MCP: “Morte de torcedor ‘raiz’ coloca luz no debate sobre a exclusão social nos estádios brasileiros”

Houve um tempo em que ir ao futebol era algo acessível para todos. O preço da arquibancada regulava com o do cinema, mais caro em jogos importantes, decisivos, como aos sábados e domingos nas salas de exibição. Mas baratinho em pelejas menores, como ocorre numa terça-feira à tarde para quem procura um filme bom ou que apenas divirta. Aos poucos, as cifras dispararam, e com as tais “arenas”, transformaram o velho esporte bretão em programa da classe média, de quem vira sócio, tem dinheiro para pagar uma mensalidade e o bilhete caro. Agora, ao invés de puxar aquela nota amassada do bolso, o torcedor faz biometria. Elitizaram a paixão popular, tiraram o pobre dos estádios, sem dó, nem piedade.

Eliminaram do Maracanã e do Mineirão, entre outras canchas, o lugar mais barato, a geral. Interessante é que a maioria dos que defendiam o fim daquele setor popular, democrático e repleto de personagens folclóricos jamais pisou ali. Nunca ficaram voluntariamente de pé os 90 minutos sob tempestade, segurando um guarda-chuva, apenas para ver o time em campo. Mas esses acadêmicos se acham capazes de falar a respeito, de dizer o que é bom ou não é. Sim, são aqueles que babaram pelas tais arenas antes da Copa, que afirmavam tolices como “o torcedor agora terá conforto”, quando na realidade ele foi é arrancado do campo de futebol. Afastado pelo bolso, impedido de chegar perto de seu time de coração.

Ante o saudosismo causado pela inexistência da geral, surgem argumentos como o “culto ao desconforto”, que os antigeral gostam de usar, como se nós, defensores do setor popular, associássemos a presença do pobre no estádio à localização. Mas o geraldino não reclamava. Quando vimos cartazes na geral pedido “mais conforto” ou algo assim? Ora, eles apenas queriam estar no estádio, perto dos ídolos, e a visão não tão boa do campo (aliás parecida com a de quem senta nas primeiras cadeiras de uma arena) era compensada pela emoção de estar ali, de participar. Se uns e outros não gostavam, por que impedir quem achava ótimo, ou preferia a geral do que o nada? Nem tal opção essa gente tem mais.

Na geral havia, sim, sacos de mijo que explodiam nas costas de seus frequentadores. E quem jogava era o cara da arquibancada, que tinha mais dinheiro para o ingresso e menos educação e respeito pelo geraldino, a vítima, não o culpado. Alguns desses arquibaldos ainda estão lá em cima. Por que hoje em dia não jogam urina no torcedor das cadeiras inferiores? Talvez por não serem pobretões como boa parte dos frequentadores da velha geral. Eliminaram o setor popular por razões diversas, entre elas o fato de o torcedor com mais dinheiro humilhar o mais pobre, que foi afastado para que esse porco, um verme com mais reais na carteira pudesse seguir frequentando o estádio.

Líder do Brasileiro, o Corinthians tem no certame 80% de ocupação de sua Arena, ou quase 10 mil lugares vazios por jogo, em média. No Palmeiras sobram, por peleja, mais de 11 mil, com taxa de 74%. E no pequeno estádio onde atua o Flamengo ficam vazios, por cotejo, em torno de 8 mil, com os vergonhosos 60% de ocupação. São os três clubes que cobram os ingressos mais caros no país: R$ 60 no Allianz Parque, R$ 58 na Ilha do Urubu e R$ 55 em Itaquera, o preço médio. E mesmo sobrando milhares de lugares na maioria das partidas, ninguém pensa, tenta, estuda uma forma para reduzir os cifrões e, mesmo eventualmente, permitir a presença de alguns dos milhões de excluídos.

Os rubro-negros perderam dinheiro, pagaram para jogar em seus últimos compromissos na Ilha do Governador, contra Atlético Goianiense (-R$ 100.039,34) e Atlético Paranaense (-R$ 20.972,20). Públicos diminutos devido aos ingressos caríssimos (a partir de R$ 120 para o não associado sem direito à meia entrada), borderô no vermelho e a maioria da torcida afastada pelo bolso. Mas não se cogita cobrar bem pouco, ou nada, do sócio torcedor para ver essas partidas, e valores acessíveis dos demais. Preferem prejuízo e cadeiras vazias. Não seria melhor zerar a conta ou então ter o mesmo resultado financeiro com casa cheia, inclusive atraindo novos associados para o futuro? Não para os cartolas.


