Marcio Braga completa 80 anos neste sábado. Longe do “acabou o dinheiro”, frase que virou febre na internet, da crise brasileira e do seu próprio time, o presidente mais vitorioso da história do Flamengo embarcou para os EUA. Mais precisamente, há mais de uma semana, curte a “maravilhosa Nova York”, como disse por mensagem de celular ao topar atender o GloboEsporte.com. Viajando para comemorar as oito décadas de vida, ele falou, como de costume, de tudo e de todos.
Em 30 minutos falou de Flamengo, da CBF, lembrou brigas com a CBF e desafetos que vão de Eurico a Rubinho. E não falou só do Rubro-Negro. Escalou o “Expresso da Vitória” do Vasco, lembrou de times históricos do Botafogo e foi dos elogios à geração que chegou ao poder, que organiza o clube financeiramente, às duras críticas ao futebol da administração Bandeira. Revela que se oferece para ajudar, mas diz que não lhe dão atenção. Vê empáfia nos pares de Bandeira e coloca o “picareta e estelionatário” Edmundo Santos Silva na frente, em termos de futebol, da atual gestão. Confira abaixo a entrevista dos 80 anos de Marcio Braga:
GloboEsporte.com: Como está aos 80 anos, comemorando aniversário em Nova York?
Márcio Braga: Estou bem, numa cidade que eu adoro, que é Nova York. No mundo existem duas cidades que eu adoro: Rio de Janeiro e Nova York. O resto é periferia na minha opinião. Vim comemorar meus 80 anos nessa cidade que eu adoro. São 40 anos de Flamengo, 59 de cartório, de tabelião na cidade do Rio de Janeiro e me sinto muito bem, muito forte, muito feliz e sentindo-me não com a missão cumprida. Ao contrário, trabalhei bem, mas ainda faltam mais 80 anos para completar todos os meus desejos.
Você apoiou o Bandeira. Não vê ninguém lá dentro com essa capacidade?
Eu acho tem dois que são dois aviões, dois excepcionais. O Flavio Godinho e o Bap (Luiz Eduardo Baptista, vice de marketing no início do primeiro mandato de Bandeira). Agora eu não sei o que está acontecendo com o Godinho que ele não está conseguindo impor uma filosofia de aproximação, de convivência, como estou dizendo, porque futebol é isso. Não me resta dúvida de que falta isso. Veja o caso do Leicester, que foi campeão da Inglaterra. Grupo de investimento baixo, para não cair para a Segunda Divisão, que ganhou daqueles papões todos. O artilheiro desse time trabalha durante a semana como pedreiro.
Como é essa relação com a diretoria. Eles te consultam neste momento de crise? Não, consultado eu não sou.
Mas você liga para dar pitaco?
De vez em quando, para dizer a verdade, eu ligo. Mas muito pouco, porque eu vejo que eles não gostam.
Para quem, para o próprio Bandeira?
Para o Bandeira também, mas os que estão lá não gostam.
Por que sentem que é intromissão de um ex-presidente, que já passou o tempo?
Deve ser isso. Não me convidam, já me insinuei para ir a reunião, para ir ao Ninho do Urubu. “Ah, vou convidar, vamos achar uma data para você ir lá”, nunca marcaram data. Não conheço, não conheço… Se passar esse supervisor de futebol do meu lado não sei quem é.
Supervisor? Você fala do Rodrigo Caetano?
Isso, esse, nunca vi. Nunca conversei. Então essa é uma situação realmente incômoda. Mas continuamos torcendo, não é por isso que deixamos de torcer. E ficam comparando, sabe. Outro dia estava na mesa com o pessoal do Flamengo, que me acompanhou da última vez no clube: sob esse aspecto, do futebol, aquele estelionatário do Edmundo Santos Silva foi melhor no futebol. Foi tricampeão. (Edmundo é) um picareta, um estelionatário. Entrou no Flamengo, fez acordo com aquela ISL, entraram US$ 80 milhões, saíram US$ 80 milhões, e o Flamengo ficou devendo isso e quebrado. Mas foi campeão, ganhava os jogos.
Lá atrás você sempre dizia, numa das suas frases que ficaram famosas, que prefere um “malandro inteligente a um burro honesto”…
É isso mesmo. No futebol? Não tenha dúvida.
Acha que não transitam bem, por terem chegado no futebol tem pouco tempo?
