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Para alguma coisa há de servir

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Acompanhar essa primeira etapa do campeonato carioca foi sofrimento semelhante ao de Leonardo DiCaprio no recente papel de Joseph Climber das neves. Com a pequena desvantagem de não haver estatueta de ouro no final e, muito menos, 25 milhões de dólares de cachê.

Já que falar mal da outrora tão charmosa e arrebatadora competição virou commodity, vale o esforço de descobrir o que ela pode nos trazer de útil. Não vai ser fácil pra mim, que escrevo, e exigirá paciência de vocês, que leem, mas vamos tentar.

Em primeiro lugar, algumas partidas do estadual (e uma possível semifinal da Primeira Liga) vão nos revelar a maneira que Muricy encontrará para montar o time quando estivermos sem Guerrero – seja por futuras convocações para a seleção peruana, seja pelo desmedido amor que o moço demonstra por cartões amarelos. E aqui vai uma confissão: ao contrário da imensa maioria dos torcedores rubro-negros, inclusive de muitos dos queridos comentaristas do RP&A, nunca fui nas águas do Kayke. Acho que ele surfou – de forma competente, sem dúvida – nas ondas da surpreendente sequência de seis vitórias no Brasileirão do ano passado, quando tudo deu certo, e conquistou uma vaga no coração da torcida. Mas aquele estilo de centroavante não faz minha cabeça. Embora representem menos de dez por cento do ciclópico cachê de DiCaprio, 2 milhões de dólares por Kayke estão de ótimo tamanho.

Plano B: será que Felipe Vizeu já tem brevê para pilotar o comando do ataque rubro-negro? Cabe deixar claro que a preocupação com o substituto de Guerrero não se deve aos jogos do estadual moribundo e nem aos da Primeira Liga ainda embrionária. A complicação virá se perdermos Guerrero nas fases finais da Copa do Brasil e em rodadas pedreiras do Campeonato Brasileiro. Ocasiões em que, definitivamente, nossos adversários não serão a Cabofriense e o Bangu.

Antes que me esculhambem, tento explicar. Também acho que é preciso prestigiar a garotada, e Vizeu está indo bem, mas recomenda-se manter os pés no chão. Tenho certeza de que nenhum de nós esqueceu que Rafinha e Rodolfo engoliram a bola no primeiro turno do campeonato carioca de 2013. E todo cuidado é pouco: Lucas Paquetá, por exemplo, começou mal, com aquela ordinária cavadinha nas mãos do goleiro banguense. Ok: é menino, estreava no time de cima, deslumbrou, a jogada parecia fácil, temos que ter paciência. Concordo com tudo, mas é exatamente isso o que estou falando. Na hora de encarar o Atlético Mineiro em jogo decisivo do Brasileirão, precisaremos de gente na ponta dos cascos e com a faca nos dentes.

Sobre isso, aliás, me lembrei de uma ótima entrevista do Muricy em sua primeira passagem pelo São Paulo. Um dos jornalistas cutucou o treinador, criticando-o por não aproveitar os garotos que o clube formava em Cotia. Para exagerar seu argumento, Muricy contou que às vezes ligava para o ex-jogador Zé Sérgio, que treinava a base, e perguntava mais ou menos assim: “Escuta, Zé, quarta-feira eu tenho um jogo com o Boca Juniors pela Libertadores e não tô satisfeito com o rendimento do meu meio-campo. Tem alguém aí que você possa me indicar pra resolver o problema?” Na história, obviamente inventada por Muricy, Zé Sérgio gaguejava e respondia que não via ninguém em condições de assumir uma bronca dessas. A mensagem de Muricy era curta e grossa: para jogar no São Paulo, disputar título brasileiro ou encarar o Boca na Libertadores, o cara tinha que estar pronto. Que não o aborrecessem com este assunto.

Nas partidas em que não tivermos Guerrero, o que fará nosso técnico? Preservará o esquema apostando suas fichas no garoto Vizeu, ou partirá para uma solução com Emerson ou Cirino no meio, ou até mesmo Ederson de falso centroavante? O campeonatinho estadual poderá nos dar alguma pista, e eis aí sua primeira serventia.

Partimos, então, para a segunda lição, que já tínhamos decorado no ano passado e no último sábado pudemos corroborar: César Martins não dá. Com a correta decisão de poupar Juan contra o Fluminense, César Martins teve a chance de se recuperar no mesmo estádio que o crucificara naquela derrota para o Coritiba. Fez uma partida séria e firme, não permitiu que Fred visse a cor da bola, ganhou elogios públicos da Nivinha – o que dá moral a qualquer um –, mas pôs tudo a perder diante do poderoso ataque do Bangu, perpetrando uma sinistra sucessão de incompetências. Começou com o coice torto no lance do gol de Willian Amendoim, passou por uma atravessada de bola à frente da área que foi parar nos pés de um atacante adversário, terminou com a falta de jeito e de traquejo no atabalhoado pênalti que Muralha defendeu. Um zagueiro precisa se esforçar muito para cometer tantos erros grotescos em um único jogo, e ele conseguiu.

Detesto teoria da conspiração, mas me ponho a pensar: será que César Martins não é um superbrother do Wallace, e que seu objetivo é nos fazer entender que, se com o capitão a coisa é ruim, sem ele pode ficar pior ainda? Ou: será que César Martins está, como um guerreiro kamikaze de Muricy, dispondo-se a fazer o trabalho sujo para provar à diretoria que, antes de pensar em Maracanã, estádio próprio, tijolinho, Ferj, Primeira Liga, Programa de Sócio-Torcedor ou novos patrocinadores, neste momento nada é mais importante para o Flamengo do que contratar um zagueiro? E olha que nem carece de grandes categorias, basta saber rebater a bola e não brincar em serviço. Já estaremos no lucro.

Competições como o atual campeonato carioca trazem esta cruel contradição: não podem atestar quem é bom, mas caguetam sem dó os que não combinam com o time que queremos e exigimos. Wallace, Márcio Araújo, a porra-louquice do Gabriel, o visionarismo do Canteros. Nada pessoal contra nenhum deles, mas já tiveram todas as oportunidades possíveis. A fila precisa andar.

Jorge Murtinho

Fonte: República Paz & Amor

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  • Segundo foi dito, o cesar martins jogou no lado errado contra o bangu. Para quem n eh un genio, dificulta bastante.

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