
Fonte: Goal
Após sugestão de executivo da NBA, personagens relacionados ao basquete nacional discutem a entrada de clubes de tradição na modalidade.
Começaram nesta semana as quartas de final da sétima edição do Novo Basquete Brasil (NBB), a principal competição da modalidade no país. Apesar do torneio estar crescendo em importância e número de participantes nos últimos anos, o basquete brasileiro ainda é um coadjuvante bem distante da NBA, mesmo para o mercado nacional. E qual pode ser solução para diminuir esse abismo? Na opinião de representantes da competição norte-americana, parte da resposta pode estar no futebol.
Em 2014, as duas ligas oficializaram uma parceria para benefício mútuo. Enquanto os americanos estão de olho no crescente consumo da modalidade pelos brasileiros, os organizadores locais buscam o conhecimento adquirido de quem faz das partidas verdadeiros eventos para o público.
Seguindo os passos de Palmeiras e Flamengo
No mês passado, o executivo principal da NBA no Brasil, Arnon de Mello, afirmou em conversa informal com jornalistas que uma das formas para atrair mais atenção para o NBB seria trazer clubes tradicionais do futebol para o basquete, como já acontece com o Flamengo e o Palmeiras.
Para fortalecer ainda mais esse conceito, a NBA divulgou na semana passada uma inovação na edição brasileira do NBA Global Games. A iniciativa que visa expandir a marca norte-americana pelo mundo já realizou duas partidas entre suas franquias no Rio de Janeiro, em 2013 (Washington Wizards x Chicago Bulls) e em 2014 (Cleveland Cavaliers x Miami Heat), e agora trará o Orlando Magic para enfrentar uma equipe brasileira, o Flamengo, apostando na presença dos flamenguistas nas arquibancadas.
Consistência no projeto
Com o basquete brasileiro se reestruturando e o Novo Basquete Brasil se fortalecendo a cada edição, a intenção dos organizadores é expandir o campeonato. Ao mesmo tempo, é preciso evitar iniciativas aventureiras. Em 2013, no mesmo ano da polêmica entre Portuguesa x Fluminense x STJD no Brasileirão, o time das Laranjeiras não conseguiu acesso ao NBB em quadra, ao ser derrotado pelo Macaé no triangular de acesso da Liga Ouro, e gerou polêmica após ganhar um convite da Liga Nacional de Basquete (LNB). Mas desistiu de disputar a divisão principal por falta de recursos.
“Eu acho que é sempre válido ter times de camisa, pois trazem torcida e mídia. Mas eu não creio que só trazer o time seja suficiente pra modalidade. O Vasco montou um timaço (na década de 90), foi campeão de tudo, mas quando o dinheiro mingou sumiu do mapa”, analisa o jornalista Fábio Balassiano, do blog Bala na Cesta.
Também em entrevista a Goal, Sérgio Domenicci, gerente executivo da LNB, vai em uma linha de pensamento parecida, dizendo que é importante ter consistência no projeto.
“Se forem clubes que têm na essência o basquete, eu acho vantajoso. Tem que ter historia por trás, não adianta ser aventureiro. Corinthians, Vasco, são clubes que já tem tradição. Tem que tomar cuidado com projetos pessoais, um diretor que jogou e agora quer colocar basquete no clube.”
Torcedores do futebol no basquete
Apesar das vantagens que a união pode trazer, existem discussões sobre que impacto isso poderia gerar nas arquibancadas dos ginásios. No final de semana passado, o jogo decisivo entre Franca x Palmeiras pelas oitavas de final terminou em briga, principalmente entre palmeirenses e polícia. Para Domenicci, estes são fatos isolados.
“O Flamengo está na liga desde o início. Nunca houve problema disciplinar. No Palmeiras, tivemos ocorrências pontuais. Não é porque são torcedores do futebol. A grande maioria nunca causou problemas.”
“Não tem porque se preocupar com segurança. São muito raros os casos e agimos pontualmente”, completa Alejandro Audinino, diretor de basquete do alviverde.
Exemplo europeu
Se a NBA tem suas franquias, na Europa o sistema se assemelha um pouco mais com o brasileiro. Clubes tradicionais do futebol também têm representantes no basquete, alguns com muita força e tradição na própria modalidade. São casos do Real Madri, Barcelona, Panathinaikos, Olympiacos e Fenerbahçe. O atual campeão da Euroliga, Maccabi Tel-Aviv, também tem o seu time de futebol, mas é mais forte e tem até mais orçamento para o esporte da bola laranja.
“Na Espanha, esse é o segundo esporte. Na Grécia, os torcedores são malucos. Na Turquia, o campeonato é muito forte. O futebol dá um incremento de popularidade, mas o basquete já é popular há muito tempo”, explica Balassiano.
“O grande medo da LNB é trazer o torcedor que só torce pelo Flamengo, por exemplo, e não pelo basquete. Ou seja, não gosta do produto, gosta do clube. Será que vale a pena? Barça e Real, por exemplo. O torcedor é diferente, as médias são grandes, mas longe do perfil do time de futebol”, completa.
E essa separação também acontece na estruturação dos departamentos. Para os entrevistados pela Goal, é fundamental que o basquete sobreviva sem precisar da verba do futebol, tenha os próprios recursos, para evitar ser deixado de lado em caso de alguma crise dentro de campo.
“As administrações têm se profissionalizado. Não dá pra tirar dinheiro do futebol pro basquete, isso não acontece no Palmeiras, no Flamengo. No Fla, o basquete é superavitário no clube. O que garante de atração de investimento é o bom trabalho”, garante Sérgio Domenicci.
“O time principal do Palmeiras depende apenas de patrocínio, não depende do futebol. As decisões são tomadas pelo próprio departamento. Tudo é independente. Nosso marketing é quem consegue nossos recursos financeiros”, reafirma o dirigente do Verdão, Alejandro Audinino.
Solução passa pelo interior e outros centros
Apesar da intenção de trazer times de tradição para a modalidade, a solução pode estar em outro “vácuo” deixado pelo futebol. São José dos Campos e Limeira são exemplos de cidades onde os times já foram muito forte, mas hoje estão na A-3 do Campeonato Paulista.
Carente de uma equipe que pudesse dar orgulho, muitos torcedores migraram para os ginásios. São José, inclusive, tem uma das maiores médias de público na história do NBB.
“Existem duas alternativas para fazer time de basquete. Cidades do interior com grande população mas sem clubes fortes, como São José, Limeira, Franca, ir para o Rio Grande do Sul, Paraná, pegar o Joinville em Santa Catarina. Ou seja, pode aproveitar esse vácuo. E Norte e Nordeste poderiam entrar nessa também, como Belém, que tem um grande público.”
“Sem dúvida que podemos aproveitar espaço dado pelo futebol. Em Brasília, a média de público é maior que vários estaduais pelo Brasil em algumas situações. É o time da cidade, não tem concorrência do futebol. Nós temos buscado alguns outros centros. Tem o Sport lutando pra subir, Botafogo e Náutico na Liga de Desenvolvimento do Basquete. Temos mais de 30 equipes pedindo pra entrar na LDB. É incentivando cidades com potencial que podemos crescer cada vez mais”, finaliza Domenicci.
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