
Blog do Mansur – O mais jovem e o mais famoso ofereceram as duas mais ricas reflexões na primeira semifinal do Campeonato Estadual. Seja sobre a nossa forma de julgar jogadores de futebol, seja sobre como o futebol brasileiro parece desacostumado a lidar com o bom passador, o meia que organiza o jogo.
Gérson tem 17 anos. Desponta para o futebol atraindo atenções justamente por aparentar ser dono de uma característica escassa em terras brasileiras: a capacidade do passe. Para que exiba seu repertório, precisa ser influente no jogo. Mais do que a posição em que vem sendo escalado lhe tem permitido.
No futebol de hoje, é utópico imaginar um meia divorciado de ações defensivas. A questão é que, empurrado para a lateral do campo, quase junto à linha, Gérson perde parte importante de sua influência na hora de atacar. É quase um exílio do jogo ou, ao menos, da zona mais decisiva da partida. E pior. Fica obrigado a correr com o lateral contrário, numa ação que consome boa parte de seu fôlego. Corre pelo menos 70 metros para defender e, em seguida, precisa cumprir outros tantos para construir.
Em outra faixa do campo, certamente cobriria uma extensão menor na hora de defender. E lhe sobrariam pernas para criar, ditar o ritmo, dar o tempo do jogo. Num Fluminense com dificuldade para se recompor, embora o clássico tenha revelado certa evolução neste aspecto, o meia é sacrificado.
É verdade que Gérson estava pelo lado do campo quando deu o passe sob medida para Fred fazer o primeiro gol do Fluminense. Não se trata de um sinal de que estava no lugar ideal para seu futebol. Na verdade, a qualidade do cruzamento, do passe, é que indica o quanto merece participar mais do jogo.
Fred tem 31 anos. Não pediu para jogar a Copa do Mundo de 2014, no Brasil. E se foi titular da seleção sem grandes contestações até o momento em que entrou em campo e, junto com o time, jogou mal, era porque não havia centroavantes à altura para competir pelo lugar. Seu reserva imediato, Jô, acaba de completar um ano sem fazer um gol.
Foi absolutamente justa a avaliação de que Fred fez uma Copa muito ruim, mesmo levando em conta os problemas coletivos do time. Injusto, ou ao menos precipitado, é o apreço tipicamente brasileiro pelos decretos definitivos e irrevogáveis. Fred não chegou ao fim da linha, tampouco se transformou num jogador imprestável para times grandes. Tampouco sucumbiu à anunciada pressão que sofreria no país por ter sido eleito um dos vilões da derrocada brasileira.
Desde o Mundial, Fred foi quase sempre protagonista nas competições domésticas. Foi artilheiro do Brasileiro com 18 gols. Com os dois gols deste sábado, sobre o Botafogo, chegou a 11 no Estadual. É novamente artilheiro. Fred pode não ser mais cobiçado pelos grandes mercados, pelas competições de elite europeias. Mas, no cenário nacional, suas virtudes sobram.
Num país que não vem produzindo com fartura os centroavantes, o típico 9 de área, enxergar o fim da linha para Fred foi um erro. Seja pelo conhecimento da área, seja pela experiência que lhe permite aparecer em horas decisivas.
Fim da linha, aliás, o Fluminense poderia ter decretado ao Botafogo. Taticamente, o alvinegro é mais resolvido por René Simões. Tecnicamente, o tricolor tem mais recursos. Embora, coletivamente, tenha longo caminho a percorrer. Tem momentos de absoluta desarrumação. A capacidade individual produziu um 2 a 0 precioso. O gol de Willian Arão reabriu a semifinal.
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