Saber torcer

Compartilhe

“Manifestar predileção pela vitória de (uma equipe desportiva, uma agremiação etc.). Desejar a vitória de um grupo desportivo, gesticulando, gritando etc.” Os dicionários definem assim o significado de torcer. Já torcedor é “aquele que torce (‘ansia por [algo]’) em competições esportivas”.

Mas como se torce? Quem é o “verdadeiro” torcedor? Como age o autêntico torcedor do estádio? A discussão voltou nesta semana por dois motivos: a frieza de rubro-negros em Brasília, onde o Flamengo perdeu para o Coritiba ante 67 mil pessoas, e o desabafo do técnico colombiano do São Paulo.

O brasileiro, em maioria, torce por vitórias. Tirando as torcidas organizadas e alguns outros, quem vai ao estádio contempla o cotejo. Uma minoria canta, pula, salta, se esgoela pelo seu time, tenta de alguma forma participar do jogo, mudar os rumos da peleja literalmente no grito. É cultural e não existe exceção.

Tire as organizadas do estádio e quem puxará o cântico? E quando ele aumenta, cresce, se espalha, por quanto tempo os demais acompanham as torcidas e os apaixonados dispostos a deixar as cordas vocais na cancha? Não são tantos. O brasileiro no estádio costuma ser um espectador na maior parte do tempo.

Enquanto o Flamengo penava diante do Coritiba, parte dos quase 70 mil pagantes presentes vaiava. César, o zagueiro, foi escolhido para Judas da noite brasiliense. Mas e se fosse no Rio de Janeiro, seria diferente? Que nada. Basta lembrar a derrota para o Atlético, com falha de outro César, o goleiro, e gol contra de Samir.

Naquele sábado parte da platéia do Maracanã elegeu o vilão da tarde: Pará. Embora o esforçado lateral não tenha cometido nenhuma falha grave, tampouco foi responsável pelos gols do Galo. Mas as vaias o perseguiram a ponto de ser substituído por falta de condições para seguir no gramado com tantos contra ele.

A diferença do público rubro-negro do Rio de Janeiro para o de outros Estados está nas torcidas organizadas e mais alguns poucos abnegados. Sem elas, vira uma grande platéia teatral. E não é diferente nas casas dos demais grandes clubes brasileiros. Rigorosamente todos têm torcidas formadas assim.

Não por acaso torcedores do PSV Eindhoven já protestaram contra a disponibilização de internet sem fio no estádio do clube holandês. É que parte da torcida esquece o jogo e se dedica às selfies e postagens em redes sociais. Para os mais atuantes, o comportamento distante da partida é uma ofensa. Pedem a todos que torçam mesmo.

No Brasil, a Mancha (Alvi) Verde adotou o lema “Somos Torcida”. Isso mesmo, torcida que torce, incentiva, dá apoio ao time. E para notar a falta que esse incentivo faz, prometeu silêncio contra o Grêmio, protesto contra a decisão do Palmeiras de colocar as organizadas no tobogã do Pacaembu. Mas voltou atrás e vai gritar pelo time.

No começo do Brasileiro a Mancha silenciou no cotejo diante do Atlético, no Allianz Parque, protesto contra os elevados preços dos ingressos. Irritados, palmeirenses que estavam em outros setores do estádio a xingaram. A pergunta é: por que não usaram todo aquele gogó para gritar pelo Palmeiras? É, sem as organizadas fica mesmo difícil.

O companheiro Leandro Iamin, da Central 3 — clique aqui e conheça — inspirado no lema adotado pela Mancha encaixou um celular “proibido” na imagem (ao lado) que lembra a manifestação dos holandeses em Eindhoven contra tantos smartphones.

O técnico Juan Carlos Osorio já se espantara com o pequeno público do jogo de seu São Paulo contra o Santos na Vila Belmiro. Tão poucos. E num clássico! Depois do empate sem gols com a Chapecoense comparou a ação de torcedores europeus com sul-americanos, que não seriam na sua visão, tão dispostos a incentivar.

