
A campanha do Flamengo no segundo turno evidencia o que já devíamos ter aprendido há tempos mas nos recusamos a enxergar, sobretudo nas derrotas: a importância de encarar o futebol de acordo com o que ele tem de mais básico – o coletivo.
Da mesma forma que não é fácil apontar quais foram os destaques em nossas seis vitórias consecutivas, já que todos estiveram muito bem, é difícil salvar atuações individuais em derrotas como as das duas últimas rodadas.
Claro que um conjunto formado por grandes jogadores será sempre mais forte que um outro formado por jogadores medianos, mas o primordial é que haja um conjunto. Enquanto não entendermos isso e continuarmos crucificando o Pará aqui, o César Martins ali e o Cirino acolá, pouco avançaremos.
Minha mulher não acompanha futebol, a não ser pelas minhas reações. Quando acabou a partida com o Coritiba, ela me peguntou o que dera errado e o que tinha sido pior. Respondi que tudo dera errado e que o pior estava por vir. Eu falava do jogo que teríamos contra o Atlético Mineiro.
Talvez o Atlético não seja o melhor time do Campeonato Brasileiro – pra mim, é –, mas quem o enfrenta no Estádio Independência rói um osso. Eles jogam de forma agressiva, marcam firme, acuam o adversário, concluem a toda hora. Além disso, em uma dessas questões que não encontram explicação no futebol, tudo indica que haja uma certa incompatibilidade entre os dois jeitos de jogar, o nosso e o deles, que favorece a eles. Acontece.
Temos dificuldades nas bolas aéreas, quesito em que o Atlético é muito eficiente; nosso time com Oswaldo de Oliveira ficou mais organizado e valoriza o toque de bola, já o deles cultiva uma falsa bagunça (que eles mesmos chamam de “Galo Doido”) e privilegia a velocidade; eles não têm meio-campistas carregadores de bola – quem carrega a bola no Atlético é o bom lateral Marcos Rocha –, enquanto nós temos Márcio Araújo e Everton que atuam no sistema delivery. Na hora da onça beber água, nessa briga gerada pelos diferentes estilos de elencos e treinadores, nossas partidas com o Atlético são sempre uma tremenda dureza. Não que isto seja insuperável, mas há que se jogar no limite. E não está no seu limite um time que perde pênalti aos oito minutos e mete uma furiosa cabeçada contra suas próprias redes aos dezesseis.
Por menos rubro-negro que seja pensar desse jeito – sabendo que somos os fodões do Bairro Peixoto –, perder para o Atlético Mineiro fora de casa deveria estar em qualquer projeção realista que se fizesse quanto às nossas pretensões no campeonato. E isso só aumenta o quão desastrosa foi a derrota para o Coritiba.
No futebol, há jogadas que mudam os jogos e há jogos que mudam os destinos de um time na competição, tanto para o bem como para o mal. Para o bem aconteceram, e todos lembram, nossas vitórias sobre Palmeiras e Atlético Mineiro, ambas fora de casa, na arrancada em 2009. Se não recuperarmos rapidamente o equilíbrio, a eficiência e as vitórias, e não alcançarmos nosso objetivo verdadeiro (levantar o título era fantasia, pois não?), os dois a zero para o Coritiba terão um peso bem maior do que pensávamos.
Bom. Está mais do que na hora de entrar no tema que dá título ao post, e que já se transformou em um dos mais atormentadores pesadelos de toda a existência rubro-negra.
Mistura de filósofo de rua e técnico de futebol de praia, Neném Prancha virou mito no futebol carioca tanto pelo que dizia quanto pelas frases que João Saldanha e Sandro Moreyra colocavam-lhe na boca. Mas não importa: cultivemos o mito. Apesar da dificuldade de fazer a bola rolar nas areias fofas da orla do Rio de Janeiro, Neném Prancha abominava o jogo pelo alto, os bicos para cima e os chutões a esmo. Quando, nos treinos, um dos seus pupilos optava por jogada semelhante, Neném Prancha parava tudo, pegava a bola, dirigia-se até o botinudo e dizia o seguinte: “Tá vendo isso aqui, meu filho? O nome disso é bola. A bola é feita de couro. Couro é feito da vaca. Vaca não voa, anda com as quatro patas no chão. Portanto, a bola não é feita para voar, mas para correr rente ao campo.”
