
Carlos Eduardo Mansur – Não há patrimônio mais valioso para qualquer instituição do que a credibilidade. Quando ela se vai, perde-se o essencial. Que o digam o Fla-Flu de domingo, a rodada do Estadual, o campeonato inteiro.
Sem credibilidade, um clássico com resultado condicionado por um erro grosseiro de arbitragem deixa de ser apenas um clássico com resultado condicionado por um erro grosseiro de arbitragem. Já houve tantos assim. Não seria o primeiro, tampouco o último. Mas a expulsão tosca de Fred virou o mais recente combustível para reclamações, acusações abertas ou veladas, teorias conspiratórias. Afinal, o erro vitimou o inimigo número 1 da Federação que deveria regular o campeonato, mas que perdeu a tal credibilidade. Sem ela, o terreno é fértil para fomentar o conflito. Quem convencerá o torcedor tricolor de que foi apenas mais um erro, dentre tantos? E nada impede que, de fato, tenha sido.
Sem credibilidade, um jogo com três pênaltis não é apenas um jogo em que, coincidentemente, aconteceram três pênaltis. Ainda mais quando todos são a favor do mesmo clube, aliado da tal federação. Perdeu-se a honestidade? Impossível afirmar, muito menos provar. Aliás, nada aponta para a má fé. O árbitro pode ter visto as três penalidades. Mas num ambiente em que se perdeu a credibilidade, perdeu-se o direito de errar ou acertar livremente. Tudo pode ser verdade, tudo pode ser fantasia.
Vanderlei Luxemburgo foi vítima de uma grotesca interpretação, feita pelo tribunal, de uma entrevista em que apenas recomendava um olhar crítico sobre a organização do Estadual. Sua suspensão soou como a definitiva pá de cal na já escassa credibilidade. Vitimou o outro inimigo declarado da federação. Entidade, diga-se de passagem, cujo presidente já andou dirigindo saraivadas de desaforos repletas de termos impublicáveis aos desafetos. Não foi punido, nem julgado.
Os capítulos seguintes reservaram uma coleção de termos como “jogo de cartas marcadas”, “entidade sem moral”, “quem mandou este árbitro fazer isso” e afins. Foram usados à vontade por Luxemburgo, por Fred e pelos presidentes de Flamengo e Fluminense. Possivelmente sejam levados ao tribunal. Não seria exclusividade brasileira. A Premier League inglesa tirou o equivalente a R$ 115 mil de José Mourinho por críticas a arbitragens. Sérgio Ramos e Cristiano Ronaldo foram alvos de inquérito na Espanha pela mesma razão no ano passado. E também por ataques a juízes, a NBA multou dois jogadores num espaço de um mês. O que difere os casos daqui e os de lá? A credibilidade, a reputação de quem pune. Justo ou injusto, regulamento ou restrição de liberdade, o fato é que, lá fora, a medida é tratada como proteção ao produto. Aqui, como proteção ao poder. Tem ar de perseguição, revanchismo político. Porque o poder perdeu credibilidade.
A discussão realmente construtiva envolve o modelo, não só os personagens. E o modelo faliu. Difícil pensar o futebol brasileiro sem algum tipo de entidade regional, capaz de fomentar a formação, trabalhar para que o topo de pirâmide seja capaz de irrigar a base em cada estado num país tão gigantesco. Mas a federação blindada por estatutos e regulamentos que lhe conferem superpoderes, que protegem a sua diretoria com um exército de clubes amadores e ligas do interior, que reduzem a quase nada o poder político e de participação dos principais clubes do estado, esta é claramente anacrônica. Por anos, a omissão, acomodação ou qualquer outro nome que se queira dar à apatia dos clubes contribuiu para assentar a estrutura de poder que vigora. Hoje, as amarras políticas da federação sequer permitem que estes clubes discutam o acesso às propriedades comerciais do Estadual. Geradas, aliás, graças à força de suas marcas.
Uma luta por reformas parece unir Flamengo e Fluminense. Há, enfim, a sensação de que nasce um projeto consistente de revisão do modelo, que não morrerá com o fim do Estadual, como em anos passados. O clamor, os protestos sob o impacto emocional do erro de arbitragem, embora justos e até compreensíveis, esfriam com o tempo. Afinal, mexem apenas na superfície, na face mais aparente do problema. Remetem ao passado, a algo que já se viu. Se forem maduros, seguirem unidos e demarcarem uma pauta realista, Flamengo e Fluminense podem nos conduzir ao futuro.
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