
A ideia era outra. Depois do primeiro post com a foto de Zagallo, publicado após a vitória sobre o Sport, pensei em utilizar o vitorioso treinador mais algumas vezes, numa sequência progressiva que acompanhasse a trajetória de nosso time até as primeiras colocações.
Não imaginava que seria tão rápido.
Eu tinha pensado em usar, na comemoração pela chegada ao grupo da frente, uma imagem de Ibrahim Sued. Explico aos mais novos, e peço paciência aos da minha idade.
Ibrahim Sued foi um colunista social de carreira curiosa e muito bem-sucedida. Falava mal, escrevia pior ainda, mas era rico em fontes e, bem copidescada, sua coluna bombou por mais de quarenta anos no jornal O Globo. Ibrahim costumava pontuar suas informações com expressões como “de leve”, “sorry, periferia”, “os cães ladram e a caravana passa”, “olho vivo, que cavalo não desce escada”. Virou um fenômeno, teve programa na TV Globo, mesma emissora onde era satirizado por um personagem de Agildo Ribeiro, e inspirou um dos episódios do filme O Ibraim do Subúrbio, dirigido por Cecil Thiré e estrelado pelo grande José Lewgoy.
Uma das expressões de Ibrahim Sued – “Gigi, eu chego lá” – seria o mote do post comemorativo da entrada do Flamengo na tropa de elite da competição, provavelmente com a foto do colunista, mas não houve jeito: uma minicampanha orquestrada por ilustres participantes das caixas de comentários do RP&A me convenceu de que não seria prudente abrir mão da foto com Zagallo. Não é bom mexer com certas coisas.
O argumento definitivo veio da argúcia de um dos mais assíduos dos nossos comentaristas, o Chacal: Jorge Murtinho tem treze letras. Sorry, periferia.
Da mesma forma que Ibrahim Sued prometia à Gigi, o Flamengo chegou lá. Mas, lá, aonde? Já escrevi algumas vezes aqui que não vejo o G4 como objetivo, e algo me diz que essa idolatria pelo quarto lugar tem o dedo dos nossos treinadores espertalhões. Se somos um país que ridiculariza o segundo lugar – pra nós o símbolo máximo de nadar, nadar e morrer na praia –, o que dirá do quarto? Só que essa cultura colocava nossos técnicos num mato sem cachorro: ou conquistavam o título, ou eram desprezados. A ode ao G4 deu aos treinadores três colocações a mais para a defesa de seus trabalhos e a garantia de seis meses ou um aninho com salário de quinhentos ou seiscentos contos. Nada mau. Claro que, mais até do que a esperteza dos nossos técnicos, contribuiu para a supervalorização do G4 o interesse da mídia em manter a esperança e a empolgação dos torcedores. Portanto, não costumo embarcar nessa, mas em 2015 comprei minha passagem. Por dois motivos.
Primeiro. Na manhã de 13 de maio, no evento em que o Flamengo apresentou a marca Jeep como seu novo patrocinador, Zico cutucou Eduardo Bandeira de Mello: “Presidente, tá na hora de usar essa caneta aí pra trazer umas feras, pra gente ficar mais tranquilo no Brasileirão.” Vejam bem: Zico não se referiu a disputar título ou brigar por vaga na Libertadores; ele falou em “ficar mais tranquilo no Brasileirão”. O que, diante do que passamos nos últimos três anos, significava simplesmente encerrar o ano com dignidade, ali pelo oitavo ou nono lugar. E que ninguém – nunca, jamais, em tempo algum – acuse o Galo de falta de ambição. Pra mim ficou claro que Zico entendia 2015 como um ano decisivo no processo de ajuste nas contas do clube, imprescindível para que a partir de 2016 o foguete rubro-negro comece a subir. Ou seja: se ficar no G4 não pode ser meta, dentro do planejamento rubro-negro é para ser comemorado sim senhor. E há quem sonhe ainda mais alto, o que não vem a ser uma impossibilidade absoluta devido à personalidade ciclotímica do nosso campeonato.
Segundo. Com o quadro que já temos hoje, a ida à Libertadores significa um time mais forte no ano que vem. Ao contrário do que houve em 2011/2012 e 2013/2014 – quando entramos na Libertadores, por incrível que pareça, com times enfraquecidos em relação aos que conquistaram a vaga –, tudo leva a crer que, agora, essa participação será sinônimo de significativo crescimento em nosso programa de sócios-torcedores e melhores condições para a renovação de patrocínios. Combinação que, gerida com seriedade e competência, pode resultar num time reforçado e ainda mais competitivo.
Uma coisa não se discute: o Flamengo não nasceu para brigar por quarto lugar em campeonato algum. Só que, pelo tempo que perdemos até o final de maio, não há nada de errado em enxergar a vaga na Libertadores como objeto de desejo. Ela pode representar um importante passo para que o nosso futuro chegue mais depressa.
O time se acertou e está muito bem. O conjunto vem funcionando de forma tão surpreendente que é difícil destacar dois ou três. Pará errou apenas um lance na partida inteira, um cruzamento malfeito com mais de quarenta minutos do segundo tempo. César Martins perdeu o tempo de uma – somente uma – bola aérea, mas dominou a área e ainda achou jeito de participar das jogadas dos dois primeiros gols. Samir foi perfeito. Temos de tomar cuidado para não deixar Jorge amarrar máscara na cara, mas ele é o único lateral do futebol brasileiro que não rifa a bola. Everton correndo uma barbaridade e presente em todo lugar do campo.
O chute de Luiz Antonio contra o Cruzeiro foi um dos mais bonitos que o Maracanã já viu, o gol de Paulinho ontem foi inacreditável, mas não podemos deixar de aplaudir a jogada do gol de Kayke – algo que, no início do ano, não conseguíamos nem por creio-em-deus-padre. A bola roubada por Everton em nossa intermediária, a saída rápida para Ederson, daí o toque simples para Luiz Antonio, a esticada rasteira novamente para Ederson, a rolada precisa para Kayke. É impressionante como o futebol, quando praticado coletivamente, fica mais fácil e produtivo. Ouvi críticas a Marcelo Cirino, mas não acho que tenha ido mal. Longe de ser um virtuose, tem velocidade, joga sem um pingo de egoísmo e pode ser um cara importante na sequência do campeonato.
Sem querer esfriar o ânimo de ninguém – pelo contrário, a ideia é subir o sarrafo e aumentar o nível de exigência –, vale lembrar que o quarto lugar não significa garantia de vaga na Libertadores. Posso estar enganado, mas caso algum clube brasileiro ganhe a esquálida Copa Sul-Americana, só os três primeiros do Brasileirão vão à Liberta. Assim, e como não é recomendável que se dê mais de um passo de cada vez, declare-se aberta a temporada de caça ao Grêmio.
Depois a gente vê o que faz com Atlético Mineiro e Corinthians.
Jorge Murtinho
Fonte: República Paz & Amor
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Excelente texto Murtinho!! Vamos atropelar um de cada vez. Te cuida Grêmio!!
Isso ae! A escalada ainda é ingrime, mas temos que ir de parada em parada, sem afobação e com pés no chão. Título? Yes, we can!!!!