O início de temporada no futebol brasileiro pouco empolga os torcedores de muitos clubes. Os seis clubes que jogam a Libertadores dão pouca importância aos estaduais, que registram média baixa de público. Até o Inter, que não joga o torneio continental em 2014, tem poupado os titulares. Os paulistas, o Fluminense e o Vasco são as exceções, porque não disputam outra competição e devem satisfações a seus torcedores. A culpa pela crise, em boa parte, é do extenso e cansativo calendário do futebol nacional, segundo especialistas em preparação física ouvidos pelo iG.
“Os times têm feito de 70 a 80 jogos por ano, muito acima do adequado. Isso ultrapassa uma cota de racionalidade. A redução seria benéfica para todo mundo, até para a qualidade do espetáculo”, diz Turíbio Leite de Barros, fisiologista que trabalhou no São Paulo por 25 anos e que foi um dos idealizadores do Reffis, centro de reabilitação de atletas do clube do Morumbi.
“Existe um número maior de jogos do que deveria existir, principalmente quando se pensa em clubes que disputam competições mais importantes, como Libertadores e Sul-Americana”, reforça o fisiologista.
Em 2013, o time que mais entrou em campo foi o São Paulo, que realizou 79 partidas. Para efeito de comparação, o Bayern de Munique, campeão de todas as competições que disputou na última temporada europeia, atuou apenas 55 vezes. É verdade que a Alemanha tem um calendário menos pesado que os demais países da Europa, já que a liga nacional lá conta com 34 rodadas — quatro a menos do que a inglesa, a espanhola e a italiana. Mas o Chelsea, por exemplo, fez 69 jogos na temporada 2012/13 valendo oito troféus — incluindo a Liga Europa, que acabou conquistando, o Mundial de Clubes, o Campeonato Inglês e duas copas nacionais.
O excesso de datas no futebol brasileiro, especialmente nos primeiros meses do ano, é um inimigo do condicionamento dos jogadores. “O grande problema por aqui é o pouco tempo de pré-temporada, que é de 15 a 18 dias”, aponta Fábio Mahseredjian, preparador físico do Grêmio, mas que também já trabalhou em Corinthians, São Paulo, Bragantino, Santos, Vasco, Flamengo, Palmeiras, Fluminense e Internacional. “Isso impossibilita fortalecer adequadamente os atletas para eles aguentarem o longo calendário.”
Chefe do Laboratório de Patologia Neuromuscular da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), o médico Beny Schmidt entende que um calendário mais enxuto é necessidade imediata. Ele se diz aliado do Bom Senso FC, grupo de atletas que cobra da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) uma evolução nesse sentido.
“É de extremo bom tom o Bom Senso FC começar a colocar os dirigentes contra a parede”, afirma Schmidt. “Para que coloquem limite na quantidade de partidas dos jogadores e para que eles sejam respeitados como atletas e seres humanos”, completa o médico, que realizou trabalhos de prevenção com Valdivia, meia do Palmeiras, e Alexandre Pato, atacante do São Paulo.
Mahseredjian concorda que um limite se faz necessário para que os jogadores possam se recuperar da melhor maneira possível entre uma partida e outra na temporada. “Existe um estudo que aponta que a chance de um atleta que atua duas vezes por semana sofrer uma lesão aumenta de cinco a seis vezes em relação àquele que joga uma vez só”, relata o preparador físico gremista. “Há uma sequência muito grande na temporada de jogos no meio e no final de semana. Esse excesso, sem a possibilidade de ter uma semana cheia para trabalhar, vai acabar ocasionando lesões”.
Na atual temporada, a parada para a disputa da Copa do Mundo pode servir de alento, já que os atletas terão um mês para descansar e recuperar o condicionamento. Em 2015, porém, tudo volta ao normal. E aí, sem uma profunda mudança no calendário, a tendência é que se repita a monotonia desses primeiros meses de 2014.
Fonte: IG

