Em nome do bem maior, do altruísmo e da minha crença genuína em uma iminente ruptura com a arcaica estrutura do futebol da terra, hoje abro mão de um dos meus maiores prazeres de humilde escritor de porta de cadeia: tirar onda com a traumatizada torcida monotitulada do Atlético de Vespasiano. Que hoje, somente hoje, será tratado com a fidalguia devida a um companheiro de trincheira que combate o mesmo inimigo. E não como o freguês histórico, que nos diverte com a rivalidade platônica que desenvolveu conosco em seus delírios persecutórios, que na realidade é.
Abro mão desse prazer porque entendo que o apito inicial do jogo de logo mais à noite marcará um novo momento do futebol brasileiro. E ainda que as respectivas torcidas tenham todos os motivos do mundo para exigir não apenas a vitória, mas também uma atuação condizente com os altos padrões requeridos em termos atléticos, táticos e morais que usualmente demandam, o resultado final da partida é o que menos interessa.
Porque existe a consciência de que Flamengo, Atlético Mineiro e os demais clubes que se comprometeram com a fundação da Primeira Liga não estão desafiando o establishment que acorrenta o futebol brasileiro por causa de um troféu. Me perdoem o cliché, mas os fundadores da Primeira Liga lutam pelo único motivo que historicamente justifica uma guerra, lutam por um direito fundamental do qual não se pode abdicar jamais, lutam por liberdade.
Ver que o nosso Flamengo segue honrando suas raízes, ainda na defesa do profissionalismo, luta iniciada na década de 30 do século passado, sempre pioneiro, sempre na linha de frente, nos enche de orgulho cívico. Sabemos o quão extensos são os poderes dos inimigos dos clubes e sabemos também que a motivação maior daqueles que nos oprimem jamais foi o engrandecimento do esporte. A coragem dos clubes da Primeira Liga é um traço comum. Todos que se uniram no desafio às oligarquias federativas estão colocando muito em risco.
As ameaças de desfiliação, sequestro de cotas, entre outras arbitrariedades que a velha guarda dirigente não hesitou em lançar mão contra seus desafiantes, não foram suficientes para que os clubes cedessem um centímetro de terreno sequer. O saco de maldades dos mãos-grandes parece não ter fundo, mas sempre será insuficiente para abalar o ânimo de quem sabe que está lutando pelo lado certo, de quem sabe que está lutando o bom combate.
Diante do simbolismo e da transcendência que o Atlético x Flamengo de hoje à noite adquiriu chega a ser um pouquinho egoísta se preocupar com o resultado em si. Mais um joguinho de pré-temporada (sempre bom lembrar), no qual o mais importante é testar opções e promover o entrosamento. Ah, não mete essa!
Sejamos nobres, mas sem exageros. Todo esse blá revolucionário tá muito maneiro, mas só até o juiz apitar o início da partida. Torcedor sabe que aqui é Flamengo, que durante as 120 voltas que deu em torno do Sol, não importando em que fase de desenvolvimento o time estivesse, jamais perdeu um jogo de véspera. A entidade beneficente sem fins lucrativos Torcida do Flamengo simplesmente não admite essas palhaçadas, nem em campo e nem nas barras dos tribunais.
Queremos ver a transmutação do chumbo em ouro, queremos ver o Flamengo jogando como se fosse um time treinado pelo Muricy, queremos ver Guerrero acabar com o caô, a inhaca e a seca. Queremos tudo ao mesmo tempo agora. E, lógico, queremos que o Mengão siga o protocolo, chacoalhe o Atlético e cale o Mineirão, como já está acostumado a fazer.
Mengão Sempre
Arthur Munhlenberg
Fonte: República Paz & Amor
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Texto profético hehehehehe