Faltam só três

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Com menos de três minutos, duas ótimas chances de gol. Com catorze, dois a zero. A mais clara de todas as oportunidades desperdiçada aos vinte e três. Primeiro chute do Fluminense contra o gol do Flamengo – de meia distância e passando muito acima do travessão – aos quarenta e cinco.

Só faltou a serra elétrica: o nome disso é massacre.

O Flamengo começou o jogo de modo parecido com o que fizera contra o Santos, só que um detalhe foi fundamental para diferenciar uma partida da outra: o momento em que as coisas aconteceram. No empate com o Santos, o ritmo frenético só viria a ser premiado aos trinta e nove minutos, com o golaço de Alan Patrick de fora da área. Isso forçou o time a correr uma barbaridade, e a desatenção geral no gol de Ricardo Oliveira nos desequilibrou. Ontem, ao conseguir a vantagem cedo o Flamengo pôde tirar o pé e, quando o Fluminense diminuiu, havia fôlego e consistência para manter o controle.

Quantas vezes estamos no estádio roendo as unhas e um torcedor no degrau acima – desculpem, tenho saudade dos degraus e ainda não consegui me desapegar deles – indaga com a pureza das perguntas das crianças: por que não continuamos com o mesmo ritmo dos primeiros vinte minutos? Por que recuamos?

A resposta ao torcedor desconhecido não é difícil: porque não dá. Por mais que a preparação física tenha evoluído, não há quem consiga correr os noventa minutos do jeito que o Flamengo correu no primeiro tempo contra o Santos. E, na maioria dos jogos entre times equivalentes, ninguém recua porque quer, mas porque o adversário obriga.

Por essa razão, no post publicado após a vitória sobre o Sport, chiei do excesso de chances atiradas ao lixo. Aquela foi uma partida diferente, em que passamos a ter um a mais em campo logo no começo e não enfrentamos perrengues, mas no futebol o tempo vira. Há que se aproveitar a maré boa para garantir o resultado.

Nos longínquos tempos da Grande Resenha Facit, da qual participavam João Saldanha, Armando Nogueira, Nelson Rodrigues, José Maria Scassa, e que era uma aula de inteligência e bom humor nas noites de domingo, um tio que chamávamos pelo apelido de Fagi e torcia para o Fluminense reclamava de Nelson Rodrigues por suas explicações que responsabilizavam o azar e davam vida ao personagem Sobrenatural de Almeida. Tio Fagi admirava as brilhantes tiradas de Nelson, mas dizia que aquilo escondia as fragilidades do elenco tricolor. Ele achava mais produtiva, apesar de nada literária, a impaciência do rubro-negro Scassa, que espinafrava o time do Flamengo sem dó e escancarava suas fraquezas.

Isso sempre funcionou, pra mim, como uma espécie de ode à cornetagem, uma senha pra gente ter consciência de que é importante lembrar os erros para corrigi-los. “Aqui no Brasil nós temos um grave problema: quando se ganha, tudo foi maravilhoso; quando se perde, nada prestou.” A frase virou clichê, mas a primeira pessoa que vi dizê-la foi Bernardinho, e com a vantagem de ter sido em resposta a um elogio desmedido de um repórter após uma convincente vitória da seleção brasileira de vôlei.

Ontem fizemos um jogo muito bom, mas não é rabujice ou antiflamenguismo apontar o que temos de melhorar. E também não é por se tratar de uma vitória sobre o Fluminense que vamos falar só de flores.

Seguindo o indigente nível das arbitragens no futebol brasileiro, o primeiro gol foi irregular, mas, ora um, ora outro, todos os clubes têm seus motivos para reclamar – com exceção do Corinthians, claro. Mais: o Flamengo precisa de disposição, entrega e marcação forte. No entanto, não dá para confundir isso com precipitação ou açodamento. O pênalti de Samir foi desnecessário. Ele fazia o que um bom zagueiro deve fazer: subia colado ao corpo do atacante Michael, tirando-lhe o posicionamento para uma cabeçada certeira, e não havia por que dar uma gravata no adversário. Alguns dos nossos cartões amarelos foram frutos de afobação. O pênalti poderia ter complicado nossa vitória e os cartões farão Oswaldo de Oliveira quebrar a cabeça quanto à escalação para encarar o Cruzeiro, ainda mais se Pará e Emerson forem suspensos no julgamento de terça-feira.

Por outro lado, é justo reconhecer que deslizes fazem parte de qualquer atuação e que ontem todo mundo jogou bem. Destaques para Pará, Samir (mesmo dando mole no pênalti), Canteros, Everton, Márcio Araújo – quem diria – e, confesso que para minha surpresa, Kayke. Nada contra alguém que eu nunca vira jogar, mas na estreia contra o Sport ele me pareceu um centroavante de pouca mobilidade, característica que detesto. Porém, Kayke foi muito bem contra o Avaí e melhor ainda ontem. A tranquilidade mostrada no terceiro gol em Natal se repetiu na hora de pôr a bola na cabeça de Paulinho e, apesar de ter perdido a chance mais fácil do jogo, sua opção no lance foi a de quem conhece a matéria: escolheu um canto e tocou com meia-força, deixando Diego Cavalieri sem possibilidade de defesa. A bola só não entrou por conta do invisível bico da chuteira do Sobrenatural de Almeida.

Momento MasterChef: como nos ensinam todos os anos, embora a gente insista em não aprender, o Campeonato Brasileiro não é algo que se coma cru. Não é recomendável que se deixe passar do ponto, como fizemos nessa temporada, mas é prato que se cozinha em fogo brando, rodada após rodada e aumentando a chama no momento certo.

Contrariando o que se podia esperar das nossas quatro partidas iniciais – um empate e três derrotas, um ponto ganho em doze disputados –, as vitórias que conquistamos nos quatro primeiros jogos do segundo turno alimentam o nosso otimismo e nos enchem de esperança.

Tínhamos um bando, hoje temos um time. Tínhamos vergonha, hoje temos confiança.

Jorge Murtinho

Fonte: República Paz & Amor

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