O povo fala demais, mas dizia-se que, tanto no Corinthians quanto no Fluminense, Rivellino costumava aterrorizar os garotos que subiam para treinar no time principal, ordenando que lhe passassem a bola com a sentença humilhante: “Dá pra quem sabe. Dá pra quem sabe.”
Talvez nem fosse arrogância, e sim um modo de testar quem já estava ou não pronto para suportar a pressão. Mas é indiscutível que, ao contrário do que os treinadores do futebol brasileiro vêm há tempos tentando nos convencer – benditos sejam os sete a um –, futebol precisa ser jogado por quem sabe.
O primeiro tempo do Fla-Flu deu uma pista do que pode vir a ser o nosso time. Se vai dar certo quando a temporada começar de verdade é outro papo, mas o aperitivo serviu para aguçar o apetite.
Contrastando com a vã valentia do jogo do primeiro turno entre Flamengo e Sport no Brasileirão do ano passado, quando saiu ameaçando (“o Flamengo tá de parabéns aqui, mas eles vão jogar lá”), a humildade de Diego Souza na ida para o intervalo, dando graças a Deus por ter acabado o primeiro tempo, é a mais completa tradução do que foram aqueles 45 minutos.
Surpreendendo a todos nós, que já esbravejávamos diante da suspeita de que Cuéllar poderia entrar sem que Márcio Araújo saísse, Muricy escalou um meio-campo exclusivamente com gente que sabe jogar bola. Com tantos cáceres e amarais na nossa vida, já tínhamos até esquecido o que era isso.
Pode ser que eu queime a língua e todos nós nos decepcionemos, mas dois jogos bastaram para escancarar a brutal diferença entre Márcio Araújo e Cuéllar. O primeiro recebe a bola, rodopia, põe-se de costas para o campo adversário e rola de forma burocrática para um dos zagueiros, numa lição completa do que um meio-campista jamais deveria ser. O segundo domina e, como que por instinto, ergue a cabeça, olha para a frente e empurra o time para o ataque. Quando isso não é possível, toca e desloca-se em velocidade para, já no momento seguinte, fazer o jogo fluir. Nada disso acontece por gosto ou temperamento, a questão é de competência. Cuéllar sabe que sabe jogar, o que o deixa seguro para tocar rápido e arriscar; Márcio Araújo tem consciência de que não sabe, o que o obriga a atuar como um jogador de rúgbi – estranho esporte em que só é permitido passar a bola para trás ou para os lados.
Tem-se discutido se Mancuello é ou não um camisa dez. Tudo leva a crer que não, embora seja necessário entender que não há apenas um estilo de camisa dez. Dono de enorme visão de jogo, passe precioso e dinâmica zero, Paulo Henrique Ganso é um camisa dez. Com muito menos técnica, mas bem mais aguerrido e participativo, Renato Augusto também é. Mesmo que Mancuello não seja, pouco importa: um meio-campo moderno, em que todos defendam e ataquem com eficiência, pode suprir com sobras a ausência da tão desejada figura. Não quero misturar alhos a bugalhos, mas nas duas ou três vezes em que assisti a jogos do Bayern de Munique não vi ninguém exercendo o papel de camisa dez, pelo menos do jeito que o entendemos. E é um time espetacular.
Muricy ainda tem experiências a fazer, para dar alternativas de jogo ao Flamengo e não o deixar previsível. Há partidas ou situações em que Alan Patrick será útil. Se chegar enfim à condição física que lhe permita participar de toda a temporada, Ederson vai brigar por vaga. (Cirino vem melhorando, mas deixa a impressão de que falta uma centelha que o desperte definitivamente, e Emerson sofre do grave problema de achar que ainda é capaz de fazer, hoje, o mesmo que fazia há cinco anos. Retém demais a bola, retarda contra-ataques com driblezinhos tolos e em vários momentos se mostra mais interessado em jogar para a plateia do que para o time.) O meio-campo com Cuéllar, Willian Arão e Mancuello está com pinta de que vai se transformar em um dos mais equilibrados e capazes do futebol brasileiro, e Ederson pode ser a cereja desse belo bolo.
Além disso, é necessário falar de Rodinei, que tem todas as chances de rapidamente ser reconhecido como o melhor lateral direito rubro-negro nos últimos dez anos.
Por fim, e mesmo sem abrir mão de uma que outra pixotada de praxe, César Martins e Wallace fizeram ótima partida, com apenas uma falha grave: a cobrança de escanteio em que Cícero subiu sozinho e cabeceou rente à trave. Entretanto, a expulsão de Wallace não merece passar batida – ao contrário da de Cuéllar, que me pareceu exagerada e típica das péssimas arbitragens brasileiras.
O gesto do nosso filósofo me fez lembrar uma entrevista do médico e memorialista mineiro Pedro Nava a Roberto d’Avila, no antigo programa Conexão Nacional. D’Avila perguntou a Nava, então beirando os 80 anos de idade, o que representava para ele a experiência. A resposta foi um primor: “Nada. Pra mim, a experiência é como um automóvel com os faróis voltados para dentro.”
Já leu Pedro Nava, capitão?
Jorge Murtinho
Fonte: república Paz & Amor
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Excelente a comparação entre MA e um jogador de rúgbi! Hahaha
Bom texto, com referências, leveza pra criticar e elogiar, coerência e uma boa escrita, como uma coluna que se preze. Mas como não é polêmica, não ganha visualização nem comentários. Ainda bem que ainda há quem não se importe muito com isso!
Excelente texto parabéns.
Bom texto. Mas se as enfiadas verticais e as cobranças não são de um 10, já não sei mais o quê é um 10. Mas concordo também que pouco importa, que seja 23, ou mesmo 98², será um Petkovic e o Guerrero o Adriano. Que meio/ataque incrível, está encaixando, é será o melhor das Américas. Discordo também sobre o Emerson, mesmo com firulas, ainda é decisivo, um dos líderes de gol e assitências. Cuéllar/Mancuello/Arão/Emerson/Ederson/Guerrero é quase um cheat.