Onde vamos assim?

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“Não chora, filha, é só um jogo, é só mais um jogo”.

“Não é nada, mãe, me deixa chorar, não é só mais um jogo, é O JOGO, o jogo mais importante da minha vida, porque é contra o Grêmio e porque eu entrei em campo com o time. O Flamengo não podia perder de jeito nenhum”.

A pequena Ágatha tem 7 anos e é a única torcedora do Flamengo em toda sua escola em Porto Alegre. Mesmo em uma terra hostil a quem não embarca na dualidade dos times locais e pressiona as crianças a fazerem suas escolhas, Ágatha resiste bravamente e é do tipo que discute futebol com os meninos com mais ênfase até do que eles mesmos. É um exemplar raro, de flamenguista que cresce na resistência, quando o mundo ao seu redor conspira para que deixe isso para lá, que vire colorada ou gremista, ou que vá brincar de Barbie e deixe essa maluquice de lado.

Só quem é Flamengo e mora no Sul consegue ter a dimensão exata do que esse jogo representa para nós. São meses de espera e dias de preparação. A nossa, a dos adultos da FLA RS, é mais convencional, fazemos camisas novas, faixa nova, alugamos transporte, marcamos churrasco, cuidamos da segurança.

A da Ágatha foi diferente: ela passou a semana que antecede a partida provocando os guris e as gurias gremistas do colégio, confiante em uma vitória que, afinal, só ela, seus pais e os amigos deles acreditavam. Tirando os cerca de 1 mil flamenguistas que enfrentaram o feriadão, o frio e o desânimo para irem ao estádio, parecia que ninguém mais dava bola para o jogo de ontem.

Eu postei uma foto da FLA RS indo para o estádio. Logo veio uma resposta perguntando se eu já tinha lido o programa da Chapa Azul e o que eu tinha achado dele. Fui olhando as pessoas que curtiam a postagem e parecia uma colagem do horroroso terceiro uniforme do Fluminense, todos os pequenos avatares com um rodapé colorido, seja verde, seja azul.

Mais para o final da partida resolvi postar uma mensagem otimista, o time perdia de 1 x 0, Guerrrero já tinha sido expulso, Canteros atuava como falso atacante, Jajá era o armador, mas eu ainda acreditava e resolvi compartilhar isso. E parei para ler a TL. Fiquei chocado.

O jogo era só um detalhe. Não era o Grêmio o real adversário de ontem, ao menos para a porção mais militante do universo rubro-negro nas redes sociais. O verdadeiro oponente era a facção rival na política rubro-negra. A derrota, inclusive, parecia cair como uma luva para os que queriam atacar a diretoria. Gozavam e ironizavam a derrota até mais do que os gremistas.

Essa gente, convenhamos, está vivendo em um universo paralelo. Se o Flamengo está mal – e ele realmente está – é uma sequência de 4 temporadas terríveis no Campeonato Brasileiro, com a colaboração inequívoca de todos os que agora se lançam como candidatos para o próximo triênio.

Parece que todos perdemos a alma de torcedor. Só a política importa. E eu me incluo nesse pecado coletivo, afinal estou aqui, escrevendo em um espaço dedicado à temática eleitoral, que consome a nossa energia.

Mas quando a coisa assume proporções onde as pessoas vão além das preferências e passam a ignorar que, acima de tudo, há o Flamengo, que seja como for, seguirá grande e poderoso, como sempre foi e sempre será, é o caso de parar e perguntar onde essa destilação de ódio vai nos levar.

Cada um de nós deve se inspirar na Ágatha e seus 7 anos de muita sabedoria. Quando o Flamengo perde, a gente fica triste, a gente fica com raiva, a gente fica até com o senso crítico mais aguçado. Mas não é apontando o dedo para outros flamenguistas que vamos sair dessa lama. Muito menos sendo sarcástico com o time.

Nas últimas 20 temporadas do Campeonato Brasileiro, só ficamos entre os 5 primeiros em 4 edições. Nossos fracassos são uma realidade tão cruel quanto recorrente. Melhor do que tentar encontrar um salvador da pátria ou um bode expiatório é pensar que, unidos, temos mais chances de sair desse atoleiro duradouro.

Hoje pela manhã, a primeira coisa que fiz foi ligar para o pai da Ágatha e perguntar como ela estava. Estava dormindo, porque só conseguiu dormir às 2h30min da madrugada, ainda abalada com o resultado da partida. E foi a tristeza dela que me deu a certeza de que, sim, um dia vamos virar esse jogo. Ainda há quem sofra com as derrotas ou vibre com as vitórias sem que isso seja um palanque.

É a alma rubro-negra da Ágatha que anda em falta. Vamos em busca dela.

MAGIA NELES!

Walter Monteiro

Fonte: Magia Rubro-Negra

Ver comentários

  • Texto brilhante esse do Walter Monteiro que nos faz refletir sobre a trajetória política do clube. Como no passado, homens do mesmo lado entram em guerra sem regras e sem se importar com as consequências, como no passado, o flamengo é quem sofre todo tipo de ultraje com ela. Qual será o futuro do clube? Não sabemos pois se eles não se sentam a mesa e a busca pelo poder e tão intensa que o mengão hoje não é vermelho e preto, é azul, é verde é sei lá que cor, e a cada dia a torcida se distancia, as humilhações estão cada vez mais banais e o futebol, o qual é responsável pelo estado de espírito de 40 milhões de pessoas, desaparece como praga pra felicidade do resto.

  • Pai e mãe forçam filha a sofrer (torcendo para o flamengo)... isto é caso para o conselho tutelar ou virar a casaca e torcer para um clube maior o Corinthians.. que o coração da criança terá finalmente paz..

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