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Em Flamengo 2 x 0 Santos, pela Copa do Brasil, a presença de um homem humilde, isolado num canto do estádio, chamou a atenção. Por mais bizarro que possa parecer, aquele que era o perfil típico do rubro-negro, do geraldino, e causou estranheza por estar ali, num espaço agora ocupado pelos “classe média” que podem pagar uma taxa todo mês e frequentam os jogos de hoje em dia. Era Seu Expedito, cuja foto viralizou na internet. Virou símbolo da exclusão na arquibancada. O site Coluna do Flamengo o homenageou (veja abaixo) e lhe presenteou com uma camisa personalizada. Ele morreu nesta sexta-feira. O clube respeitará um minuto de silêncio antes do jogo deste domingo, contra o Sport.

Como alguém que se diz Flamengo pode achar normal jogos do time mais querido do Brasil sem gente como Seu Expedito? Ainda mais em meio a tantas cadeiras vazias em tantos jogos sem casa cheia. Sua aparição (só estava no estádio por causa da gratuidade), com grande repercussão, deu vida ao debate sobre a exclusão social nos estádios brasileiros. Que não é exclusividade do Flamengo, mas choca ainda mais por ser o clube de maior torcida do país, por ser a camisa que mexe com o coração de mais gente pobre e sofrida do que qualquer outra. Esse povo é a essência do clube que conhecemos e milhões aprenderam a amar. O debate sobre o tema é o legado de Seu Expedito, um rubro-negro ‘raiz’.

Fonte: Blog do Mauro Cezar | espn.com

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  • Boa Noite!
    Eu, vejo essa tal exclusão um tão pouco vaga, porquê, Seu Expedito não era excluído como falam. Ele, frequentava o Estádio c/ o direito dá Gratuidade quê nesses casos é válida por direito. Ô, que não é válido é ah venda dessas gratuidades pela quadrilha de câmbistas/marginais quê se instalou no Rio se aproveitando, em tese, de senhores, Expeditos, Josés, Joãos, Robertos e quantos outros que usam o seu benefício. Temos que analisar e refletir bem antes de comentar! SRN ?⚫

  • Acho a discussão válida porém, Tem que se raciocinar…Hoje n temos mais estádio de futebol ..hoje temos arenas e arenas são caríssimas …A solução é um estádio próprio econômico, onde poderíamos mesclar as classes sociais…Um estádio pra uns70 mil , com 50 mil cadeiras e 20 mil em pé….Sei que é difícil , mais com gente competente na administração n é impossível…

  • E O que fazer?

    Muita critica Pra pouca solução.

  • Olha, não há verdades absolutas. Ninguém tá certo e a maioria não tá errada.
    Vejamos:

    Manutenção da Ilha + Aluguel Portuguesa + FFERJ = X
    Lotação Máxima + Meia Entrada = Y – X = Lucro

    Só que há o PST, certo? Qual é a receita: Borderô ou PST? Pq se for só PST, então a lotação máxima se torna = Z – X = Prejuízo

    Maracanã: Manutenção + Odebrecht + FFERJ + Gratuidades = A
    Lotação: 55K + Gratuidades + Meia Entrada + Visitantes = B – A = Lucro
    60% da Lotação: 35K + Gratuidades + Visitantes + Meia Entrada = C – A = Prejuízo

    Então não estão errados em cobrar caro. Mas pra reverter isso, é preciso também ter um pouco de sensibilidade que há um atravessador no Maraca (Odebrecht) e a falta de sensibilidade da Diretoria de ter uma “geral” na Ilha de pelo menos 10% (Sul) disponível nas bilheterias com preços populares.
    Mas e aí? E a máfia dos cambistas? Quem não lembra das filas de banquinhos que ficavam na véspera da abertura de bilheteria em que os infelizes compravam dúzias de ingressos e tiravam da mão de muitos que faltavam ao trabalho pra ver o Flamengo brilhar?

    “O que não tem remédio, remediado está” (dito popular).

    Só vai ter uma solução com nosso proprio estádio. Eu espero… SRN

  • Sinto vergonha de quem se diz Flamengo e não se sensibiliza com a situação de grande parte, a maioria esmagadora de nossa torcida, que, tendo seu Expedito como símbolo, é tratada de forma excludente pelo elitismo do Flamengo atual.

