Comprometimento: obsessão nacional

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Comprometimento. A palavra virou obsessão no futebol brasileiro. Talvez seja compreensível. Num país que detesta a análise mais profunda, avalia desempenho de equipes e treinadores pela estatística, despreza os contextos técnicos e táticos, minimiza os efeitos do tempo na formação de um time, o tal comprometimento funciona à perfeição.

Serve de bengala para explicar sucesso e justificar fracassos. É sob medida para dirigentes apontarem o dedo para elencos em crise de resultados e transferirem responsabilidade. Dispensa provas, posto que tem sua carga de subjetividade. E tem outra serventia: toca no sentimento do torcedor. A massa compra o discurso com incomparável facilidade. A adesão é imediata.

Comprometimento, ou compromisso, é parte das virtudes que se deve esperar de um bom time. Mas é apenas parte. Assim como qualidade técnica, organização tática, plano de jogo, boas ideias… Só que todas as outras exigem critérios e certa disposição de dedicar tempo à análise. O compromisso, não.

Ele causa comoção. Domingo, o Maracanã viveu um ambiente insano no Flamengo x Goiás. Porque a crise técnica rubro-negra fora reduzida à discussão mais popular do país: o tal comprometimento.

É justo, natural e compreensível que clubes exijam de seus jogadores um comportamento compatível com a profissão que exercem. E que torcedores reajam a notícias de que a fronteira da responsabilidade tenha sido cruzada. E que a reação da arquibancada influencie a postura de um time de futebol.

A ótima atuação de Alan Patrick e a goleada do Flamengo sobre o Goiás podem, portanto, ter tido como ingrediente a pressão do Maracanã. Ingrediente, não causa.

Alan Patrick é bom jogador numa posição nem tão fácil de se encontrar no mercado. Para jogar bem, precisa estar concentrado, comprometido. Mas precisa, também, de um time organizado, entrosado, que funcione bem. O Flamengo não tem um time com virtudes técnicas que dispensem o empenho, a disciplina e o físico em dia. Mas precisa de outras qualidades: melhor estrutura defensiva e mais repertório para atacar, só para citar algumas.

O Flamengo não venceu seis jogos seguidos porque era comprometido. Não perdeu sete em oito porque, da noita para o dia, deixou de ser. A rigor, nenhum dos extremos reflete a realidade rubro-negra. O time oscila porque tem virtudes e vários defeitos num elenco sem força para buscar o topo da tabela. Oscila porque teve três técnicos no ano. Oscila porque, no meio da temporada, trocou quase meio time. César Martins, Jorge, Ederson, Alan Patrick, Emerson e Guerrero não estavam no elenco profissional na virada do semestre. Não é um time pronto. Nem poderia ser.

É verdade que o Flamengo venceu o Goiás porque teve, em parte importante do jogo, concentração e disposição. Mas também ganhou porque, no segundo tempo, teve um meio-campo mais sólido com Jonas, teve mais capacidade de recuperar bolas e explorar o jogo de velocidade. E venceu, também, porque do outro lado estava o Goiás, um time nitidamente inferior.

Mas parece mais cômodo apontar o dedo na direção do comprometimento. O futebol precisa dele. Mas não pode viver exclusivamente dele. No fundo, o torcedor sabe disso. Quem grita que quer “respeito e comprometimento”, no fundo, quer bom futebol também.

Fonte: Carlos Eduardo Mansur

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