Protejam as criancinhas

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Amanhã as crianças estarão nas ruas, nas praças, nas mesas das casas, como sempre estiveram, em qualquer tempo. Não há novo tempo sem futuro, sem piás, guris, erês, moleques, crianças. Não importa a raça, o credo, a cor, a classe, serão eles o nosso porvir, o nosso projeto, o nosso inverno. Doces para adoçar o amargo de bocas querentes, doces para sujar as camisas rasgadas, doces para alimentar o sonho de dias melhores. Libertem as crianças para viverem felizes. Ou as transformem nos monstros dos nossos pesadelos futuros.

Amanhã, enquanto as crianças correrem buscando doces, as nossas guloseimas estarão nos esperando no Maracanã. Elas estarão vestindo o uniforme do adversário, um freguês antigo, alegria de muitos jogos e títulos. Em 1969, contra o mesmo adversário, no mesmo estádio, muito diferente, embora com mesmo nome e local, o maior de todos os jogadores da história do futebol marcou o seu milésimo gol à esquerda das cabines de rádio. Correu para o fundo das redes, agarrou a bola sempre enamorada pelos seus encantos, beijou-a apaixonadamente e pediu às lágrimas nas dezenas de microfones disputando uma declaração como um doce: “Vamos proteger as criancinhas”. Já se vão 46 anos e, embora considerada demagógica a frase do Rei Pelé, muitas daquelas criancinhas de 1969 já pereceram por falta de cuidados, de saúde, de harmonia, de amor. Outras tantas ainda sofrem pelo mundo, em guerras, arrastões em praias, mortas por balas perdidas ou não.

Amanhã, as que já partiram estarão correndo pelos gramados de todos os estádios, invisíveis e felizes. Lamentarão pelo que não tiveram, elas e outras tantas, aqui e no mundo. Trocarão os momentos de dor, fome e angústia, pela alegria de correrem atrás da bola em mais um domingo de futebol. Serão cosmes, damiões, douns, marias e josés; serão piás, guris, moleques; serão erês, seres especiais, transcendentais, à procura do milagre da transformação de crianças em homens e mulheres íntegros, sobreviventes, empreendedores, realizados.

E como seremos sempre maioria absoluta, em qualquer plano, trarão para nós a vitória desejada numa simpes partida de futebol. Se não conseguimos vencer quem nos rouba as nossas crianças, que pelo menos ganhemos de nosso freguês eterno. E possamos sentir outra vez o doce sabor de uma grande vitória.

MAGIA NELES!

Alexandre Fernandes

Fonte: Magia Rubro Negra

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