Além de Roberto Carlos, Sávio foi o único brasileiro a conquistar três Ligas dos Campeões. Ao lado do camisa 3, o Anjo Louro que foi mais da Espanha do que da Gávea em sua carreira chegou ao topo do mundo pelo Real Madrid. Nesta quinta-feira, dia nove de janeiro de 2014, Sávio completa 40 anos de idade e o Esporte Interativo conversou de maneira exclusiva com o camisa 11 ou 10, depende do clube e ano da sua carreira, para relembrar alguns dos maiores momentos do seu futebol pelo velho continente, onde as maiores glórias foram conquistadas.
Nascido em Vila Velha, no Espírito Santo, Sávio começou sua carreira na divisões de base da Desportiva Capixaba. A passagem foi curta. Aos 14 anos de idade, os dribles do habilidoso e rápido canhotinha foram para a forma do Flamengo. Chamado de novo Zico, Sávio tornou-se o Anjo Louro da Gávea, formou o ataque dos sonhos ao lado de Edmundo e Romário em 1995. O trio não surtiu o efeito desejado, mas Sávio continuava em grande forma. Em 96 levou o Carioca, seu primeiro título depois de realmente ser efetivado no time profissional. No ano seguinte, Sávio liderou o time na campanha do vice-campeonato da Copa do Brasil. No agregado da decisão, 2 a 2, mas os gols fora de casa tiraram o título do Anjo Louro, que jogou muito durante toda a competição.
O Real Madrid não teve dúvidas. Ofereceu muito dinheiro e levou o camisa 10 da Gávea, que na época passou a despertar interesse de outros clubes, como o Valencia. No Santiago Bernabeu, três Ligas dos Campeões, um Campeonato Espanhol, uma Supercopa da UEFA, uma Supercopa da Espanha e um Mundial de Clubes sobre o Vasco da Gama. Quer mais?
Esporte Interativo (Otavio Rodrigues): Como foi chegar ao Real Madrid e dar logo de cara com jogadores como Raúl, Suker, Roberto Carlos, Hierro, Seedorf?
– Cara, parece mentira, mas eu digo para todo mundo. Foi uma das coisas mais fáceis da minha vida. Cheguei lá muito novo, um frio desgraçado, não entendia a língua e deu tudo certo. Todos me acolheram muito bem e o time era ótimo, sabiam fazer o simples. Fazendo o simples fica tudo mais fácil. O simples é a genialidade. Logo eu me encaixei, comecei a jogar e estava ao lado deles. Tem uma coisa também que lá no Real ficava bem claro. Com vários craques, não tinha problema dentro da equipe. Todos eram unidos e jogavam pelo Real Madrid. O principal objetivo era o Real, eles não jogavam para eles próprios. Algo que não existia no Flamengo, por exemplo, em 1995. A vaidade falava mais alto. O Flamengo ficava em um plano secundário.
EI: Nesses seis anos de Real Madrid, de 1997 a 2003, qual destes grandes jogadores e outros como Zidane, Figo, que você teve oportunidade de jogar ao seu lado, que foi o melhor que você viu, tecnicamente falando?
– Foi o Zidane (risos). Ele era o melhor em tudo o que fazia. Seja no campo, fora dele, na parte psicológica, me deu muitos conselhos. Um fora de série. Mas tinha também o Raúl, que tinha um faro de artilheiro enorme, o Figo que jogava muita bola, o Roberto Carlos, Fernando Redondo, Suker, Mijatovic Morientes, Seedorf, que além de jogar muita bola foi muito importante na minha adaptação, sempre foi gente boa.
EI: Sávio, você já declarou que o título de 2000 da Liga dos Campeões pelo Real Madrid é o que você guarda com mais carinho. Foi o jogo no qual você dá assistência para o Raúl e sela o título em cima do Valencia. Foram poucos minutos em campo, mas minutos importantes. Entretanto, qual jogo você classificaria como o mais importante pelo Real Madrid, o jogo no qual você teve sua melhor exibição?
– Esse foi um dos grandes jogos, porque entrei e logo dei o passe para o Raúl fazer o terceiro gol contra o Valencia. Mas tiveram outros bons jogos, importantes. É difícil definir um. Na semifinal contra o Bayern, perdíamos por 1 a 0. Fiz uma jogada pela esquerda e dei uma assistência para o Anelka. O Bayern ainda reagiu, mas aquele gol do Anelka com o meu passe minou as chances de classificações e avançamos a final. Teve ainda uma partida contra a Inter de Milão, do Ronaldo, que eu joguei muito. Teve um clássico contra o Atlético de Madrid, o meu primeiro, no qual joguei muito.
