Obstinação – Carlos Eduardo Mansur

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Fonte: Blog Carlos Eduardo Mansur

As trajetórias são semelhantes, talvez o desejo ou as necessidades, também. O fato é que a atitude também foi a mesma. Provavelmente, nenhum clube quisesse tanto, ou precisasse tanto do Estadual quanto Vasco e Botafogo. E os dois farão a final. Dois clubes em reconstrução após rebaixamentos — o Vasco em 2013, o Botafogo em 2014 —, que refizeram elencos quase inteiros, exibiram na mesma proporção limitações técnicas e obsessão por um título que lhes permite a afirmação, o reencontro com a alegria. Jogaram as semifinais como decisões de Copa do Mundo. O Botafogo o fizera no sábado. Ontem, o Vasco repetiu a fórmula com 90 minutos de intensidade.

Verdade que a bola do jogo foi um pênalti inexistente. O que não mascara, pelo menos, 65 minutos de um domínio tático e técnico do Vasco. Mereceu amplamente o resultado. A sensação é de que, se não fosse no pênalti, o gol poderia vir de outra forma. Foram justos o 1 a 0 e a classificação para a decisão em preto e branco.

Tão heroico quanto o Vasco que bateu após dois jogos um Flamengo que manteve base e tinha, em tese e no papel, mais recursos técnicos, são o Campeonato Estadual e o torcedor carioca. Este último, quando lhe coube a tarefa, tratou de criar o que houve de melhor até agora numa competição que é um produto sob intenso ataque. Foi belíssimo o ambiente, a guerra de gritos em um Maracanã com 53 mil pessoas. Gente que ignorou os conflitos de cartolas, os desgovernos da Federação, as tentativas de desmoralizar um torneio que é guardião da história de rivalidades que dão alma ao futebol.

E como sofre este campeonato! Não é só fora de campo. Dentro dele, jogadores que, nos 180 minutos do confronto, ignoraram as leis do bom senso e da esportividade. Só ontem, fizeram 54 faltas. E, como se faltasse alguma coisa, outra vez o torneio entra para a história com a mancha de um erro grave. No ano passado, lucrou o Flamengo com um gol em impedimento no último minuto. No domingo passado, o rubro-negro poderia ter ficado com menos homens no primeiro tempo. Ontem, um pênalti em momento vital, decisivo, influiu dramaticamente no resultado. Como se não bastasse, Gilberto, o autor do gol, foi comemorar junto ao público. Já tinha cartão amarelo. Pelo critério que valera até este jogo, deveria ser expulso.

No sábado, também o Botafogo se valeu de um gol em impedimento na vitória sobre o Fluminense.

As arquibancadas do Maracanã, nos clássicos, foram uma ilha de beleza cercada por incompetência de todos os lados. Aconteceu de tudo com este campeonato. Mas ele insiste em resistir.

Em campo, limitações à parte, o fato é que o Vasco ganhou quase todas as divididas, prevaleceu no controle do meio-campo. A exceção foram os 25 minutos finais do primeiro tempo. E ali ficou uma estranha sensação. Após ter o rival neutralizado e ter chutado as duas bolas mais perigosas da primeira etapa, o Flamengo voltou para o segundo tempo com uma mudança que lhe roubou consistência: a saída de Luiz Antônio e a entrada de Arthur Maia. Perdeu vigor e transição para o ataque.

No início do jogo, um Vasco decidido comandou, mas criou pouco. Finalizou em dois lances aéreos após escanteios. Na segunda metade da primeira etapa, os volantes rubro-negros cuidaram de Marcinho, Luiz Antônio segurou Christiano de um lado enquanto Éverton e Marcelo Cirino seguravam Madson do outro. Era difícil para o Vasco descobrir nas costas de que marcador Éverton se colocaria para ligar os ataques. Ele e Alecsandro quase marcaram.

Então, por que Vanderlei Luxemburgo mexeu? Mais fácil entender que Doriva acertou. Marcinho perdera fôlego e qualidade. Então, o treinador vascaíno colocou Dagoberto, que ajudou o antes isolado Gilberto. Guiñazú, Serginho e Julio dos Santos seguiram vencendo as batalhas no meio, tinham mais presença. A partir daí, foi impossível ao Flamengo fazer com que qualquer bola viajasse da defesa ao ataque. A não ser em lançamentos infrutíferos de laterais ou zagueiros. O Vasco foi o senhor da segunda etapa.

Enquanto foi possível, Paulo Victor evitou o pior. Primeiro, em cima da linha na cabeçada de Rafael Silva. Depois, em chute de Gilberto de média distância. O mesmo que converteria, aos 17 minutos, o pênalti mal marcado de Wallace em Serginho.

Por falar em Gilberto, vale traçar um paralelo entre ele e Marcelo Cirino. Talvez seja cruel e precipitado rotular o principal reforço rubro-negro da temporada. Mas Cirino, que fez nove gols no Estadual, colecionou várias boas atuações. Nenhuma delas num clássico, num chamado “jogo grande”. O que não significa que não o fará no Brasileiro. Trata-se, apenas, de uma constatação do que fez até o momento. E há, de verdade, jogadores com dificuldade de brilhar em ocasiões de gala, ou de pressão.

E Gilberto? Marcou oito vezes. Fez gol contra o Botafogo e em dois duelos com o Flamengo. Não é exatamente um primor de técnica, mas tem sido decisivo num time que nem lhe propicia tantas chances de gol. Se voltar a marcar nas finais, fará história. Terá dado ao Vasco um título esperado há 12 anos pela torcida.

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