Ultimamente tem sido extremamente difícil acompanhar os jogos do Mais Querido do Brasil. O time continua sensacional, bonito mesmo de ser ver todo engalanado com as cores e as armas do Flamengo. Mas o futebol apresentado pela rapaziada não está empolgando a torcida mais importante do Brasil. O time simplesmente não dá em bola, o jogo não flui. E vou logo avisando que não vou desperdiçar o tempo de sua visita me estendendo sobre esse ou aquele jogador.
Se o seu craque preferido ainda está no banco ou seu o seu jogador mais odiado ainda está entrando em campo pra esburacar o gramado recomendo que segure a sua onda. É evidente que ninguém melhor que o Muricy, que dá treino todo dia pros caras, para saber quem é que deve ser titular na bagaça. Não vai ser você, que se mantém à distância segura no sofazão, aferrado às suas simpatias e antipatias, que vai convencer a alguém que seilaquenzinho está em um melhor momento que sicraninho. Para com isso, deixa os caras jogarem.
Além do mais vocês já sabem que falar dos outros é assunto pros que tem mente pequena, as mentes medianas discutem eventos e as grandes mentes discutem conceitos. Por isso mesmo nem vou falar do Fla-Flu do Pacaembu, um 0x0 muito do vagabundo. Sem querer puxar o saco de vocês, mas já puxando, creio que temos diante de nós uma importante questão conceitual a debater. O Flamengo Nacional.
Por uma questão de honestidade intelectual não podemos entender o Flamengo como o único time nacional do país apenas na hora em que nos é conveniente. Na hora de receber a cota de TV, mandar jogos em Manaus, São Paulo, Cariacica e Aracaju todo mundo gosta de bater a mão no peito e exibir os estádios abarrotados de gente bem vestida. O Flamengo é mesmo uma força da natureza, um agente do desenvolvimento econômico, o traço de união que reforça a identidade de um país de dimensões continentais. Mas só quando não perde ponto pra time pequeno, o que vem se repetindo com monótona regularidade em 2016 nas mais diversas praças do país.
Nessas horas o cristal se quebra e foda-se o time nacional. O Flamengo precisa ser miúdo e jogar em sua casa, um estádio próprio de preferencia, para não abrir mão da vantagem técnica de jogar em casa. Porra, como me enfurece esse discurso. Enfurece por ser mesquinho, de visão curta, por ser um discurso vascaíno, enfim. E pior ainda são os filhotes desse discurso bacalhau; as desculpas esfarrapadas de que o time não jogou bem porque viajou. Não mete essa! E os times que jogam a Libertadores, como eles fazem? Pedem pra jogar todas em casa? Se você tem usado esse paupérrimo argumento pra fazer valer suas posições, só lamento.
Sem ufanismos, amigos, mas até os cegos conseguem enxergar que o Rio de Janeiro não mais é capaz de comportar o Flamengo. Nem mesmo quando Maracanã, Engenhão e Caio Martins estão abertos e operacionais. O Flamengo, sem qualquer exagero, não cabe mais no Rio de Janeiro. Exigir que o Flamengo restrinja suas aparições às estreitas divisas do Estado do Rio é uma falta de visão, e uma crueldade equivalente à obrigar o seu filho, que calça 37, a usar sapatos 36. Não basta ser pai, tem que participar.
E participar, para o rubro-negro de raiz, significa escolher sempre o que for melhor para o Mengão, ainda que possa estar prejudicando a seus próprios interesses. Que é exatamente o sacrifício que se pede ao torcedor rubro-negro carioca. É preciso que, enquanto agimos localmente, sendo a alma do Flamengo e estando a seu lado em qualquer situação, pensemos globalmente e entendamos, de uma vez por todas, que o Flamengo é do Brasil. Ou para ser mais exato, que o Flamengo pertence ao mundo.
O Flamengo tem coração de leão, mas a alma é de passarinho. Um passarinho muito grande para que o criemos preso à uma gaiola. Precisamos incentivar o Flamengo à abrir suas asas, conquistar o mundo e espalhar a nossa doutrina onde quer que ele vá. Altruísmo, solidariedade, generosidade, é isso que o Flamengo mais precisa receber de seus torcedores.
Não só dos torcedores cariocas, mas dos de todo o país. Para que isso aconteça é preciso que o Flamengo encare as suas caravanas rolideis com a consciência de que pertence a todo o país e que a torcida carioca, em tese a maior prejudicada com a hégira rubro-negra, abençoa e apoia esse Flamengo missionário.
Nossos 40 milhões de torcedores comprovam o fato de que é melhor ser Flamengo vendo o jogo na TV do que ser qualquer outra coisa vendo o jogo em seu estádio próprio. Só falta a gente (me incluo no bolo dos retrógrados só pra não pagar de diferentão) entender e aceitar essa realidade. Assim como cartolada, comissão técnica e jogadores tem que aprender a jogar fora, porque o Flamengo joga sempre em casa, nós, torcedores cariocas, temos que aprender a dividir o Flamengo com nossos irmãos do Mundo.
Só agindo assim seremos capazes de conquistá-lo.
Mengão Sempre
Arthur Muhlenberg
Fonte: República Paz & Amor
