Encruzilhada rubro-negra

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Fonte: Carlos Eduardo Mansur

A questão que se põe após o passeio corintiano no Maracanã é até onde o Flamengo e o pressionado Cristóvão Borges estão dispostos a insistir no risco. O treinador persiste na ideia de jogo que marca sua trajetória recente: time adiantado, posse de bola e ocupação do campo rival para trocar passes. Num elenco que prefere a velocidade, é um desafio e tanto. E, quando este elenco vai se formando em plena disputa, a sensação de ousadia, por vezes, dá lugar à percepção de que o bom-senso vem sendo contrariado. Multiplica-se o risco. Bolas são perdidas, zagueiros se veem expostos e os gols saem um após outro. O Corinthians teve a goleada ao alcance. Ficou nos 3 a 0.

Por falar em bom-senso contrariado, o cenário era exemplar. O vazio na parte superior dos setores Leste e Sul, mantidos fechados, era um símbolo da incapacidade de promover grandes eventos, do hábito de jogar fora oportunidades de valorizar o produto num país que sofre para encher estádios. O acordo que tirou Guerrero do jogo, exigência corintiana, exibe o norte, a orientação que prevalece na tomada de decisões no futebol brasileiro. O passional, a visão estreita e tacanha goleando o profissionalismo. As pouco menos de 30 mil pessoas no maior clássico do Brasil, que poderia ter o dobro de gente, representam um prejuízo financeiro, mas também institucional. A “solução” esvaziou o clássico. Criou frustração, sensação de incompletude.

O Corinthians também viveu sua reforma com o campeonato em andamento. Mas tem um treinador íntimo do elenco e mantido desde janeiro. É mais consolidado. E tecnicamente melhor. Após 25 minutos de equilíbrio, passou ao 4-1-4-1 que permitiu desarmes e contragolpes. Nem foram tantos no primeiro tempo, mas suficientes para abrir vantagem.

O Flamengo, com um treinador há 45 dias no cargo, não tinha seus dois principais reforços recentes e usou três jogadores que, no início do Brasileiro, sequer eram opções no elenco. Circunstâncias que tornam ainda mais perigosa a decisão de perseguir uma filosofia ousada e pouco habitual a este time. Mais conservador, apostando na velocidade, o time foi mais seguro e eficiente contra Joinville e Internacional, fora de casa.

Contra o Corinthians, o 4-2-3-1 fazia de Canteros o homem do último passe, quase sempre impreciso. Assim como eram imprecisos Cáceres, Gabriel e Cirino, este último, ao menos, presente nos raros lances de perigo. Em casa, o Flamengo se sentia na obrigação de ser protagonista. Mas não criava e se oferecia ao adversário. E exibia um meio-campo pesado.

Após um começo parelho, foram as individualidades que começaram a ditar o rumo. De um lado, Éverton errou o passe. Do outro, Elias acertou tudo: corrida, passe para Vágner Love e toque por cobertura no rebote. E com acertos coletivos e individuais, Renato Augusto fez o lance do gol de Uendel, aos 49. Revelou-se uma imagem notável: os setores mistos do Maracanã tinham marcante presença corintiana. Em paz. Bom exemplo.

É difícil sustentar que o polêmico acordo que afastou Sheik e Guerrero tenha feito, sozinho, a diferença no jogo. Ou que tenha feito toda esta diferença vista no placar final. Marcelo Cirino teve só uma chance de finalizar após jogada construída. E perdeu. Os dois ausentes poderiam abrir mais espaços, preocupar mais a defesa rival e até fazer gols. Mas a fluidez do jogo rubro-negro era mínima. E a estrutura do time, deficiente.

O segundo tempo beirou o suicídio. Cristóvão avançou os laterais e tentou fazer a bola circular nos pés dos meias. Sobravam generosos espaços às costas de laterais e volantes. Saiu o gol de Jádson, aos 18. Teve bola na trave e gol perdido por Vágner Love. Ao Flamengo, restou o gol mal anulado de Jonas.

Entre a segurança e o risco, há uma escolha a ser feita no Flamengo.

Ver comentários

  • Não vi o jogo, somente os melhores momentos. Está claro que o Flamengo não sabe se defender. Wallace e Marcelo não passam segurança, os volantes não acompanham e os meias não ajudam na marcação. Fui contra a contratação de C. Borges e também achei que a diretoria foi muito afoita. Deveria esperar a queda do M. Oliveira ou tentado o Muricy. Cristóvão começou e decidi apoiá-lo, pois pensava que ele mudaria o esquema de jogo. O Flamengo infelizmente joga como se estivesse com Luxemburgo. Não mudou nada. Só algumas peças. Os jogadores parecem absortos em campo, para não falar perdidos. C. Borges não consegue implantar a própria filosofia. Tem que ter coragem para mudar. Insiste no ridículo e previsível 4-2-3-1. A meu ver um bom time começa com a defesa. Dar crédito a um cara (Wallace) que fala bonito na preleção e faz cagada durante o jogo é triste.
    Enfim; Flamengo precisa de um goleiro (experiente para ser reserva), um zagueiro (experiente para ser titular ou reserva) e um atacante (sombra do Guerrero). E pelo amor de Deus um meia de criação (Montillo). Perder lutando é uma coisa; agora perder fazendo inúmeras cagadas aí descontrole. Rodrigo Caetano precisa mostrar a que veio.

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