Não sei se é só isso, não. Acho que tem muito de empáfia, soberba. Eles se acham o máximo. Mesmo o Bap. O Flavio Godinho não tanto, ele tem mais política no sangue do que os outros. Eles acham que sabem tudo, que os outros não sabem nada, que o que passou lá antes é coisa ruim. E é por isso que não ganham. Vejam o presidente, que é um homem mais consciencioso, humilde, mas deixou a vaidade subir pela cabeça. Ser chefe da delegação da Seleção num momento de crise no futebol do Flamengo. O que que ele fez no futebol do Flamengo que merecesse ser chefe de uma seleção em crise? Ele contornou as crises do Flamengo? Vai contornar as crises da Seleção? Ou ele está indo para a vaidade dele? O que a CBF fez pelo Flamengo e pelo futebol brasileiro que justificasse isso? (Bandeira) Ao invés de ter posição crítica, forte. Como essa situação que a gente reclama há 30 anos, dessa roubalheira, corrupção, dos prejuízos que trazem ao Flamengo. Ou seja, é uma irresponsabilidade, com toda empáfia, toda soberba. No fundo é um boboca.
Do Rubinho é pelo artigo no “O Globo” deste início de ano. Do Eurico é por qual motivo?
Alguma afirmação mais enfática que eu terei feito. Não sei nem dizer qual.
É aquela que você fala que a disputa pelo Leandro Amaral, do Eurico, presidente do Vasco, e Horcades, na época do Fluminense, era “briga de quadrilha”? (Nota da redação: depois, Marcio Braga se retratou aos dois clubes e também aos dirigentes)
Acho que não foi isso não. Depois disso teve uma outra que eu falei que ele era líder da podridão no futebol. Alguma coisa por aí. Não usei essa palavra, acho que disse que ele era “a liderança das coisas ruins do futebol”. Por aí. Bati pesado. Eu reconheço que bati pesado. Mas é verdade. O Rubinho está me processando pelo artigo, mas o original era mais contundente. O (Aluizio) Maranhão (editor de Opinião) do “O Globo” ligou para mim e disse: “Marcio, você escreveu com o fígado. Agora repassa isso daí pela cabeça.” Era mais pesado (o artigo). Mas o que essa gente merece, meu Deus do céu? Essa gente não merece respeito, não merece atenção. Por isso você não pode chefiar a delegação da seleção brasileira. O Flamengo aonde vai é muito poderoso, muito forte, uma representatividade enorme na nação. Então como é que você coloca toda essa história do Flamengo nisso? Se juntar eles todos, não dá o Flamengo. A verdade é essa. Não pensa que isso foi feito de uma cabeça pensante, que se tornou nessa força toda. Não, é a força popular, dessa gente toda, até da gente mais humilde, que transformaram a grandeza do Flamengo. Como você coloca em jogo isso tudo e vai chefiar a delegação do Brasil? Que não é do Brasil, é da CBF desmoralizada pela corrupção, pelas ações mais baixas. Você vai juntar o Flamengo nisso? Chega às raias da irresponsabilidade. É inadmissível, inaceitável.
Vamos para o futebol. Como torcedor e dirigente qual o maior adversário do Marcio Braga, o que mais gostava de vencer, o que mais te incomodou?
Ah, é o Vasco. O grande adversário do Flamengo é o Vasco. Houve momentos que era o Botafogo. Mas em 1945, 1946, eu tinha 10 anos, 1947, 11 anos. O Flamengo passou 10 anos sem ganhar do Vasco. 1947, 1948, 1949, 1950, 1951, 1952 e só veio a vencer em 1953, quando começamos o tricampeonato. E ganhamos do Vasco. O Vasco tinha um timaço. Era o “Expresso da Vitória”. O de aspirantes chamavam de “Expressinho”. Vasco jogava com Barbosa, Augusto e Rafanelli; Eli, Danilo e Jorge; Maneca, Ipojucã, Ademir, Chico e na ponta-direita Tesourinha. Veio do Inter para a Seleção e foi para o Vasco. Tivemos três grandes pontas-direitas na história: o Tesourinha, o Julinho Botelho, do Palmeiras, e o Garrincha. Tesourinha era um avião, mas em 1953, 1954 e 1955 botamos essa história para baixo. E depois eu, como presidente do Flamengo, botei eles de vice. Passaram sete anos sem ganhar do Flamengo uma decisão. Outro que gostei de vencer foi o Botafogo. Me elegi em 1977. Nos anos 1970 o Manga (ex-goleiro) dizia que quando tinha jogo com o Flamengo, no começo da semana, ele ia à feira antes, porque tinha o bicho garantido. Já ia gastar por conta. E realmente o Botafogo era outro timaço, com Garrincha, Amarildo, Nilton Santos etc etc etc. Aliás, era o time do meu pai. Eu só assistia jogo antes de 1950, antes do advento do Maracanã, com o meu pai. Via esse time de perto. Tinha o Carlito Rocha, um dirigente maravilhoso, numa época de futebol romântico. Carlito era amigo do meu pai. Mandava chamar o Neném Prancha, treinador: “Ô, Neném, vê se a cortina da minha sala está fechada”. Era quando o Botafogo estava jogando mal, perdendo. A cortina tinha importância enorme (risos).
