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Daqui a 300 anos

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Uma coisa que eu aprendi durante os 8 anos que escrevi o Urublog lá no globoesporte.com é que a única possibilidade que eu tinha para fazer uma resenha imparcial e objetiva sobre uma partida do Flamengo ocorria nas raras ocasiões em que não assistia ao jogo. Vocês já devem ter ouvido falar, mesmo que de segunda mão, nas ideias do físico Niels Bohr. Para a comunidade científica do inicio do século passado, que ainda tinha muita gente encostada no confortável barranco apriorístico, Niels Bohr causou transtorno semelhante à proibição, em 1992, do recuo da bola com os pés para o goleiro. O dinamarquês foi taxativo ao afirmar que as características do objeto que analisa o fenômeno alteram o fenômeno.

E os prezados hão de concordar que não há no mundo nada que seja mais capaz de alterar e, consequentemente, deturpar a interpretação de fenômenos do tipo jogo do Flamengo do que um resenhista fiel aos cânones e à validação dos dogmas que sustentam o edifício da doutrina rubro-negra que efetivamente assiste ao jogo que pretende resenhar. É um perigo. Recomendo fortemente que não tentem fazer isso em casa sem a supervisão de um adulto.

Só por diversão, e apenas por um breve tempo, vamos fingir que somos pessoas equilibradas e nos ater à lógica. O que de bom se pode depreender após 90 minutos de Flamengo x Madureira no Raulino, debaixo de um temporal digno do 5º ato do Rigoletto? Muito pouco, quase nada.

A competição é demi-bouche, a tabela é um despautério e todo mundo mais ou menos já sabe quem é quem nessa trama nada original. O mocinho é o Flamengo, a mocinha o Fluminense e os vilões Vasco da Gama e Botafogo fecham com a Spectre, digo, fecham com a FERJ. No final da história, salvo a ocorrência de algum evento de impacto global que altere profundamente as estruturas sociopolíticas no Brasil o campeão vai ser um dos quatro.

Se ganhar o Vasco diremos que o Carioca perdeu o último resquício de credibilidade que lhe restava, se ganha o Botafogo, que não faz mal a ninguém, o felicitaremos e recomendaremos atenção redobrada na luta contra o rebaixamento no Brasileiro que se avizinha. Se ganha o Fluminense se louvará suas boas relações com as altas cortes e se levanta uma discreta suspeição sobre a lisura do campeonato. Mas se o Flamengo ganha o que acontece?

Não acontece nada. Nada de novo, pelo menos. Diremos que o Flamengo não fez mais que a sua obrigação e que se não trouxer os reforços certos (que são exatamente os nomes que cada um de nós carrega no bolso do colete para momentos de contratações urgentes) sofreremos o diabo no Brasileiro. Porque o time ainda não foi devidamente testado dada à fragilidade intrínseca aos nossos rivais no campeonato praiano. Fica realmente puxado pro Flamengo, porque jogando esse campeonato mixo, e até mesmo vencendo o campeonato mixo, não dá pra ser feliz.

Detesto ser o estraga-prazeres da galera, por isso fiz questão de não vir até aqui apenas com más notícias. Como não pude prestigiar a estreia do Mengão na disputadíssima Taça Guanabara (tão mixuruca que esse ano é a rede de supermercados homônima quem a patrocina), teoricamente estou habilitado a resenhar a partida com o distanciamento e a despaixão que se exigem do observador criterioso.

Mas não o farei, podem ficar tranquilos. Sou bêsta? Ganhar do Madureira no sufoquinho com gol de pênalti não chega a ser exatamente um momento glorioso da história rubro-negra. E se a vitória magra e protocolar não gera real interesse nem para os seus contemporâneos, para que empreender o esforço de preservar esse tipo de memória para os pósteros? Com o tempo essa pelada de sábado chuvoso cairá no esquecimento, assim como cada um dos seus protagonistas e assistentes.

Daqui a 100, 200, 300 anos, o Campeonato Carioca será visto como mais uma bizarrice dos pré-históricos da Era das Comunicações, aqueles seres proto-sensitivos que necessitavam de equipamentos eletrônicos para se conectar à noosfera de conhecimento que envolve o planeta desde o Crepúsculo das Máquinas.

Dessa nossa época de pioneiros e descobridores, dos saltos do conhecimento e da continuada barbárie da desigualdade, o único a ser lembrado, e apenas porque terá conseguido sobreviver no século XXV, será o Flamengo. Porque tem coisas que nem mesmo a força do tempo irá destruir.

Mengão Sempre

Arthur Muhlenberg

Fonte: República Paz & Amor

Ver comentários

  • Arthur Muhlenberg, recentemente assisti a um noticiário que explicou que o analfabetismo no Brasil caiu de 8 para 4% da população. Mas, que, apesar disso, dos que dizem que sabem ler, apenas 8% consegue ler um texto e entender o que leu.

    Assim, meu nobre, num país de analfabetos, se você quiser se fazer entender, tem de baixar muitíssimo a bola no vocabulário que utiliza, a menos é claro, que teu objetivo não se seja se fazer compreender mas ficar tirando onda pra cima da plebe tupiniquim.

    • Gosto do estilo. É um incentivo à cultura. Melhor que muitos outros textos aqui postados com erros graves inclusive de ortografia. Não vou nem comentar de coerência, coesão, clareza, concordância, tempos verbais, etc. Não me incomodo do termo mulambo, mas espero que cheguemos ao nível mulambos alfabetizados. Srn.

      • Acho legal quando a pessoa fala e escreve bonito e, principalmente quando se fala a nossa língua portuguesa, tão difícil, corretamente.
        Mas, no caso do Arthur, o que parece mesmo é que só tem por objetivo mostrar que sabe escrever bonito.
        Força a barra demais e usa expressões tão esdrúxulas que pouco proveito se tira...

  • Como sempre, os textos do Muhlenberg muito bem redigidos e com um tom de ironia impecável, perfeito! SRN

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