Esparadrapos e panos quentes

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República Paz e Amor – Em 17 de setembro de 2014, Emerson Sheik estava no Botafogo e foi expulso na partida contra o Bahia, pelo Campeonato Brasileiro. Ao sair de campo, Emerson partiu em busca da câmera para declarar em alto e bom som que a CBF era uma vergonha. Na mesma noite, ao final de um outro jogo que a Globo acabara de transmitir para São Paulo, Cléber Machado perguntou a Caio Ribeiro o que ele tinha achado do episódio. Coxinha até não mais poder e lançando mão do obtuso argumento de que “é preciso ter respeito à hierarquia, por mais que você não concorde”, Caio condenou Sheik.

Naquela época eu escrevia o blog Questões do Futebol, no site da revista Piauí, e fiz um post criticando a postura de Caio e a quase sempre pouco questionadora posição da Globo nas transmissões esportivas – inversamente proporcional à competência que a emissora demonstra na hora de produzir matérias como a do gol de falta do Pet, que foi ao ar no Esporte Espetacular do último domingo.

Para quem considera bom-mocismo uma virtude, Emerson Sheik e Vanderlei Luxemburgo não são flores que se cheirem. Pouco importa. Eles, e todo mundo, têm total direito de dizer o que pensam, sobre o assunto que for e na hora em que quiserem. Aliás, é impressionante como fazem falta ao nosso futebol a sinceridade marrenta de Romário, o temperamento incontrolável de Edmundo, a consciência de Sócrates, raridades a quebrar o cínico comportamento cordato que assola o futibinha verde-amarelo.

Fui passar os feriados da Páscoa no interior de São Paulo. Entre uma e outra das extensas rodadas de cerveja com meu cunhado, dediquei o tempo livre ao segundo volume da biografia Getúlio, estupendamente apurada por Lira Neto e leitura obrigatória para quem pretende entender como sempre se deram as relações políticas no Brasil e as interesseiras ligações entre imprensa e poder. O segundo volume de Getúlio aborda o período que vai de 1930 a 1945. Logo após a frágil tentativa de levante comunista, no final de 1935, entra em cena o Estado Novo, com uma enxurrada de prisões coordenadas pelo chefe de polícia política do então Distrito Federal, Filinto Muller. Graciliano Ramos, Nise da Silveira, Jorge Amado, muita gente boa foi em cana. A censura comia solta e quem não estivesse disposto a fazer jornalismo chapa-branca simplesmente não fazia jornalismo algum. Não há como comparar os tempos, e felizmente jamais voltaremos àquelas épocas, mas as estruturas de poder do futebol brasileiro parecem viver na primeira metade do século passado. Pior: com ecos em alguns setores da imprensa.

Ontem tivemos, no programa Troca de Passes, do canal SporTV, uma situação tão surpreendente quanto bizarra. Antes disso, porém, mais uma digressãozinha básica.

No final do ano passado, estava com a minha mulher na área de embarque do Santos Dumont, voltando para São Paulo depois de um fim de semana carioca. Tomávamos um café, quando ela percebeu meus olhos fixos em algo. Expliquei: não se vire pra não dar bandeira, mas acaba de entrar na sala o cara que fez o gol mais bonito da história da seleção brasileira, o cara que levantou a taça da seleção tricampeã do mundo, a melhor que eu já vi jogar. Apoiado numa bengala, certamente consequência do sofrimento nos joelhos que costuma acompanhar os atletas de elite, vinha Carlos Alberto Torres. Depois que ele se sentou, sozinho, a uma das mesas, minha mulher ainda tentou me encorajar: vai lá, se apresenta, diz que você escreve o blog de futebol da Piauí, aí eu tiro uma foto de vocês dois. A timidez me impediu e, mesmo, não achei justo invadir a intimidade e interferir na tranquilidade do capitão do tri. Deixei pra lá, embora tenha embarcado com indisfarçável arrependimento.

Uma cousa – como escreviam os ministros de Getúlio em seus bilhetes dirigidos ao chefe – foi o Carlos Alberto da extraordinária seleção de setenta, primorosa mistura de talento individual com atuação coletiva. Outra cousa, bem diferente e assustadora, foi o que ouvi Carlos Alberto dizer, domingo, na mesa do Troca de Passes, ancorada por André Rizek e coadjuvada pelo jornalista Raphael Rezende e o ex-jogador Ricardo Rocha.

Regredindo oitenta anos no tempo, trazendo de volta a lembrança do Estado Novo sobre o qual eu acabara de ler no fim de semana pascoal, Carlos Alberto se exaltava, batia na mesa e, aos gritos, sustentava que treinador e jogadores de futebol não têm nada que protestar com esparadrapo na boca, que aquilo é uma palhaçada, que eles devem se preocupar, exclusivamente, em treinar para melhorar o padrão técnico do atual futebol brasileiro.

O que Carlos Alberto aparentemente não entende é que o motivo dos protestos de treinadores, jogadores e dos presidentes Eduardo Bandeira de Mello e Peter Siemsen é, justamente, o que vem criando obstáculos quase intransponíveis para que se consiga melhorar o futebol dentro do campo. Elementar. Como agravante, não houve na mesa quem rebatesse Carlos Alberto. André Rizek sorriu amarelo e pôs panos quentes, disse que concordava com boa parte das reclamações tricolores e rubro-negras, mas não foi firme, deixando a impressão de não querer discordar.

Por fim, o mais estranho da história: a discussão sobre o Campeonato Carioca ocupou todo o primeiro bloco do programa, falou-se de Fla-Flu, expulsão de Fred, Friburguense x Vasco, Bandeira de Mello, Siemsen, Luxemburgo, Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, mas em momento algum foi citado o nome de Eurico Miranda, nefasta figura que sabidamente está por trás de absolutamente tudo o que vem acontecendo de mais atrasado e lamentável nos meandros políticos do futebol carioca. Estranho esquecimento.

De qualquer modo, para não abandonarmos a leveza e o sempre aconselhável bom humor, resta lembrar a declaração de Fred na zona mista, já com a cabeça fria e de banho tomado. Não sem certa ironia, Fred levantou suspeitas sobre os três pênaltis que “houveram” a favor do Vasco no jogo em Friburgo. Independentemente de os cartões terem sido ou não rigorosos e de a expulsão ter sido ou não justa, o maior ataque que o galante artilheiro perpetrou no domingo foi contra a língua portuguesa.

Jorge Murtinho

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