Eu acredito que nós perdemos para o Coritiba porque o jogo foi em Brasília. Para o Atlético Mineiro, porque Alan Patrick atrasou o pênalti nas mãos do goleiro Victor. Para o Vasco, porque não temos feito outra coisa a não ser perder para o Vasco. Para o Figueirense, porque Canteros escorregou. Para o Inter, porque o chute de Guerrero bateu na trave.
Fiquei ridiculamente feliz por termos perdido só de um a zero para o Corinthians. Trabalhei o feriadão inteiro e não vi o jogo com o Grêmio (gravei, mas seria pedir demais). Entretanto, e como tenho portado, desde o início do ano, uma bela bola vermelha na ponta do nariz, creio piamente que a derrota só aconteceu porque fulano tropeçou, ou porque sicrano perdeu um gol feito, ou porque um dos nossos foi expulso injustamente.
Eu e a torcida do Flamengo já nos acostumamos a encontrar desculpas esfarrapadas para esconder o único e cristalino fato de que, mais de doze meses depois de garantir nossa permanência na primeira divisão – em 2014 houve um frenesi devidamente valorizado por Luxemburgo a respeito da possibilidade de queda para a série B –, não temos nada que se assemelhe a um time de futebol. Somos uma vergonha.
Jogamos para a plateia na punição aos cinco festeiros, talvez para criar um factoide que empurre para baixo do tapete a absurda constatação de que somamos o maior número de derrotas do campeonato – dezessete –, na companhia de Goiás, Joinville e Vasco. Três clubes que, caso a competição se encerrasse hoje, estariam rebaixados. Ou a de que, com exceção do Santos, com quem ainda não jogamos no segundo turno e para quem provavelmente perderemos, dependendo do interesse que eles tiverem na partida, fomos derrotados por todos os grandes clubes que participam do Campeonato Brasileiro. Saco de pancadas. Fábrica de vexames.
Enquanto escrevia esse despretensioso texto, me veio à cabeça um dos primeiros filmes de Woody Allen, a comédia O Dorminhoco, em que o personagem principal é congelado e acorda duzentos anos depois, para encontrar uma realidade totalmente diferente daquela em que vivia.
Lembrar de O Dorminhoco foi bom alento, por causa do tal futuro em que seremos lindos, inteligentes, maravilhosos, formidáveis e imbatíveis. (Em recente matéria publicada no site da revista Exame, o presidente Eduardo Bandeira de Mello declarou que, de 2017 a 2021, o Flamengo espera conquistar quatro campeonatos estaduais, cinco títulos nacionais e uma Libertadores.)
Por favor, congelem-me. E me acordem daqui a 425 dias.
Jorge Murtinho
Fonte: República Paz & Amor
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Caro Jorge Murtinho, compartilho desse desejo de ser congelado mas me surge uma dúvida! O passado vai estar em nosso pensamento? O que vivemos hoje é inominável, é inexplicável. Portanto que me congelem, e esse período (2010 - 2016) de contratações de atletas que só podem ser de outro esporte que não o futebol, seja TB congelado. Confesso que temo meu coração esfriar e não mais aceitar o Mengão dentro dele, aí prefiro afogar nessa angústia que vivemos.