Carlinhos assumiu o comando do Flamengo após a demissão de Antônio Lopes em 1987. Vinte e dois anos depois, o mesmo ocorreu com Andrade, que substituiu Cuca. Agora em 2013, foi a vez de Jayme de Almeida fazer o mesmo com a saída de Mano Menezes. O que as histórias têm em comum? Nas duas primeiras, os interinos levaram o time rubro-negro a um título nacional. A terceira ainda pode ser escrita a partir desta quarta, quando o tímido treinador começa a decidir a Copa do Brasil contra o Atlético-PR.
Choro, ‘sabão’ em Ibson e fama do pai; As histórias de Jayme.
A história joga a favor do Flamengo quando o assunto são técnicos interinos. Em todos os casos, os efetivados começaram de forma mansa, e aos poucos foram conquistando a massa rubro-negra até um título improvável. A coincidência parece que vem se repetindo com Jayme, um sujeito pacato que iniciou o trabalho na comissão técnica clube a partir de 2010 e há poucas semanas assumiu a função que era de Mano. E entre timidez, lágrimas, “sombra” da fama do pai e até um “sabão” em Ibson, foi conquistando seu espaço.
Fama de “tampão” na família
A diferença de Jayme para Carlinhos e Andrade, além do fato de que o primeiro ainda precisa vencer seu torneio nacional como treinador, é também a fama como jogador. A sombra do pai homônimo jamais foi boa para o filho, que nunca conseguiu como atleta repetir o inesquecível Jayme de Almeida, defensor rubro-negro nos anos 40 e 50, tetracampeão carioca, 342 partidas pelo clube e presença na Seleção por quatro anos.
O filho até conseguiu fazer lá sua fama. Defendeu o Flamengo em 194 partidas, com 110 vitórias, 49 empates e 35 derrotas. Fez um único gol – 30 a menos que seu pai. Venceu só o Campeonato Carioca pela agremiação de maior torcida no Rio de Janeiro. “O peso de ser como o pai nunca lhe desceu muito bem”, analisavam companheiros que jogaram com Jayme de Almeida nos anos 70.
O nome da família continuaria nas costas de Jayme Filho no futuro. Ao assumir o comando técnico do Flamengo, o passado do pai continuava assombrando o interino, já que o progenitor falhou na função de treinador. À frente do banco de reservas, Jayme de Almeida, o pai, comandou o Flamengo em sete oportunidades – nenhuma, entretanto, como efetivado. Acabou imortalizando a fama de “técnico tampão”.
O destino parecia repetir a história com sua cria. A primeira oportunidade veio em fevereiro do ano passado, em dois jogos que terminaram empatados antes de Joel Santana assumir. Neste ano, mais um confronto logo após a demissão de Jorginho. A terceira chance apareceu quando Mano Menezes surpreendeu a todos com um pedido de demissão. Acabou agradando, e foi efetivado.
“Sou profissional e também sou funcionário do Flamengo. Quando acontece, a responsabilidade fica a meu cargo. Espero corresponder à expectativa da diretoria e da torcida, que deve cobrar. Tenho que dar segurança e tranquilidade aos jogadores”, decretou, à época, o ainda envergonhado Jayme de Almeida, alheio aos holofotes e temeroso com o futuro.
Efetivação e apoio de ídolos
A timidez passou a ser deixada de lado após a efetivação. Mais precisamente após o empate contra o Botafogo, pela Copa do Brasil, que veio com a garantia do vice de futebol Wallim Vasconcelos de que Jayme permaneceria no cargo até o fim do ano. A partir daí, o treinador ganhou desenvoltura e analisou com a imprensa o clássico com lucidez. Sem respostas prontas, apenas mostrando personalidade.
Logo após a entrevista, Jayme foi surpreendido por antigos jogadores do clube. Adílio, Júlio César, Cláudio Adão e Leandro aguardavam o treinador para um abraço. O treinador, então, mostrou pela primeira vez seu lado emotivo. “É legal passar a vida inteira no esporte e fazer muitas amizades. É gratificante ver o Leandro, que não vem nunca ao Maracanã, e veio lá de Cabo Frio”, disse o treinador.
Funcionários do Flamengo também disseram à reportagem que o técnico foi às lágrimas com o apoio demonstrado por diversos ex-atletas flamenguistas. Zico, maior ídolo rubro-negro, por exemplo, ligou do Catar para desejar sorte ao amigo. Júnior, jogador que mais vestiu a camisa do clube, foi outro que fez questão de telefonar. “Eu me orgulho muito disso”, disse o comandante.
“O Jayme é de uma geração mais velha que a minha. Ele é da mesma geração do Zico, do Rondinelli, mas também é um irmão para mim. Éramos vizinhos, ele morava no Leblon, eu e o Júlio César éramos da Favela do Pinto. A gente sempre estava lá na Gávea com ele. Trabalhamos juntos no CFZ. Será um ótimo treinador”, analisou Adílio. “Quando a gente se encontra é sempre uma festa, um ajuda o outro”, contou Leandro.
Emoção e lágrimas com o neto
O ex-zagueiro e atual treinador efetivo do Flamengo mostrou seu lado emotivo também em outro episódio. Foi depois da goleada por 4 a 0 em cima do Botafogo que Jayme foi surpreendido no Maracanã pela visita de seu neto Breno, 12 anos. O rapaz, às lágrimas, deu um forte abraço no avô na frente de todos presentes à sala de imprensa pós-jogo. Flamenguista de nascimento, o menino emocionou o treinador.
“Hoje foi bonito demais”, falou, sobre a torcida no campo, o técnico. “O Jayme é muito emotivo, chora fácil sempre. Aposto que depois daquilo ele chorou no vestiário. E o Breno não se segurou porque é igualzinho ao avô”, contou Cláudia, mulher do treinador. “Já passei por várias emoções no Flamengo e foi diferente nesta noite”, definiu o próprio Jayme de Almeida na entrevista pós-jogo. “Foi marcante”.
Seriedade e bronca em Ibson
O jeito “paizão” e tranquilo de Jayme também conquistou o grupo de jogadores rubro-negros. Basta ver a mudança de espírito da equipe após a derrota para o Náutico e a demissão de Jorginho, em junho, por exemplo. O auxiliar praticamente não treinou a equipe. Só fez pequenas mudanças, como as entradas de Samir e Diego Silva. Deixou o Flamengo mais leve e organizado coletivamente para massacrar o Criciúma por 3 a 0.
O mesmo ocorreu depois de Mano se demitir. Com sua personalidade séria, o treinador conseguiu passar o que queria ao elenco e acabou afastando o Flamengo da zona de rebaixamento no Brasileiro. Um episódio em especial confirma como é o estilo de trabalho de Jayme na Gávea. Quando Ibson ainda estava no clube, constantemente perdia a calma nos treinos e “atacava” os colegas, que silenciavam devido ao passado do volante no clube.
Tudo mudou quando o ainda auxiliar Jayme entrou em ação. Após uma discussão ríspida com o meio-campista, o futuro treinador não deixou barato. “O Jayme deu um ‘sabão’ no Ibson, que acabou ‘baixando a bola’ e ficando quieto. O resto do pessoal adorou”, contou um funcionário do clube rubro-negro. No final, entretanto, todos fizeram as pazes. Pazes que, aliás, voltaram à Gávea com a efetivação de mais um interino na história do Flamengo. Veremos se trarão mais um título nacional.
Fonte: Terra
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