Ainda faltam 90 minutos de bola rolando, mas sem exercer o exercício ilegal da futurologia já posso dizer agora pra vocês qual o inimigo mais duro, muquirana e difícil de vencer que enfrentamos em toda a Copa do Brasil. Porque tenho certeza absoluta que foram as aparentemente intermináveis e excessivamente arrastadas 24 horas da terça-feira, também conhecida como 26 de novembro, o famoso ontem.
Meus irmãos e minhas irmãs, foi impressionante, o relógio simplesmente não andou durante o dia inteiro. Deliberadamente deixei pra resolver chatíssimas encrencas burocráticas durante o dia no fito de encher a linguiça em níveis industriais. Estratégia que se mostrou um completo fracasso, porque além de não conseguir resolver nada do que me propus quando saí de casa, para me descobrir uma completa decepção como office boy precisei de menos horas do que havia previsto. O dia foi só prejú.
À noite fui no Baixo encontrar a rapaziada da Confraria do Urublog pra beber chopp e comer pizza e foi muito maneiro. Achei muito legal conhecer pessoalmente os caras que eu só conhecia pelo nickname. Apesar da farofada que diariamente se promove na área de comentários, os caras se mostraram de alto nível. A musa Nivinha brotou por lá também e ainda levou uma amiga tão bonita que a gente quase não conversou. Ficou os cueca todo querendo se amostrar pras mina.
Mas tirando isso foi muito maneira a resenha, ainda por cima os caras eram tudo gente fina e pagaram minha birita e meu cigarro. O velho dístico “Onde encontrares um Flamengo encontrarás um irmão” comprovou sua validade eterna. É aquele negócio, se os maluco só se relacionassem com maluco iam chegar rapidamente à conclusão de que maluco são os outros. A Confraria do Urublog é sinistra.
Se coloquem no meu lugar. Ser convidado pelos caras que nem me conhecem pra beber e falar do Mengão na noite mais tensa do ano. Me deram muita moral. E tem mais, falar com nego de Brasília, Sorocaba, Cantagalo, Fortaleza, Urca e adjacências, todos naquela fuderosa vibe flamenga e com aquele olho rútilo de quem vai ser campeão, só reforçou a confiança no Mengão. Confiança que já não era pequena.
E agora estou aqui, amarradão, com menos de 22 horas pra preencher até o apito inicial da última partida que vale alguma coisa no ano. É muita emoção, amigos. Sei que pra qualquer pessoa normal 22 horas parece ser muito, mas pra quem vinha contando quase todo os 604.800 segundos que nos separavam do jogo na casa dos caras na quarta-feira passada, 22 horas, ou 79.200 meros segundos, é mixaria e vamos tirar de letra.
Falei em confiança no Mengão e acho importante explicar essa onda da confiança. Despi-la, desvenda-la, levantar o capô e mostrar como o mecanismo funciona. Não tem mistificação, meu chapa, pode ficar tranquilo que não vou apelar para o nosso opulento patrimônio imaterial. Vamos deixar a nossa velha caôzada canônica de Manto, Pais Fundadores, Destino Manifesto, Vencer, Vencer, Vencer e outras crendices às quais conferimos tamanha importância teológica que só as descrevemos usando maiúsculas, para um outro parágrafo mais perto do refrão (Seremos Campeões!).
É bastante complicado determinar com exatidão quando e onde fica a nascente da confiança. Não ousaria tanto. Mas é fato que ela brota, sem aviso prévio, no time ou na torcida e de um momento para outro começa a contaminar todo o sistema. E sem ter nada a ver com resultados obtidos em campo. A parada tem mais a ver com suor e entrega do que com sucesso esportivo.
É aquele jogador de eterna prega presa que de uma hora pra outra começa a ser mais incisivo, a entrar mais duro nas bolas, a arriscar mais e, aí que é bonito, a acertar mais. É o torcedor que não botava fé em nada além da medíocre permanência na Série A que começa a ter visões de glórias jamais sonhadas para o ano da grade faxina. E um torcedor confiante tem um incrível poder de contaminar outros torcedores. Quando você vê, os malucos estão alugando um ônibus e vindo de Catalão-GO, a maioria sem ingresso. Mas cheios de confiança.
