O “comum acordo” atrasa a nossa evolução

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Contratar e demitir um funcionário é direito do empregador. No futebol não é diferente. Embora seja um erro contratar sem critério, desconsiderar se há compatibilidade entre característica do elenco e filosofia do treinador, assim como demitir sem completar ciclos, sem ter base suficiente para avaliar trabalho e não resultados. Hoje, estatísticas definem demissões.

Justo considerar que técnicos também erram. Ao escalar, ao substituir, ao não substituir. E o ambiente instável do futebol brasileiro é mais propício ao erro do que ao acerto. Quando sobrevive à demissão, o treinador lida com um elenco diferente a cada semana, ao sabor de um comércio incessante.

Também é direito do funcionário sair de um emprego. E no futebol não é diferente. Ou melhor, não deveria ser.

Acontece que no cenário atual, treinadores formam uma classe em campanha aberta. Lutam por estabilidade, continuidade. O que faz da avaliação sobre a justiça ou injustiça da saída de Cristóvão Borges do Flamengo uma discussão secundária. É mais do mesmo, um produto natural da estatística desfavorável.

Mas o ponto crucial, o pecado capital da saída de Cristóvão está numa expressão usada tanto na nota oficial do clube, quanto do próprio treinador: “comum acordo”.

Para uma classe que reinvidica respeito, critério, continuidade, o “comum acordo” contribui pouco para a mudança de realidade. Cristóvão não é exceção, os “comuns acordos” proliferam por aí.

É como se o treinador subscrevesse a tese de que a interrupção é a melhor solução. É um estímulo à tese da instabilidade, do imediatismo. Em comum acordo, todos entendem que três meses é tempo suficiente para avaliar que um trabalho repleto de mudanças de elenco está condenado ao fracasso. No Flamengo, mudaram jogadores a ponto de o time enfrentar o Palmeiras, no último domingo, com seis jogadores que, em junho, sequer pertenciam ao elenco principal. O entra e sai fez as opções minguarem na Copa do Brasil. E, claro, em paralelo, Cristóvão cometeu seus erros de escalação e de gestão do time no decorrer dos jogos. Mas foram três meses, apenas.

Mesmo assim, surge o “comum acordo” para acomodar a situação. Em especial, para o dirigente. O ônus de ser o responsável por provocar a ruptura fica dividido, a responsabilidade também. E seguimos na vala comum de sentenciar a parte mais frágil.

Cristóvão está longe de ser o primeiro e não será o último a evitar conflitos na despedida. Mas a instabilidade é tema crucial para o futebol brasileiro. Técnicos têm direito de desistir, de sucumbir à pressão, de dar um passo atrás. A questão é o efeito que o discurso causa: a sensação de que é natural e saudável interromper um trabalho tão rapidamente. E de que os treinadores concordam com a rotina.

Não cabe a Cristóvão o peso de firmar posição em nome de uma classe inteira. Seria colocar responsabilidade demais em suas costas. O pedido de demissão de Doriva, de Felipão, as saídas súbitas de treinadores antecipando-se aos dirigentes, nada disso contribui para a luta da classe por estabilidade. A classe ainda é vítima do sistema. Mas a cada “comum acordo”, perdemos a chance de evoluir.

Fonte: Carlos Eduardo Mansur

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