Rabo forte, cachorro fraco… Ou a inversão da ordem natural das coisas

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Fonte: Blog Olhar Crônico Esportivo

É da ordem natural das coisas que o cachorro balance o rabo. Tanto é natural essa ordem que muitas raças foram criadas por mais de século tendo seus rabos totalmente amputados, o que ainda hoje ocorre. Apesar disso, mesmo sem o rabo, o cachorro sempre deu conta de viver bem. Nunca se soube, porém, do inverso haver acontecido. Talvez, quem sabe, aconteça naqueles laboratórios dos blockbusters de Hollywood que teimam em recriar dinossauros…

Cresci torcendo por um time. Torcia pelo meu time antes mesmo de torcer pela Seleção Brasileira. Mesmo conhecendo muita gente, não conheço uma só pessoa entre os amantes do futebol que torça por um jogador ou pela Seleção. Sim, é comum ouvirmos “Eu torço só pela Seleção”, mas essa frase é sempre pronunciada por pessoas que têm relação muito distante com o esporte mais popular do planeta.

Torcedor torce por um time.

O time, o clube, é a razão de ser do futebol.

O clube é o cachorro.

O resto é acessório, é rabo. Aqui se incluem federações e confederações, da menorzinha delas até a maioral, a FIFA.

São entidades necessárias, sem elas o futebol não teria se desenvolvido, mas são acessórias.

É possível existir futebol sem federação.

É impossível existir federação sem futebol.

Assim como é impossível o rabo balançar o cachorro. Se isso ocorre, há algo muito errado em algum lugar.

Apesar disso tudo, há muito tempo no Brasil parece que os clubes são acessórios e as federações e a confederação são a razão de ser da existência do futebol. Temos clubes fracos e federações fortes. Essas entidades chegam a emprestar dinheiro aos clubes, cobrando caro por isso, como se fossem bancos ou agiotas, e cobrando, igualmente, retornos políticos dos dirigentes de pires nas mãos.

Os números mostrados pela atual safra de balanços, sem exceção feita, mostram o porquê da fraqueza de nossos clubes. Tanto é verdade que o melhor de todos os balanços e também a melhor gestão, são do Flamengo. Mesmo com todo o trabalho e as boas receitas o clube continua devendo um mundo de dinheiro e tem que viver de acordo com regras rígidas de controle, justamente para conseguir sair dessa situação.

Entre todos os balanços nenhum é tão bonito, nenhum apresenta números tão sonoros e tão ricos como o da CBF. Sua receita foi, simplesmente, 49,6% maior que a do clube com maior receita em 2014. Podemos arredondar sem problema: 50% maior.

Esse post, porém, não é sobre isso, mas sobre um outro absurdo: a FERF – Federação de Futebol do Rio de Janeiro – ganhou mais dinheiro com o Campeonato Carioca desse ano que qualquer outro clube!

Realmente espantoso, o exemplo perfeito do rabo que balança o cachorro.

Como mostra a matéria do blog Bastidores, do portal GloboEsporte.com, a federação arrecadou um total de R$ 2,5 milhões na soma das taxas das partidas do campeonato, contra R$ 2,3 milhões recebidos pelo campeão, o Vasco da Gama. O vice-campeão Botafogo faturou um total de apenas R$ 1,4 milhão na competição, enquanto o clube com maior torcida no estado arrecadou R$ 1,7 milhão.

O total arrecadado pela Federação Carioca é explicado pelo percentual que cobra em cada partida: 10% da renda bruta. Em São Paulo a federação cobra apenas a metade – 5% – e mesmo assim já se fala na necessidade de reduzir o valor da taxa, segundo informou a coluna Painel FC, da Folha de SP. Nesse campeonato recém-terminado, essa taxa rendeu à federação de São Paulo apreciáveis R$ 2,8 milhões.

Esses números mostram, entre outras coisas, a fraqueza política dos clubes brasileiros. Fraqueza que é fruto natural da desunião que os marca e da visão estreita da maioria, se não a totalidade, de seus dirigentes.

Com tudo isso, não é de espantar que os jogadores, através de uma entidade há pouco criada, o Bom Senso FC, tenham mais peso político que eles, os clubes, que são, ou deveriam ser, os grandes protagonistas do esporte. Mas que hoje são cachorros fracos balançados por rabos desproporcionalmente fortes.

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