Você sabia que a sua frase “acabou o dinheiro” ficou famosa na internet?
Sabia, sabia. Aqueles meninos da ginástica, que acabaram ganhando mais do que os campeões mundiais, queriam ganhar o que não era possível ganhar. Era impossível continuar sustentando com dinheiro do futebol o esporte olímpico do Flamengo. Sem nenhuma ajuda da confederação ou do comitê olímpico. Eu falei: “Acabou o dinheiro, vão arranjar (dinheiro) em outro lugar”. Mas cinco, seis anos depois, conseguimos resolver.
Tem algum time preferido na história do Flamengo, um de todos os tempos?
Não, não. No meu time entra o Zizinho, o Zico. Agora, tivemos grandes jogadores. Esses dois são simbólicos como jogadores de futebol. Agora, sem sombra de dúvida tem Junior, Leandro, quem mais…
Do Romário você gostava?
Romário? Romário é um puta jogador, grande centroavante, mas é Flamengo? Estou falando de rubro-negro de sangue, como Andrade, Adílio, aquele beque maravilhoso que marcou o gol da minha vida, o de 1978, Rondinelli.
Para terminar. Você gosta do Muricy, do jeito dele, bem paulistão no futebol do Flamengo?
Não sou contra nem a favor. Tem que ganhar. Se não ganhar, vai rodar. Seja paulista, gaúcho, pernambucano, paranaense… Tem que ganhar. Flamengo tem compromisso com a vitória.
E o presente, além da vitória que você quer contra o Sport, é o título brasileiro?
Ah, o melhor presente para mim é a vitória amanhã. Se me derem de presente ser campeão brasileiro, seria o melhor presente que eu podia receber na minha vida.
Fonte: GE

Um dos ícones rubro-negros. Márcio Braga, com seus erros e acertos, está na história do Flamengo.
Presidente mais vencedor, mais carismático, melhor corte de cabelo kkkkk!
Infelizmente também muito amador, deixou suas administrações nas mãos de pessoas inescrupulosas, mas sempre pensou no Flamengo. Me arrisco a dizer que é o mais rubro-negro vivo.
Entre erros e acertos é um dos grandes na história do Flamengo.
De todos os antigos presidentes da história recente, com certeza o Márcio Braga é o melhor deles. Fico muito revoltado quando o colocam na mesma cesta que Kleber Leite, Edmundo Santos Silva e Patrícia Amorim.
Isso que ele falou do dirigente ‘amador’ ser mais presente, eu concordo totalmente.
Jogador não tem tanto medo de Diretor de futebol e técnico, justamente porque eles também são funcionários, podem rodar a qualquer momento. Até mais que jogador.
Agora, um cara do nível institucional do clube, o VP de futebol, VP geral, ou o próprio presidente, ele não é funcionário. O jogador vai pensar duas vezes antes de dar as costas para ele.
Você tem toda razão Edson Leal, fico triste quando esses torcedores modinhas de hoje falam um monte de besteira na internet, sem conhecer de verdade a história dele. São mero repetidores de assuntos que não conhecem. Márcio Braga foi, até esta gestão atual, o melhor presidente do Flamengo. Essa coisa de coloca-lo no mesmo grupo de Edmundo Santos Silva, Kleber Leite e Patrícia Amorim é coisa de quem, de fato, não sabe o que fala. Na verdade, ele não acumulou qualquer dívida significativa. Muito pelo contrário, se sopesarmos os títulos e projeção do clube na sua era veremos que o custo benefício foi enorme. É claro que nem sempre ele está com razão. Não concordo com tudo o que ele diz, mas, certamente deveria ser ouvido, principalmente no futebol, pela sua experiência e trajetória vitoriosa. Saudações Rubro Negras.