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Eu só quero é ser feliz

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Desisto. Sem o talento do Arthur (o post “Daqui a 300 anos” é um primor) e depois que a Nivinha precisou gravar embaixo do chuveiro – calma, rapaziada, ela está pudicamente coberta com a camisa rubro-negra – para descolar o que dizer sobre Flamengo e Madureira, joguei a toalha e decidi caçar outro assunto que não fosse o campeonato estadual.

Ontem de manhã, enquanto a casa ainda dormia – com exceção do meu enteado, que lançou mão de toda a energia dos seus dezessete anos para enfrentar quatro baldeações e doze horas de Lollapalooza –, liguei a tevê instigado pela chamada do dia anterior, que anunciava como uma das atrações do programa Esporte Espetacular a reportagem sobre a chegada de Adriano a Miami, onde será vizinho de Bill Duba, um dos mais assíduos, talentosos e queridos comentaristas do nosso humilde blog.

Voltemos um pouco no tempo, mais precisamente à noite de 20 de maio de 2009. O cenário é a agência de propaganda em que trabalho, em São Caetano do Sul. Quase oito horas da noite e as pessoas começam a partir para suas casas. Daqui a pouco o Flamengo irá encarar o Internacional, no Beira-Rio, para decidir quem segue às semifinais da Copa do Brasil. O primeiro jogo, realizado uma semana antes no Maracanã, terminara empatado em zero a zero. Ao se despedir de mim, um colega são-paulino pede desculpas e diz que torcerá pelo Inter, por enxergar no time gaúcho muito mais possibilidades de barrar a trajetória do Corinthians rumo ao título – algo intragável para qualquer torcedor do São Paulo.

Não escondo o desapontamento. Não com o meu colega, mas com o meu time, por justificar o menosprezo que a imprensa esportiva e os torcedores paulistas vinham dedicando ao futebol carioca e sua tão indigente leva de temporadas recentes. (Até o final do século passado, Rio e São Paulo tinham exatamente o mesmo número de títulos do Brasileirão: onze para cada lado. De 2001 a 2008, enquanto os paulistas levantaram seis campeonatos brasileiros, os cariocas não conquistaram nenhunzinho sequer.)

Quando afirmamos que Garrincha ganhou a Copa de 62, Maradona a de 86 e Romário a de 94, fazemos uma simplificação aparentemente inadequada a um esporte coletivo, mas o que está por trás do raciocínio é correto: o que se pretende dizer é que, se Garrincha, Maradona e Romário não estivessem naquelas seleções, elas não teriam sido vitoriosas. Pensando do mesmo modo, não é errado concluir que Adriano ganhou o Brasileirão de 2009. Claro: teve o Pet batendo um bolaço, a raça e a seriedade de Ronaldo Angelim, Maldonado dando um jeito na cozinha, Bruno fechando o gol e chegando a pegar dois pênaltis do Ganso na fundamental vitória sobre o Santos, mas quem ganhou o campeonato foi Adriano. Dezessete anos depois do nosso último título no Brasileiro, e sem que o clube tivesse passado perto disso ao longo de todo esse período.

Em mais um recuo no tempo, vamos pegar o De Lorean do Dr. Emmett Brown e levá-lo às sete e meia da noite do dia 5 de maio de 2010, quase um ano depois da primeira viagem. O local de aterrissagem é o mesmo. Os computadores da agência começam a ser desligados e o clima é tenso. São-paulinos, palmeirenses e santistas vêm falar comigo, e se mostram certos de que o Flamengo eliminará o Corinthians daqui a algumas horas, nas oitavas de final da Libertadores. Mais: os próprios corintianos, sempre tão cheios de si, revelam preocupação. O principal causador dessa radical mudança de atitude, por parte dos torcedores paulistas, foi Adriano. Estivéssemos numa aula de Filosofia da Ciência, ou em um dos sofisticados textos do Grão-Mestre, diríamos que o Didico foi responsável por um corte epistemológico no futebol rubro-negro.

A matéria do repórter César Augusto, no Esporte Espetacular, me pareceu apressada e superficial, mas ver Adriano disposto a jogar bola em Miami me deixou feliz. Pouco importa que a cidade seja um zero à esquerda em termos futebolísticos, ou que o estádio em que o Miami United faz suas partidas pertença a um centro recreativo que o clube aluga e divide com alunos das escolas municipais de Hialeah, no condado de Miami-Dade. E, mesmo, não me decepciona ou entristece a constatação de que Adriano ainda poderia ser, fácil, o centroavante titular absoluto da seleção brasileira.

Não penso no atacante e sim no ser humano, e concluo que nada disso tem importância, pois qualquer projeto profissional que Adriano consiga abraçar – qualquer um – certamente lhe fará bem, trazendo motivação e novas alegrias a um cara simples, que para se sentir feliz basta poder andar tranquilamente na favela onde nasceu. Um cara que jamais admitiu ser criticado por não esquecer de onde veio. Aliás, é bem bacana rever, na matéria de César Augusto, a cena em que Adriano mostra a Kleber Leite os pelos do braço arrepiados, devido à emoção de vestir novamente a camisa do Flamengo.

Independentemente da qualidade técnica e dos títulos que ajudaram a conquistar, muitos jogadores rubro-negros ganharam a minha admiração. Entretanto, poucos se tornaram meus ídolos, e Adriano é um deles.

Boa sorte, Imperador.

Jorge Murtinho

Fonte: República Paz & Amor

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