
Qualidade técnica é fundamental. É a mais importante, mas não a única variável de um jogo de futebol. Organização tática, conjunto, tempo de trabalho e planejamento correto de cada jogo também influem. Cada um deles fez sua parte no Corinthians x Flamengo de domingo. E quando um time é superior ao outro em todos, fica fácil entender por que venceu, mesmo sem protagonizar um domínio avassalador.
O Corinthians tem melhores jogadores do que o Flamengo. E tem mais tempo junto. Tempo, aliás, bem usado. Afinal, está à serviço do notável trabalho de Tite. Natural que seja taticamente mais pronto, coletivamente muito mais forte.
Em situações como essa, entende-se por que o campo pode mostrar um jogo aparentemente equilibrado, mas a sensação nítida é de que o tal equilíbrio não se sustenta por longo tempo. Jogadores mais próximos, entendimento, trocas de passes rápidas e movimentos sincronizados: quando tinha a bola, o Corinthians fazia menos força para jogar, era mais incisivo. Mesmo que, na sua Arena, não encurralasse o Flamengo como pretendia. Parecia um jogo igual. Não era.
Acontece que, mesmo em jogos com esta característica, diante de um adversário mais bem acabado, é possível oferecer resistência. E até vencer. No Campeonato Brasileiro, melhores e piores são separados por diferenças superáveis. Só não é possível errar. Falhas individuais e de planejamento do jogo cobram um preço alto.
Adiantar as linhas e colocar quatro homens marcando a saída de bola do Corinthians, quase como um espelho do desenho tático rival, surtiu efeito no primeiro tempo. O Flamengo não era pressionado, o time de Tite não progredia a ponto de ocupar o campo de ataque, o jogo ficava morno.
Mas um pecado capital cobrou um preço: a marcação individual. Jorge acompanhava Jádson. Tite percebeu. Fez o meia abandonar a lateral do campo e fazer incursões pelo centro. E lá foi Jorge atrás. Uma, duas vezes. Na terceira, com o lateral já batido e fora de posição, o buraco foi ocupado por Vágner Love. Saiu o gol.
Quando faz água, a marcação individual é como um efeito dominó. Basta um jogador se desvencilhar para os defensores se verem em inferioridade e, no desespero, um a um, abandonarem o “seu par”. Contra um time de mobilidade e toques rápidos como o Corinthians, o risco é ainda maior.
Quando ataca, o Flamengo de três treinadores no ano e time reformulado com o campeonato em andamento ainda é espaçado. Vive um eterno recomeço. A cada técnico, um estilo, uma filosofia. Mas não seria absurdo, também, esperar que já tivesse progredido um pouco mais. Guerrero não rende o esperado, é verdade. Mas chega a causar dó a quantidade de vezes que recebe a bola isolado, cercado de defensores.
Se é comum cobrar de Oswaldo, é justo também reconhecer que o elenco não esbanja riqueza. Fica nítido ao perder titulares ou ao buscar opções para tentar mudar o desenho em campo. A cabeça da área é exemplo claro. Jonas talvez seja o único especialista no papel de primeiro volante. Mas sua frequência de faltas e cartões revela imaturidade.
O preço foi pago num segundo tempo em que o Corinthians já marcava com linhas recuadas e o Flamengo tinha certo controle. Foi por água abaixo com a expulsão do volante.
Daí até o fim do clássico, cumpriu-se mera formalidade. O Flamengo se conformou e o virtual campeão brasileiro não arriscou.
Este Corinthians, aliás, é seguro, moderno, eficiente e, na versão atual de Tite, faz jogos bonitos de ver. Mas há momentos em que recorre a um pragmatismo que beira, por mais paradoxal que pareça, o risco. Se assustou em contra-ataques, o time paulista permitiu a um rival pior tecnicamente e em inferioridade numérica passar períodos consideráveis do jogo com a bola no campo de ataque. O Corinthains permitiu que a ação do jogo acontecesse perto de sua área. Sem necessidade. Quase não houve finalizações perigosas, mas de tanto a bola rondar, o imponderável pode castigar. Um erro individual, um escanteio, um toque de mão… Guardiola costuma dizer: fica mais tranquilo quanto mais longe do próprio gol está a bola.
Este Flamengo precisa se organizar coletivamente e reagir. Não é nenhuma genialidade a constatação de que não tem um time à altura do Corinthians. Talvez fossem irreais as seis vitórias seguidas de agosto e setembro. Mas as seis derrotas em sete jogos também são. Num campeonato de distâncias tão curtas, é possível competir. Era possível fazer mais. Pode ser tarde demais. Mas um bom passo seria recuperar a ambição. E, novamente, mobilizar o clube em torno do futebol. Que tal deixar a eleição para dezembro?
Fonte: Carlos Eduardo Mansur
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