Guerrero, o Maracanã cheio e a terra dos descartáveis

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Fonte: Carlos Eduardo Mansur

Guerrero levou mais de 50 mil ao Maracanã. Era o primeiro contato dele com a torcida do Flamengo. Estreias renovam esperanças, alimentam sonhos. Fazem bem ao torcedor e ao futebol.

O que não faz bem ao Campeonato Brasileiro é que a sensação de ver uma estreia, um recomeço, um novo time se repita a cada semana e em cada canto do país. Pior ainda é a sensação de que o time de hoje não será o de amanhã. Tudo é descartável. O papel de país exportador nos rouba talentos. E é lógico que o campeonato sofra. Mas nada faz mais mal do que a instabilidade, a janela permanentemente aberta, o mercado incessante com o torneio em andamento. Perde-se jogo coletivo e qualidade mas, acima de tudo, perde-se um mínimo de identidade. Não é saudável um campeonato com 14 rodadas e 80% de times em formação.

A experiência pode ser feita na porta de qualquer estádio do Brasil: pedir que um torcedor escale, do goleiro ao ponta, os nomes que vão vestir a camisa de seu time naquela tarde. Passar no teste é coisa para iniciados no país dos times descartáveis.

Jogado um terço do Campeonato Brasileiro, a rodada de abertura, disputada há 70 dias, soa como passado distante. Ao todo, houve 102 mudanças de escalação nos 20 clubes, numa comparação entre a 13ª rodada e o jogo em que cada equipe usou seus titulares pela primeira vez. E nem só de lesões e suspensões se alimentam os números: o mercado incessante tem papel fundamental. Quarenta jogadores que atuaram na estreia das formações titulares já se transferiram para outras paragens.

E mais: levando em conta apenas as duas últimas rodadas, foram a campo 44 jogadores que, na abertura do torneio, ou não pertenciam aos seus clubes atuais, ou eram recém-contratados à espera da regularização. A cada rodada, houve vendas e estreias de norte a sul do país.

Como a fila à espera da estreia é longa, há mais por vir. O Flamengo acaba de contratar o zagueiro César, o Palmeiras apresentou Lucas Barrios na última semana. Neste domingo, Osvaldo aparece no Fluminense e Ronaldinho Gaúcho encontra sua nova torcida. A instabilidade em campo é a mesma da área técnica. No atual campeonato, só sete treinadores chegaram ao mês de julho com a carteira assinada pelo empregador que tinham em janeiro. O torneio já registra 11 trocas de comando técnico.

A janela escancarada e quase permanentemente aberta transforma elencos a cada semana. E os maus resultados, como sempre, executam um culpado. O trauma pós-7 a 1 colocou os treinadores brasileiros na berlinda: atraso tático virou a expressão da moda. Contra o diagnóstico, os técnicos sacam o argumento da instabilidade para se defender, e os números jogam a favor deles.

O cenário reacende discussões. Entre elas, a da adaptação do calendário brasileiro ao europeu, ou seja, iniciar temporadas em julho e terminar em maio do ano seguinte. Com clubes à mercê do mercado globalizado, ter uma competição em pleno andamento entre junho e agosto é certeza de entra-e-sai, como muito mais “sai” do que “entra”. No calendário atual, 15 rodadas do Brasileiro coincidem com o momento de ebulição da janela europeia de transferências.

— Enquanto não mudar o calendário, não vamos formar time. Só vamos resolver emergências — afirma Vanderlei Luxemburgo, técnico do Cruzeiro há apenas 45 dias. — Não se faz trabalho. Preparamos o próximo jogo, não um time para crescer ao longo da temporada. Não há como avaliar o treinador. Será que só o Atlético (Mineiro) está certo e os outros todos errados?

Luxemburgo se refere ao time mais preservado do campeonato. A base titular está intacta. O Atlético-MG é líder. Como futebol não tem fórmula, o surpreendente Sport contratou quatro jogadores com o torneio iniciado. Em compensação, perdeu só um titular da estreia e tem em Eduardo Baptista o técnico mais longevo do país. Ao lado, justamente, do atleticano Levir Culpi.

— É injusto avaliar o treinador brasileiro neste ambiente. Tanto que o técnico de fora chega aqui e sente. São trocas de jogadores e rodadas de meio de semana acumuladas no início do campeonato, justamente quando é preciso treinar. É verdade que os europeus têm uma preparação acadêmica melhor. Já aqui, qualquer um vira técnico. Mas as circunstâncias são muito difíceis — diz Enderson Moreira, que assumiu o Fluminense há dois meses. — Se não for possível nos adaptarmos ao calendário europeu, que ao menos haja uma pausa no meio do ano.

Por mais que a janela brasileira para inscrever reforços “importados” feche no dia 21 de julho, o regulamento do campeonato permite contratar jogadores domésticos até 15 de setembro. Ou seja, até outubro veremos estreias, recomeços. Em dezembro, recomeçam as contratações e vendas. Vão até a fase final dos Estaduais. Depois, compra-se e vende-se para o Brasileiro. Não para nunca.

Quanto a Guerrero, é inegável que fez o Flamengo subir de patamar. Quanto ao Flamengo, foi um time mais equilibrado contra o Grêmio. Com defeitos ainda, claro. A saída de bola ainda sofre, Emerson ocupa uma faixa de campo que o faz correr demais aos 36 anos. Sofre o seu físico, sofre a marcação pelo lado esquerdo do campo.

Mas é um começo, um recomeço, ou o nome que se queira dar. Guerrero, Emerson, Ayrton e Alan Patrick, presenças habituais nas últimas rodadas, sequer pertenciam ao clube quando o Brasileiro começou. Sem falar em Jorge, que vivia a transição da base para o profissional. Meio time novo.

O Campeonato Brasileiro vive a epidemia dos times em formação.

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