“Eu sou Paolo Guerrero, eu sou Paolo Guerrero”, disse meu sobrinho uma tarde dias depois do fim da Copa América de 2011. Aos seus seis anos, ainda não havia tido o trabalho de ver na íntegra as partidas da seleção. Muito menos sabia em que clube jogava o atacante. Parado em meio a um parque do meu bairro, não queria uma camiseta com seu nome nas costas, nem mesmo pediu para ver novamente seus cinco gols na Argentina. Antes de começar o jogo improvisado no parque, apenas queria que dissesse: “Sim Juan Diego, é Paolo Guerrero”.
Mas não era essa auto definição que me espantava, e sim a maneira em que interpretava seu papel: Ele se lançava sobre cada bola dividida, com raiva. Exagerava se arrastando na grama para terminar com a camiseta de terra. Corria como um louco atrás de seu rival ocasional. Porque para Juan Diego, ser Paolo Guerrero era sinônimo de nunca vacilar. Converter um sobrenome em um slogan.
Durante esses seis anos, fez parte desta nova geração de crianças e adolescentes que de alguma forma experimentaram o que é celebrar um reconhecimento por mínimo que possa parecer. A medalha de bronze na Copa América de 2011, finalmente, consolidou a imagem protótipo de herói nacional de Guerrero. Claro, essa imagem não surgiu espontaneamente. Por um lado, nasceu fundada no caráter persistente de um futebolista que oscila entre a coragem e a explosão. Pode ser que Guerrero marque três gols contra a Venezuela, mas pode também acabar sendo expulso em uma partida que o Peru perde de 6 a 0.
Por outro lado, a construção de ideia de ídolo nacional tem a ver fundamentalmente com o modo com que é reproduzido pela mídia. Em um estudo valioso, Alonso Pahuacho sustenta que o jornalismo esportivo peruano tem atribuído um valor muito próprio dos heróis da guerra com o Chile no final do século XIX: o sacrífico para a nação. Um comunicador disse pela Universidade Católica de Lima, adicione seu próprio ponto: nas cinco primeiras aparições de Guerrero na seleção peruana ele marcou três gols contra o Chile. É provável que de forma imediata a memória coletiva, mediada pela imprensa, foi colocada em uma posição de privilégio.
Pouco importa suas explosões na Alemanha, onde chutou um goleiro e jogou uma garrafa em um torcedor, ou suas reações de raiva no Peru, como cuspir em um torcedor depois de uma partida contra o Equador. A partir da subjetividade jornalística, Guerrero foi sempre coberto com uma aura positiva. Em uma pesquisa realizada pela Ipsos Peru em maio de 2013, era considerado o melhor futebolista peruano por 77% da população de Lima. Uma outra pesquisa anterior deu uma melhor projeção da sua imagem: 91% das pessoas estão seguras de que ele é o mais comprometido com a seleção. Guerrero não é apenas um jogador de futebol. É um novo emblema nacional.
Como Pahuacho diz: “O compromisso de Guerrero, associada com a disposição do jogador para atuar pela seleção peruana e exigindo o máximo em cada jogo, é sempre destacada e considerada acima de outras qualidades que este mesmo jogador possa ter”. A publicidade tem aumentado ainda mais sua dimensão de ídolo nacional: Desde analgésicos até bolachas para as crianças.
Aos 32 anos. seu status continua crescendo: Com o gol marcado no empate de 2 a 2 com a Vnezuela pelas Eliminatórias, ultrapassou Cubillas e asusmiu o posto de maior artilheiro da história da seleção peruana, com 27 gols. Talvez seus gols nas duas últimas Copas América não tenham o valor histórico dos gols mundialistas de Nene, mas Guerrero, herói da mídia e figura pública, tem feito com que em peladas nas ruas, estradas, parques e praças as crianças não optem por um jogador estrangeiro. Como o meu sobrinho Juan Diego repete: “Eu quero ser Paolo Guerrero, eu quero ser Paolo Guerrero”.
Fonte: Goal
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Paulo Guerrero vale pelo futebol e pela grife. Mas se fosse um pouquinho só mais carismático, seria ídolo da torcida rubro-negra.