E de repente, embalado nessa onda de confiança que nasceu pura e espontânea, e se auto alimenta, o elenco todo começa a mostrar pra torcida que a confiança entre eles também vigora. Percebe-se que existe um fechamento muito forte da rapaziada com o treinador, todos correm pelo tiozão. E essa confiança bonita se nota perfeitamente nas coberturas na defesa, nos passes nos pontos futuro no ataque e nas camisas empapadas de suor ao fim das partidas. O time se conhece, se gosta, todos correm por todos e confiam um no outro. Nessa hora não há torcedor que não se contagie.
E tem que contagiar mesmo, aqui é Flamengo, cacete! Nossa marra é fundamentada, é como aquele aviso que colocam em alguns livros e filmes: o bagulho é baseado em fatos reais! Nascemos com essa onda de ser campeão, fazer o quê? Aliás, a parada de ser campeão é séria demais, não vamos nem entrar nesse assunto porque seria maçante. O que eu tenho a dizer é muito mais grave, resumido e reconfortante.
Todos vocês viram que as coisas andam tão bem lá no Mengão antes da decisão que a arcoirizada está indócil. Tentaram desesperadamente forjar crises na Gávea como se o Flamengo fosse uma espécie de Suíça à beira da Lagoa. Como se lá no Flamengo não se vivesse em crise permanente desde que Alberto Borgerth mandou o Ground Comitee do Florminense plantar batatas e saiu da sala marchando com mais 9 heróis para fundar o futebol do Flamengo ao fim do Campeonato Carioca de 1911.
Como as crises criadas artificialmente não tiveram força para se impor sobre as nossas crises reais e cotidianas, que servimos no café da manhã da Gávea junto com o pãozinho na chapa, tentaram nos vender o medo. Para provocar o pânico entre nossa cascuda torcida a intelejumência arcoirista não conseguiu pensar em nada melhor que reviver ridículos tabus de calças curtas sem qualquer ressonância na vida real ou provocar disse-me-disses com lojistas e cambistas. Só conseguiram nos provocar risadas e promover o próprio descrédito.
Se querem falar de tabu me deixem falar de um tabu de verdade. Um Tabu com letra maiúscula, Tabu do tipo AAA. O Tabu do Flamengo com os Tricampeonatos. Vocês já devem ter reparado a forma harmônica, fluida e natural com que as palavras Flamengo e TRI se combinam. Parece que elas se atraem, se encaixam, são quase uma palavra só. Flamengo é Tri mesmo.
O Tri combina com a gente. Vejam como é a própria história que mostra que esse negocio de ser bi não combina com o Flamengo. Desde que Agustín Valido, um dos Pais da Nação, perfurou o gol da baranga defendido por Barqueta e consolidou nosso primeiro tricampeonato, que o Flamengo jamais perdeu uma oportunidade de abandonar a condição de bi campeão em troca da muito mais honrosa e casca grossa condição de ser TRI.
Foi assim com Valido em 44, com Dida em 55, com Zico em 79 e 83, com Petkovic em 2001 e com Klebérson (quase ninguém lembra) em 2009. Entendam, não temos nada contra, cada um com seu cada um e todos pelo Mengão, que vem provando desde 1895 que sabe ser plural. Mas essa parada aí de bi, definitivamente, não é a praia do Flamengo. Flamengo é TRI demais.
Pode conferir aí nas Wikipédia da vida ou nas suas próprias anotações, sempre que o cavalo do TRI passou selado na frente o Flamengo montou, amansou e doutrinou o bicho. Tá no sangue vermelho e preto. Sim, senhor. Isso sim que é um Tabu de verdade, com conteúdo, sólida base factual e antiguidade. O Mengão está há mais de 69 anos sem jamais ter perdido uma boa oportunidade pra faturar um tricampeonato. Tremei, arco-íris, tremei.
Quem também vai tremer todinho hoje à noite é o Maraca. A Magnética vai sacudir aquela velha casca histórica como nos velhos tempos do gigante de concreto que um dia foi o Maior do Mundo. Todos os rubro-negros do Brasil e do mundo, mortos e vivos, estarão hoje à noite no Maracanã. Digo todos porque não importa onde está o corpo e sim onde está a alma. E tenham certeza de que às 22:h50m de hoje não haverá no planeta sequer uma alma flamenga que não esteja no Maracanã.
Lá estaremos. Eu, você e todo mundo. Pra gritar outra vez Mengão Tricampeão!
Fonte: urublog