    Ainda bem que é o Mauro que tá falando, porque quando sou eu que faço esse mesmo apelo aqui por exemplo, sou atacado pelos burgueses de classe média de nossa torcida, que não representam a essência do que é o Flamengo.

  • Ótimo texto do Mauro! Um dos melhores comentarista do país porque fala a realidade e quer melhorias!

  • Parabéns Nação que faz seu dever, o time e diretoria deviam está fazendo o seu, mas nem clássicos estão conseguindo golear… Tem que mudar essa filosofia de trabalho acho, tem algo errado na diretoria e comissão técnica, tem jogadores medianos sendo titulares absolutos e outros na reserva por longo tempo mesmo buscando espaço, se esforçando… Já até emprestaram o Ronaldo sem dá muitas chances de jogar…

  • CONCORDO INTEIRAMENTE QUE É UM ABSURDO, MESMO EM CAMPO PRÓPRIO, NÃO HAVER MAIS LUGAR PARA OS MAIS POBRES E MAIS ARDOROSOS TORCEDORES. O GRITO ALTO DOS HOJE EXCLUÍDOS É QUE , EM GRANDE PARTE, LEVOU NOSSO MAIS QUERIDO AO BRILHO QUE TEM HOJE. É UMA VERDADEIRA MALDADE E, MAIOR AINDA, A INGRATIDÃO DE “ESQUECERMOS” ESSA FORÇA NOBRE DOS QUE TUDO ENFRENTARAM PARA ESTAR TORCENDO COM TODA A FORÇA DE SEUS CORAÇÕES PELO MAIS AMADO FOSSE NO SOL ESCALDANTE, FOSSE NA CHUVA QUE NÃO DAVA TRÉGUA. QUE NOSSA DIRETORIA SE LEMBRE DISSO SEMPRE E QUE VOLTE, PELO MENOS NOS NOSSOS ESTÁDIOS, A SAUDOSA GERAL, COM SEU PREÇO POPULAR. ESTILIZAR ESPORTE É COVARDIA, É IMORAL.

    • Muito bem!

  • “Líder do Brasileiro, o Corinthians tem no certame 80% de ocupação de sua Arena, ou quase 10 mil lugares vazios por jogo, em média. No Palmeiras sobram, por peleja, mais de 11 mil, com taxa de 74%. E no pequeno estádio onde atua o Flamengo ficam vazios, por cotejo, em torno de 8 mil, com os vergonhosos 60% de ocupação.” — E ainda tem gente que quer estádio para 60mil torcedores… &;-D

    • “No dia 15 de dezembro de 1963, há exatos 50 anos, a conquista do título estadual pelo Mais Querido, no clássico Fla-Flu, foi assistida por 194.063 torcedores nas arquibancadas, público recorde de um jogo entre clubes do Maracanã e do mundo. … O Flamengo chegou à final jogando pelo empate, e o Tricolor pela vitória”
      O Problema nunca vai ser torcedor pra lotar o estádio, pode se fazer um estádio do tamanho que quiser, o problema é ter bom senso nos preços dos ingressos, tornar o estádio um lugar habitual, coisa que as diretorias Flamenguistas deixaram de fazer.

      • Aqueles eram outros tempos… &;-D

    • Sou obrigado a concordar contigo.

      Mas a culpa não é da torcida, e sim do pensamento elitista da nossa diretoria.

      Sócio-torcedor só quer ir no filé-mignon, e o ingresso caro impede o torcedor “comum” de comparecer com frequência. No fim das contas é isso que estamos vendo na Ilha do Urubu.

      • Ja era essa taxa de ocupação antes da reforma do maraca. Só olhar a media de publico.

        2007 com aquela arrancada. Media de publico 27 mil.

        Falam muito do que sonham, não do que acontecia.

        • O time era um dos piores do campeonato e passou o primeiro turno inteiro e mais a metade do segundo lutando pra não cair. Claro que a torcida não foi em peso.

          Quando o time começou a se comprometer e teve aquela simbiose entre clube e torcida na arrancada final, a média era de quase 80 mil.

          No fim das contas juntando todo o campeonato claro que a média vai dar bem menos que isso, que aliás nem é das mais baixas, tendo em vista o padrão brasileiro.

          O problema agora é outro, é o valor do ingresso.

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