A cena a seguir acontece no filme Whiplash, do diretor americano Damien Chazelle. Depois de protagonizarem uma conturbada relação mestre-aluno, na melhor escola de música de Nova York, o regente Terence Fletcher (impressionante interpretação de J.K. Simmons) e o baterista Andrew Neiman (vivido por Miles Teller) se encontram no pequeno club de jazz em que Fletcher dá uma suave e inspirada canja ao piano. Os dois saem para tomar uns tragos, e Fletcher aproveita para repetir sua história predileta: aquela em que, após uma apresentação infeliz de Charlie Parker, então no início da carreira, o baterista Jo Jones atira um prato na direção de Parker, atitude que o magistral saxofonista transforma em insatisfação consigo mesmo, partindo dali para virar o gênio que o mundo viria a reverenciar.
Segundo o rigoroso regente, era enorme o risco de jamais conhecermos toda a extensão do talento de Parker se Jo Jones, em vez de arremessar-lhe o prato, tivesse dito “ok, Charlie, tudo certo, você fez um bom trabalho”. Fletcher fecha seu argumento garantindo que não existe, no dia a dia americano, expressão mais perigosa do que a que é formada pelas palavras “good job”.
Terence Fletcher é um personagem destemperado e insuportável, mas sua contrariedade em relação ao “good job” nos remete a um problema semelhante com o qual a torcida do Flamengo tem convivido quase que semanalmente, por causa de duas singelas palavrinhas: “faz parte”.
Alan Patrick perde, nos acréscimos, o pênalti que nos daria a vitória no sempre difícil jogo com o São Paulo, mas tudo bem. Faz parte. Rafael Vaz – que vinha mostrando seriedade e eficiência desde sua entrada no time – dá de presente o segundo gol ao Fluminense com um recuo frouxo e displicente, mas beleza. Faz parte. Massacramos o Flu no primeiro tempo, só que, surpreendentemente, o time massacrado volta do intervalo sem qualquer substituição, enquanto o massacrante troca um jogador e altera a configuração tática. Futebol não tem lógica, mas requer o mínimo de bom senso. (Questão de ordem: por mim, Zé Ricardo fica até o fim da temporada, quando deveríamos partir para um treinador com trabalho diferente do que temos por aqui. Eu também achava que o melhor nome seria o de Sampaoli, mas ele acaba de assinar com o Sevilla. O cavalo passou e não soubemos montá-lo. Sigamos com Zé Ricardo.)
Podemos, ainda, sair do campo e partir para a gestão do futebol. Não é errado dizer que Rodrigo Caetano fez um bom trabalho (ah, o good job) ao trazer Rodinei e Willian Arão – além de Cuéllar e Mancuello, que espero ver em breve novamente no time titular. Mas talvez devêssemos jogar um prato em direção à sua cabeça por ele não conseguir explicar onde estava e o que fazia enquanto o Palmeiras ia lá no Audax e levava o certamente barato e moderno meio-campista Tchê-Tchê, ia ao Criciúma e pegava o tão barato quanto e perigoso atacante Roger Guedes. Ou onde ele estava e o que fazia enquanto o Atlético Mineiro importava Cazares e repatriava Júnior Urso. Ou, ainda, onde estava e o que fazia em 2015, quando o Internacional foi buscar Vitinho no CSKA. Tá certo: Moscou é longe pra chuchu, a maior friaca e tem o tresloucado Putín, que disputa com Donald Trump o epíteto de Terence Fletcher da política internacional, melhor deixar quieto. Faz parte.
Para piorar, enquanto esse povo se reforçava, brigávamos com o Fluminese por Henrique, numa briga que, felizmente, perdemos. E agora nos metemos nessa robusta roubada chamada Donatti. Tomara que eu me engane e queime feio a língua – caso isso aconteça, darei o braço a torcer com satisfação –, mas vi Donatti jogar três vezes, na atual Libertadores, e o achei lento, caneludo, limitado. Entretanto, gastar energia e grana em jogadores que não resolvem também faz parte.
Não discordo daqueles que dizem – e isso volta e meia surge entre os comentaristas aqui do blog – que o time do Flamengo não é pior do que nenhum outro do campeonato brasileiro. Como escrevi no post “Tempos modernos”, publicado em 25 de janeiro de 2016, creio que Palmeiras e Atlético Mineiro esse ano largaram na frente, porém não há mesmo distâncias consideráveis. O segredo talvez esteja em compreender e aceitar o quanto o “faz parte” tem nos atrapalhado.
Logo que Muricy chegou ao Flamengo, o programa Esporte Espetacular, da Globo, pôs no ar uma boa matéria sobre o técnico. Entre vários depoimentos, destacava-se a emocionada entrevista em que o falecido atacante Fernandão afirmava que Muricy o tinha ensinado a ter indignação pela derrota. Pois enquanto não voltarmos a ter indignação pelo pênalti da vitória perdido nos acréscimos, pela bola recuada com descuido e desdém, pela falta de concentração em partidas e momentos decisivos, pelo planejamento equivocado e pelas contratações disparatadas, continuaremos a acumular decepções e fracassos. Como tem acontecido nos últimos quatro anos, em que a nossa melhor colocação no Campeonato Brasileiro foi o décimo lugar em 2014.
