As estatísticas de público do Campeonato Carioca são desalentadoras. A média pouco ultrapassa a marca de 2.300 pessoas. Isso dá uma irrisória taxa de 8% de ocupação dos estádios. O total de torcedores presentes aos cinco jogos de maior bilheteria em 2014 (cerca de 69,5 mil) não encheria o Maracanã (capacidade em torno de 76 mil), longe de outros tempos de frequentes arquibancadas lotadas. Este ano, potências do futebol brasileiro se apresentaram para menos de 500 pessoas; num emblemático jogo (Flamengo x Botafogo), o clube de maior torcida do país disputava o título da Taça Guanabara — o primeiro turno da competição — diante de um público de pouco mais de 10 mil pessoas.
Esse perfil de público não é fenômeno recente: já há alguns anos o campeonato é uma competição deficitária, pouco atraente para os clubes e que vem afastando os torcedores dos estádios. Tampouco as minguadas rendas são prerrogativa do Rio: em São Paulo, por exemplo, outra praça de grandes potências do futebol brasileiro, o campeonato tem média em torno de 5 mil torcedores.
Não se pode atribuir o raquitismo de público a desinteresse do torcedor: levantamento recente da Ferj, a federação do Rio, mostra que, na TV, a audiência média do campeonato carioca, de 42%, equivale à da Copa Libertadores da América (44%), a mais importante competição do futebol do continente (em São Paulo, 43%).
Pelo menos no caso específico do Rio, os números revelam que o problema está menos no conteúdo (a qualidade dos jogos) que na forma (os modelos adotados pela Ferj para o campeonato, eventualmente distintos de ano para ano, mas, na essência, similares em suas características deficitárias). A conclusão é óbvia: a federação patrocina uma competição ruinosa, que precisa passar por uma reformulação ampla, levando em conta as necessidades dos clubes e dos torcedores, em vez de interesses cartoriais e políticos de cartolas.
À luz desses interesses desvenda-se por que a Ferj aumentou para 16 o total de participantes do campeonato, tornando ainda mais deficitária a competição. Vale lembrar que, diante do fracasso de público, a entidade até tentou voltar à fórmula anterior com menos equipes, mas a ideia morreu, bombardeada pelos chamados pequenos clubes, que têm mais votos que os grandes. Nesse modelo está outro fator que joga contra a modernização do campeonato. O peso dos votos individuais dos quatro grandes clubes do Rio é igual ao de agremiações sem qualquer expressão, uma anômala base eleitoral que cimenta o poder do presidente da Ferj. De qualquer forma, diante de mais uma edição ruinosa, a federação admite rever conceitos e rediscutir o modelo para os próximos anos.
Que seja o início de um novo tempo para o futebol do Rio, com uma competição mais enxuta, adequada a um calendário no qual os clube tenham mais tempo de se preparar para a temporada, que reconquiste o torcedor e que também atenda a reivindicações dos jogadores, como tem sido feito por suas associações representativas.
Fonte: O Globo

