O forte calor, o regulamento do campeonato que praticamente assegura os dois rivais na próxima fase: vários eram os fatores que convidavam a um jogo de mais precauções do que ousadias. Evitar o dano moral de uma derrota em início de caminhada parecia argumento mais atraente para Vasco e Flamengo. Assim transcorreu boa parte do clássico. O Vasco se permitiu uma dose a mais de atrevimento. Mas não venceu apenas por isso. Construiu um predomínio tático que lhe permitiu acreditar na vitória. Era quem, de fato, buscava o gol, que veio no minuto final, com Rafael Vaz.
Desta vez o combustível pode ter sido a casa, o estádio com 90% de torcedores a favor. Mas a maior vibração vascaína faz parecer que, ao menos no confronto com o Flamengo, 2016 é uma continuação de 2015. É como se, nos últimos tempos, em São Januário se respire o clássico de forma diferente, como ocasião especial que, de fato, é. E lá se vão sete jogos sem perder.
Ocorre que explicar toda a construção do resultado pela pulsação dos times beira o reducionismo. E o Vasco foi muito além de querer mais o gol do que o Flamengo. Teve ligeira superioridade no primeiro tempo e controle do jogo no segundo. Foi melhor time. Nem contou com soberbas atuações de seus atacantes, Riascos e Jorge Henrique. Mas estabeleceu seu domínio a partir do meio-campo, onde teve mais ordem.
A receita passou por bloquear com competência a saída de bola do adversário. Marcou Márcio Araújo e Willian Arão, entregou a bola a Wallace e viu o rubro-negro se cansar de errar passes ao sair jogando. Com Mancuello posicionado mais à frente no início das jogadas, as opções de passe se reduziam. A bola ficava pouco tempo longe do campo rubro-negro. Para completar, quando tinham a oportunidade de jogar, Arão e Araújo o faziam mal. Era um time sem transição para o ataque, um jogo que não fluía. Aquele Flamengo que parecia evoluir não deu as caras.
O Vasco não produzia chances em série, não protagonizava um massacre. Não foi jogo para tanto. Mas elaborava mais jogadas. Embora lhe falte dinâmica, Julio dos Santos é bom passador. E Andrezinho fazia bom jogo na organização desde a intermediária. A entrada de Marcelo Mattos deu mais conforto aos dois, que encontravam na flutuação de Nenê um elo para que a bola chegasse à frente.
Aliás, a movimentação do Vasco contrariava uma expectativa criada com a opção por Mattos. Embora compensasse a ausência de um típico “camisa 5” nos últimos jogos, temia-se que sua utilização tirasse saúde do time: o Vasco começou o jogo com sete de jogadores de linha acima dos 30 anos. Mas foi o time que chegou perto do gol em jogadas tramadas. Havia mais repertório. Nenê buscou a esquerda para cruzar e Julio dos Santos quase marcar; pela direita, Riascos achou Madson, que parou em Paulo Victor; pelo centro, Nenê aproveitou erro de Juan e perdeu boa chance. A maior ameaça do Flamengo veio em cabeçada de Sheik após bola parada.
Curioso que, no segundo tempo, diante de um Flamengo mais inofensivo, o Vasco finalizou menos. Pesava o calor, o cansaço. Parecia jogo de zero a zero. Mas Jorginho foi colocando cartas na mesa: primeiro Éder Luís, depois Thalles. Nada revolucionário, trocou a dupla de ataque, mas faltava certa contundência. O Flamengo, que acabou o jogo com só uma substituição feita, parecia aguardar que uma bola de contragolpe caísse do céu. O Vasco, ao menos, tentava jogar no campo rival, parecia ter mais pressa, um pouco mais de urgência. Não que se atirasse ao ataque como se não houvesse amanhã. Até que um improvável personagem surgiu. De novo na bola alta, Rafael Vaz, que entrara dez minutos antes, aproveitou uma sobra aos 45 do segundo tempo.
Fonte: CEM