Risível? Ridículo? Revoltante? Que nada: faz parte.
Jorge Murtinho
Fonte: República Paz & Amor
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Duas palavrinhas:
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Duas palavrinhas: Marcio Araújo!!
Duas palavrinhas: sem neuronio
verdade. O ZR parece com o Presto, personagem de Caverna do Dragão, faz altas mágicas, mas raramente uma boa. Espero que ele não demore muito para amadurecer.
Cara!os caras deram os dois gols, e vc direciona a crítica ao Zé, essa torcida é fhoda bicho.
O Murtinho esqueceu ou não quiz lembrar que pior que perder pênalti e recuar mal, foi a testada do Arão contra o Muralha, talvez ele estivesse pensando que jogava do outro lado. Quanto ao faz parte, acrescento ainda a dívida daquele time árabe pela compra do Hernani. O flamengo podia ter pegado o Marquinhos Gabriel pela dívida, pois o mesmo pertencia a esse time, e onde estava o Caetano que nem sequer ventilou isso? Te respondo caro Murtinho, esse DP de futebol do flamengo é como o cara que tem um negócio que já dura, e que não cresceu porque não investe nesse negócio, seu pensamento é pequeno, se acomodou com o que tem. Assim são os caras dessa gestão no flamengo, em nome de contenção de despesas por causa da recuperação financeira do clube, ficam contratando jogadores encostados, gringos de terceira categoria, técnicos e jogadores ultrapassados e aposentados, todos que estão sem contrato no mundo do futebol são vistos como possibilidades, e até hoje não perceberam que apequenaram o flamengo com essa visão de contratar, de fazer negócio, o clube pensa pequeno representado por eles. O prejuízo é muito maior por não contratarem profissionais que estão bem, pois além dos prejuízos de pagarem aos incompetentes, aos perebas, do prejuízo do programa de ST, dos investimentos dos parceiros comerciais, temos ainda o prejuízo moral, pois nunca o clube esteve tão sem comando,sem alguém pra defendê-lo como agora. Com tanta incompetência é tantas agressões ao clube, chego a pensar que há uma conspiração infiltrada no flamengo, tentando de todos as formas acabar com o flamengo, pois externamente ela existe, basta ser observador para identificar os erros de arbitragens, o governo do Rio, a ferj, a mídia que achincalhado, enfim o flamengo precisa de alguém que o defenda e desmascarar a conspiração interna e tbém a externa, ou então estaremos sempre brigando pra voltar a ser grandes.
Excelente texto. Realmente, o conformismo diante da displicência que custa uma derrota é inaceitável. Me lembrei do caramujo ao final da desclassificação do Fla na Primeira Liga: "É um alívio para nós jogadores, porque é menos uma competição." Era para ter rescindido o contrato ali mesmo. Onde já se viu uma coisa dessa? Ficou explícito que os jogadores fizeram corpo mole.
O problema é quando esse conformismo se alia à comodidade e à mediocridade, ou seja, quando nos acomodamos às ações e resultados medíocres, seja fora ou dentro do campo, e nos conformamos como esse lugar comum, não é mesmo diretoria?
É claro que, no calor das emoções, deixamos de analisar os erros de Vaz, Patrik, Caramujo e Sheik de um modo mais amplo e os acusamos de maneira isolada, já que o futebol desperta a nossa irracionalidade apaixonada, levando-nos a proferir declarações à flor da pele na maioria das vezes.
No mais, é claro que um jogador que veste a camisa do Flamengo não pode bater um penalti ou atrasar a bola pro goleiro de um modo tão displicente, ainda mais forem erros reincidentes, mas o grande problema do Flamengo reside na lógica frouxa, acomodada, amadora e medíocre da diretoria que preside o futebol, tentando buscar um técnico de grife, porém ultrapassado, mas que sirva de escudo para suas pixotadas. Ou então, um técnico tapa buracos, que muito embora trabalhe honestamente e tenha potencial, como o ZR, ainda precisa de tempo e credibilidade para desenvolver um trabalho a longo prazo.
Mas será que a diretoria permitirá que ele tenha esse tempo todo? Creio que não, pois, do contrário, já o teria efetivado e convocado uma coletiva dizendo "É com ele que nós vamos seguir até o fim do ano", o que repercutiria, inclusive, na ansiedade e expectativa de nós, torcedores, a começar por mim.
Em tempo, também queria saber do Caetano por que ele aliviou o bonde da stela, por que ele permitiu a contratação de chiquinho e fernandinho, a renovação de sheik, caramujo e gabriel, por que a obsessão no abelão, e por que a obsessão no donatti, que também achei botinudo e lento, enquanto o cuesta é rápido, habilidoso e mais completo?
Parabéns Jorge Murtinho pela belíssima crônica, você escreve bem pra c... Em relação ao conteúdo, concordo totalmente. Não pode passar a não na cabeça dos jogadores e achar que o destino é quem faz nosso time errar e acertar, isso é um discurso derrotista. Os jogadores têm sim que sofrer nas derrotas, não aceitarem os erros e saírem indignados quando isso acontece. SRN