EI: Poderia nos contar qual foi seu gol mais bonito em solo Europeu?
– Teve um gol nessa Liga dos Campeões (1999/00), contra o Rosenborg, que foi um dos gols mais bonitos que fiz. Eu limpo a marcação, tabelo com o Raúl e mando no ângulo. Foi bem bonito. É um dos que consigo lembrar (risos).
EI: Acredita que o Real Madrid pode enfim conquistar o sonho de ter a décima Liga dos Campeões em sua sala de troféus?
– É possível, vamos ver se agora vai né? O clube já está há mais de 10 anos sem ganhar a Liga. O time é bom e com o Cristiano Ronaldo em campo tem muitas chances. É difícil cravar isso, porque times como Barcelona e Bayern de Munique ainda estão na disputa, mas é bem possível. Vamos torcer.
EI: Os problemas internos dentro do Flamengo foram providenciais para sua saída ou o desejo de jogar pelo Real Madrid era mais forte?
– Teve de tudo um pouco. A proposta para o Flamengo foi muito boa, era muito dinheiro. E para mim também, a proposta que o Real me fez era muito superior ao que eu recebia na Gávea. Então financeiramente era bom para os dois. Eu não tinha problemas como ninguém do clube. Cresci no Flamengo, conhecia todos os funcionários, me dava bem com os jogadores. Os problemas que tinha era com a diretoria, a má gestão que é histórica no clube.
EI: Falam que você teve problemas com o Romário naquela época, em 97, e isso o teria feito sair do Flamengo. É verdade?
– Não, não. Nunca tive problemas com o Romário. Só discuti com ele uma vez em um torneio amistoso no Japão. Meu problema no clube era com a diretoria mesmo.
EI: Aquele amistoso entre Flamengo e Real Madrid no qual você venceu fazendo o último gol dos três a zero (Maurinho e Lúcio fizeram os dois primeiros gols, respectivamente) foi providencial para sua saída do Fla para a Espanha?
– Acredito que sim, apesar das sondagens terem começado antes. Foram dois torneios amistosos na Espanha que fizemos e em dois jogos, um deles contra o Real Madrid, no qual fiz esse gol, e em outro com o Valencia que também joguei muito bem. Os amistosos foram lá. O Real então saiu na frente de outros clubes que fizeram propostas por mim e eu fui.
EI: Você como crítico ferrenho das históricas más gestões do Flamengo, o que está achando da atual diretoria, com um pensamento pés no chão, que não promete loucuras, por exemplo, para se reforçar para a Libertadores de 2014?
– Essa é a filosofia de trabalho. Já estava na hora. Os clubes do Brasil têm dívidas de milhões e a diretoria não pode cometer loucuras. Ela (a diretoria) tem que fazer o que pode pagar. Os clubes precisam manter uma ordem financeira. O Flamengo não pode mais repetir os erros do passado.
EI: As decisões da Copa do Rei e Supercopa da Espanha pelo Zaragoza não superam as importantes partidas pelo Real Madrid? Como foi deixar o Real e, depois de passar pelo Bordeaux, voltar à Espanha para um clube que como o Zaragoza, que está em outro escalão que não o do Real, que vive no topo?
– Olha, cara. As expectativas foram mais do que superadas. Foi maravilhoso. Chegar aos 29 anos e ser recebido da maneira como fui. Montamos uma família no Zaragoza e um bom time, uma família, que se entregava ao time. Além de mim tinha o brasileiro Álvaro, o Milito (zagueiro), depois chegou o irmão dele o Diego Milito, David Villa… Foi uma grande passagem e tivemos grandes jogos. Fomos campeões da Copa do Rei e da Supercopa da Espanha em cima do Real Madrid e ainda teve um vice. Outra partida importante foi contra o Alavés, na semifinal da campanha do título. Estávamos perdendo e fiz o gol, fora de casa, que garantiu o Zaragoza na decisão.
EI: Qual sua opinião sobre o prêmio da Bola de Ouro? Cristiano Ronaldo, Messi ou Ribéry merece ser o Melhor do Mundo em 2013?
– Sem dúvidas, é o Cristiano Ronaldo. O que o Cristiano Ronaldo fez nesse ano de 2013 pelo Real Madrid foi incrível. Acho que é indiscutível essa escolha. Todos nós sabemos que o Messi não pôde mostrar todo o seu futebol por causa das lesões e por isso ficou atrás do Cristiano. Também não podemos esquecer o que o Ribéry fez pelo Bayern de Munique, que ganhou tudo, mas se você for ver só o que o Cristiano fez o título de Melhor do Mundo é dele.
Fonte: Ei