Concordo em parte. Especialmente quando o colombiano fala do “verdadeiro torcedor”, que torce mesmo. Mas não vejo os sul-americanos como iguais no comportamento. Argentinos, uruguaios e chilenos apóiam, cantam, vibram, se entregam mais. E não são só as barras, como se chamam as organizadas nesses países.

Enquanto torcedores do Flamengo não sabiam como ajudar o time em Brasília, e então alguns atrapalhavam com inadequadas e pouco inteligente vaias, Racing e San Lorenzo se enfrentavam em La Plata pela Copa Argentina. Duas hinchadas valentes e que vão à cancha “jogar”, com cânticos e muito coração.

Transmitimos o jogo pela ESPN Brasil. E quando o Ciclón vencia por 1 a 0, os hinchas de La Academia empurravam o time blanquiceleste para a reação. Que veio. Na luta do time, nas substituições do treinador e no erro (a meu ver) do árbitro ao marcar um pênalti no finalzinho. Mas quando o Racing perdia, ninguém vaiou.

Foi um grande duelo de duas hinchadas com muita garra e história. A torcida do San Lorenzo é capaz de coisas inimagináveis nessas bandas de cá — clique aqui e confira. E a do Racing… Bem, é aquela que impediu o fechamento do clube, que nunca abandonou, mesmo com apenas dois títulos argentinos em 48 anos!

Quando me perguntam de onde vem a preferência pelo clube de história mais emocionante e cruel da Argentina, a resposta é: o Racing cativa por sua gente. É o modo portenho de torcer elevado a outra potência. O lema é deixar o coração na cancha. Na minha concepção isso é futebol. Pena que muitos jamais entenderão.

Cada um se comporta nos estádios como quer. E cada um pensa o que bem entender sobre tal comportamento. Nos vídeos abaixo, um trecho da partida que terminou 2 a 1 para o Racing. Você observará no placar, o San Lorenzo ainda vencia por 1 a 0. Ao fundo “Muchachos, Traigan Vino Juega La Acade” — clique aqui e conheça a música. Demais!

E vem a resposta dos hinchas do Ciclón. Um duelo de torcidas que não se contentam com o que seus jogadores fazem em campo. Elas têm uma tarefa, uma missão. E vão aos jogos dispostas a cumprí-la. Alma do futebol, aula de arquibancada. Mas só para quem quiser aprender. Desculpem, mas isso sim é saber torcer.

Fonte: Mauro Cezar Pereira

Notícias recentes

  • Manchetes

Veja o motivo de Leonardo Jardim convocar jogadores da base para intertemporada em Portugal

Qual é o planejamento de Leonardo Jardim com os jogadores das categorias de base do…

29/06/2026
  • Manchetes

Rossi surpreende com atitude antes de viagem para jogos do Flamengo em Portugal

O que Rossi fez na chegada do Aeroporto do Galeão neste domingo (28)?   Agustín…

28/06/2026
  • Manchetes

Arrascaeta manda recado a profissional após eliminação do Uruguai na Copa do Mundo

O que disse Arrascaeta a Laniyan Neves, fisioterapeuta do Flamengo e da Seleção Uruguaia?  …

28/06/2026
  • Destaque

Copa do Mundo: Ancelotti mantém 2 jogadores do Flamengo no time titular para jogo do Brasil x Japão; veja provável escalação

Quais jogadores do Flamengo podem ser titulares em jogo do Brasil x Japão? A Seleção…

28/06/2026
  • Manchetes

Samuel Lino admite ‘cabeça limpa’ após férias e define expectativa para jogos do Flamengo em Portugal

O que disse Samuel Lino, atacante do Flamengo, sobre a intertemporada em Portugal?   A…

28/06/2026
  • Destaque

“Se perder, não vou ficar triste”: Zico abre o coração sobre jogo do Brasil x Japão, pela Copa do Mundo

Zico conversou com o Coluna do Fla nesse sábado (27) Maior ídolo da história do…

28/06/2026