Nosso futebol sempre foi pródigo em técnica e durante muito tempo todos os times contavam com caras inteligentes e habilidosos no meio-campo. Isso acontecia até nos clubes pequenos. O Campo Grande da minha infância tinha Alves, o Bangu tinha Cabralzinho, no Olaria brilhavam Afonsinho e Roberto Pinto. Não cheguei a ver, mas os maiores meias da história do futebol brasileiro, Didi e Gérson, começaram no Madureira e Canto do Rio. Esse era o nosso jeito, ao qual infelizmente renunciamos a partir da derrota da encantadora seleção de 82. Os três gols de Paolo Rossi no Estádio Sarriá mudaram o nosso caráter para muito pior e fizeram entrar em campo o futebol de resultados, os meio-campistas que correm muito e jogam pouco, os cruzamentos altos para a área. O horror.
Mesmo com Neném Prancha se revirando no túmulo que passou a habitar desde 17 de janeiro de 1976, desistimos de fazer a bola rolar e britanizamos nosso estilo. Tanto que desenvolvemos um novo tipo de jogador: da mesma forma que até os anos oitenta nossos times não abriam mão de gente muito boa no meio-campo, hoje não há clube brasileiro que não tenha um especialista em cruzamentos com a bola parada. Mudamos o foco, e andamos para trás.
Entretanto, o maior absurdo dessa história está em não buscarmos soluções para neutralizar a pouco inspirada jogadinha, e não se trata de exclusividade rubro-negra. O problema é geral e creio que não o resolveremos se não mudarmos radicalmente a maneira com que nossos goleiros se comportam.
Não sei se depois da derrota de ontem alguém teve ânimo para assistir a qualquer coisa de futebol, mas pego como exemplo o gol contra do zagueiro Rafael Lima, da Chapecoense, no jogo com o Cruzeiro. Vendo pela câmera de trás, percebe-se como é estranho o posicionamento do goleiro Danilo, típico de quem está perdido e quer tirar o seu da reta. O cruzeirense Willian bate a falta e, nas frações de segundo em que a bola viaja, Danilo recua e chega a ultrapassar a linha de seu próprio gol, numa decisão suicida: qualquer toque, ali, torna a defesa impossível. Pra que, então, ficar dentro do gol?
Ninguém, em sã consciência, pode atribuir qualquer responsabilidade a Paulo Victor pelos gols de cabeça que levamos ontem, mas não será o caso de nossos goleiros adotarem uma postura diferente, trocando a infrutífera passividade pelo ato de atacar a bola? Se tivéssemos um outro olhar para esse tipo de lance, a bola cruzada no segundo gol do Atlético não seria do PV?
Outro clichê do futebol de antigamente dizia haver uma notável diferença entre os goleiros argentinos e os brasileiros. Sempre que uma bola era levantada na área, o goleiro argentino gritava confiante para o zagueiro: “sai que é minha”; já o goleiro brasileiro gritava desesperado: “vai que é sua”. Nossos goleiros melhoraram muito, mas permanecem pregados na linha do gol e gritando “vai que é sua”.
O conceito de confiança, que permeou boa parte das discussões sobre a performance do nosso time nas seis primeiras rodadas do segundo turno, também se insere na atuação dos nossos goleiros – todos eles – nas bolas paradas levantadas para a área. Foi inacreditável, em mais um exemplo desse fim de semana, a indecisão do goleiro gremista Tiago no gol de cabeça do palmeirense Vitor Hugo.
Os goleiros do atual futebol profissional são todos muito altos, e à sua altura deve ser somado o metro a mais que adquirem por poder interceptar a bola com as mãos. Com treinamentos adequados e repetidos à exaustão, ajuste no posicionamento dos zagueiros – que não devem atrapalhá-lo, como Felipe Melo fez com Júlio César na Copa de 2010 – e confiança para definir a jogada, nossos goleiros podem diminuir os riscos desse tipo de lance. Embora seja muito mais cômodo manter a cara de pastel enquanto as bolas estufam suas redes jogo após jogo, além de repetir os eternos gestos de reclamações contra os zagueiros.
