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O Fla-Flu sob o olhar de um paulistano apaixonado

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Sou paulistano; nascido e enraizado na Zona Oeste da maior cidade do país. Região do Palestra Itália, do Pacaembu, de tantas festas do futebol. Nunca da minha festa. Sou sempre convidado, do tipo inconveniente. Indesejado pelos anfitriões; um dos primeiros a chegar, do últimos a sair. De vez em quando, com outros “eus”, pintamos o salão de rubro-negro. Até roubamos a cena. A festa, nunca.

Festa boa, pra mim, é longe. Cerca de 435 quilômetros daqui. Sempre que posso, vou; mas confesso que, ultimamente, não tem sido a mesma coisa. Aquela multidão tão distinta – unida por uma semelhança que supera qualquer desigualdade – está cada vez mais homogênea. Cada vez mais branca, cada vez mais rica, como praticamente tem exigido o futebol nesses tempos pós-Copa do Mundo no Brasil.

Bom para os cofres, péssimo para a história. Nosso Flamengo se tornou o que é justamente por aceitar qualquer tipo de gente. Do doutor ao analfabeto, do amapaense ao gaúcho, do milionário ao esfomeado.

Quando recebi a notícia de que o Fla-Flu seria em São Paulo, comemorei. Era uma oportunidade de ver meu time sem precisar atravessar a Dutra, ou sem ter de ir ao jogo com a camisa escondida. Torcedores de outros clubes, ao meu redor, também celebraram. Quando se pensou que o clássico fosse ser disputado no quintal da casa deles?

Imaginei outro cenário. Estádio com umas 20 mil pessoas, clima de carnaval. Muitos dos nossos, poucos dos deles e grande parte de outros times, agarrando a chance de ver um Fla-Flu sem viajar ao Rio de Janeiro.

A entrada no metrô, domingo, anunciava que as coisas não seriam bem assim. Vagões lotados, tomados por sorrisos embrulhados em todas as variações possíveis do Manto Sagrado. Claramente, algo muito maior do que aquele Flamengo x Figueirense que mandamos no Morumbi em 2014. Pela primeira vez na vida, eu estava em casa me sentindo em casa.

A descida da via que dá acesso ao Pacaembu foi de alegria. A chegada à Praça Charles Miller, impossível descrever. Olhos marejados, uma emoção que, dificilmente, sentirei de novo. Estático, admirava e abraçava, em espírito, aquela gente. Rubro-negros de todos os tipos pra tudo quanto é lado. Bandeiras, cantoria, Flamengo.

Chamar de invasão é mentir, ninguém invadiu nada. Todos estavam em casa. Não foi preciso fretar ônibus nem aguentar horas de estrada. Os milhares de corações, ali, apenas levantaram de suas camas e foram ao Paulo Machado de Carvalho prestigiar o Flamengo.

Paulistas, cariocas, nordestinos, nortistas, centro-oestinos, sulistas. Brasileiros. Gente que herdou de família, gente que se descobriu Flamengo. Pessoas que pra cá vieram pra construir grande fortuna, pessoas que por aqui desembarcaram para fugir da miséria, pessoas que, simplesmente, tiveram de se mudar para São Paulo. Todas as cores, classes, origens, sotaques, sorrisos.

Aquele Flamengo que se lê e ouve falar ainda existe. E muito forte. O Flamengo de todos, e de qualquer lugar.

Hoje, mais do que nunca, sei que o mundo é rubro-negro. E é por isso que, como domingo, nem sempre vencemos. Caso contrário, não haveria mundo. Haveria só Flamengo.

Fonte: Nosso Flamengo

Ver comentários

  • No dia que o Flamengo expulsar de vez dos estádios esse torcedor de alma que fez o Flamengo ser o que é hoje, ele acaba.

  • Espetacular o texto!
    Torço para que quando tivermos ou administrarmos um estádio, encontrem soluções para que todos, como sempre foi, possam assistir aos jogos

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