Sports meio caído.

Sempre duvidei do tira-teima, pela prosaica razão de que toda tecnologia precisa de mãos humanas para programá-la ou operá-la. No impedimento então, minha desconfiança era total. Trata-se de uma regra genial mas diabólica, em que os olhos do bandeirinha têm que observar, rigorosamente ao mesmo tempo, em que posição o atacante está no momento preciso do toque na bola por parte do lançador. Humanamente impossível.

No uso do tira-teima, o problema permanece. Se o programador do bicho traça a linha uma fração de segundo a mais ou a menos do que quando a bola foi lançada, o equipamento emburrece.

Emendei a quinta e a sexta pós-Carnaval, fiz uma viagem curta com minha mulher e não pude ver os jogos contra Boavista e Madureira. No domingo à noite, porém, vi uma cena estranha, com uma linha traçada numa perspectiva pra lá de suspeita comprovando que, no gol de Bressan, a bola não teria entrado inteira. Depois vem alguém, prova que daquele ângulo é impossível atestar qualquer coisa, e lá se vai o prestígio do analisador tático pro espaço.

Tecnologias podem ser úteis em partidas de futebol, desde que não as transformem naquela chatice que é o futebol americano, com visitas frequentes ao telão, conferências entre os juízes etc. Até agora, o que apareceu de bacana e confiável (embora caro) é o chip na bola. Li em algum lugar que todos os estádios da Barclays Premier League – a primeira divisão do futebol inglês – dispõem da modernidade. Pretender algo semelhante no Raulino de Oliveira é de matar de rir. Fora isso, continuo achando que há interferência humana demais para declararmos de modo peremptório se fulano estava ou não impedido, se a bola entrou ou não. No gol de Bressan, o analisador tático poderia mudar o nome para analisador tosco.

Entretanto, o mais importante dessa história foi o debate que se seguiu, a partir de um jogo desimportante de um campeonato desinteressante, e que serviu para comprovar, pela milionésima vez, o quanto o Flamengo é grande e o quanto o Flamengo causa.

As redes sociais logo se encheram de comentários a respeito de um suposto e constante favorecimento ao Flamengo, o que denota, acima de tudo, absoluta parvulez. Nada mais insensato do que creditar trinta e três títulos estaduais, vinte taças Guanabara, seis campeonatos brasileiros, três copas do Brasil, uma copa Mercosul, uma Libertadores e um Mundial Interclubes a erros propositais de arbitragem. Em vez de encarar a real e se preocupar em melhorar para, ao menos, tentar diminuir a distância, a turma do arco-íris se perde em lamentações pueris.

Paciência: há os que vencem, há os que choram.

PS: As duas últimas rodadas do Euriquinho 2015 apenas corroboraram quem é que sustenta a bagaça. No jogo contra o Boavista, disputado numa quinta-feira à noite, o Flamengo levou quase 25 mil pessoas ao Maraca. Três dias depois, Fluminense e Vasco fizeram uma partida para um público que era um terço disso.

Jorge Murtinho

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  • Texto massa!!! Show de bola!!! Parabéns a Jorge Murtinho e a equipe do site/blog "República Paz e Amor"!!! SRN.

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