Não sei se a minha tese é válida e se a minha sugestão é a melhor, só sei que estou de saco cheio. Não aguento mais tomar gol desse jeitinho ridículo. Eu e, tenho certeza, todos vocês que tiveram a paciência de ler esse texto até aqui.
Já deu.
Fonte: República Paz & Amor
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Concordo plenamente! PV é muito bom embaixo das traves, mas tem que sair mais e melhor do gol.
Texto muitooooooooo longo.
Ontem, durante o jogo, comentei: "olha a diferença do posicionamento defensivo do Atlético nas bolas paradas. Vai todo mundo pra frente, pra deixar o ataque impedido ou obrigar a finalizar de longe. Agora compara com o Flamengo e dá pra entender muita coisa". O Flamengo na bola parada chama o ataque adversário pra dentro do gol, além das falhas na marcação individual, permitindo cabecearem sozinhos.
Exatamente, tb observei esse detalhe da defesa do Atlético na bola parada.
foi isso mesmo fera, excelente comentario.
O engraçado é que me lembro que em 1 jogo dessa sequência de vitórias que tivemos o Fla fez isso que vc disse Camila e por isso não levou gols assim. A verdade é que não temos bons jogadores de defesa e goleiros. Em minha opinião o Fla finalmente tem volume de jogo no ataque. Coisa que demorou muito p acontecer. O problema agora é que nenhum de nossos zagueiros(reservas ou titulares incluindo Samir) são bons. O menos ruim na minha opinião é o Cesar Martins, pq tem boa técnica. Precisamos de novos zagueiros, um lateral direito comprovadamente bom( que saiba defender, atacar e cruzar bem) e um substituto para o Canteros(esse foi um erro de contratação se comparado a um Elias)Precisamos e um volante que quando vá ao ataque, o faça realmente com eficiência, como era o Elias. Para os que endeusam o PV e o Samir está aí o resultado deles serem titulares. Não temos nem zagueiros nem goleiro a altura do Fla. SRN
Atlético é um bom time mas não é como antes. Ontem perdemos por falhas individuais e na defesa coletiva.. O atlético nao jogou como as goleadas anteriores onde o flamengo apenas defendia o jogo todo. Nosso time ta muito melhor, mas ainda falta um grande zagueiro bom mesmo em cabeça e que comande a defesa.. Coisa que nao temos.. Nosso time ainda nao é completo.. Mas ser conseguimos a libertadores coisa que nao é impossível . Teremos mais chances de montar um bom tine
Texto grande. mais valeu a pena ler concordo com vc meu amigo e com os outros que comentarao sobre a diferença do posicionamento da dfesa
Perder por mérito do adversário é ruim, mas é menos ruim do que perder por erros próprios. SRN
Isso é fácil de resolver(claro, se tivermos bons jogadores de defesa e goleiro): O técnico tem que mandar a defesa ficar adiantada sempre e ordenar o goleiro a se responsabilizar pela rebatida. Ou vai dar impedimento, ou o goleiro sempre levará vantagem, não só pq terá mais espaço vazio p chegar na bola como também por usar os braços tornando-o mais alto do que o atacante. Simples
Concordo 100% com o texto. O problema das bolas aéreas começou com o César, que não sai em bola nenhuma.
Quando o PV voltou, melhorou e ganhamos 6 jogos seguidos.
Mas no jogo de ontem nosso goleiro ficou na indecisão citada no texto, e deu no que deu...
E o Flamengo não pode ficar perdendo para um timinho tão medíocre quanto o Atlético.
Sinto uma saudade do Angelim e do Fábio Luciano. Eram monstros, tanto na saída de bola, como na bola aérea. E o Angelim, assim como o Jemerson do galo não são altos, mas se posicionam bem e tem um tempo de bola excelente, coisa que nossos zagueiros precisam aprender, TEMPO DE BOLA! SRN
P ter noçao do qnto a nossa zaga e o ataque qndo ajuda a zaga na bola aerea, sao de fato, RUINS. Quantos gols de bola aerea fizemos? Me lembro só de 2